Desigualdade no Brasil e liberais: colocando os pingos nos respectivos Is (parte 2)

Joel Pinheiro da Fonseca, liberal notório da internet, fez um excelente vídeo defendendo a ideia de que desigualdade importa. Vamos, nesse texto, fazer algumas colocações extras aos argumentos expostos no vídeo.

Joel coloca dois argumentos em seu vídeo: (i) a desigualdade importa porque as pessoas não se importam apenas com seus bens, mas sim com suas posições econômicas relativas ao resto da sociedade; (ii) a desigualdade importa porque o poder econômico em demasia acaba exercendo poder político que distorce a democracia. Esses são ótimos argumentos, e seriam suficientes para fazer qualquer liberal repensar o senso comum propagado no seu meio de que “o que importa é a pobreza, não a desigualdade”. Mas, como sei o quanto é difícil fazer com que um argumento contrário às ideias da bolha ideológica em que um indivíduo está inserido convença esse indivíduo, vou apresentar mais um argumento, na esperança de que tal argumento ajude a furar a bolha.

O argumento é este: a desigualdade importa porque desigualdade em demasia prejudica o crescimento econômico. Até agora foram três canais identificados pelos economistas através dos quais isso ocorre, canais estes que estão representados no fluxograma da imagem abaixo.

Primeiro, a desigualdade em demasia faz com que políticas de redistribuição sejam facilmente implantadas, pois tais políticas são populares entre as camadas pobres, que acabam por ser a maioria esmagadora da população. Ocorre que a redistribuição de renda, em muitos casos, por aumentar o fardo fiscal sobre potenciais investidores, reduz o investimento e, consequentemente, o crescimento econômico (leia aqui um estudo sobre).

Um segundo canal, que está mais ou menos de acordo com o segundo argumento do Joel, diz que a desigualdade promove o rent-seeking, o crime e a corrupção, e isso prejudica o crescimento econômico. Aliás, o fato de a desigualdade promover a criminalidade é uma coisa mais do que estabelecida entre os especialistas, mas surpreendentemente ainda é algo negado por muitos liberais. Se você faz parte dessa turma, veja aqui, aqui ou aqui para uma chuva de dados e estudos sérios sobre o assunto.

Por fim, o terceiro canal pelo qual a desigualdade prejudica o crescimento é que, num cenário de desigualdade em demasia, não há demanda interna suficiente para que o país se industrialize e invista em novas tecnologias, de modo que o país permaneça subdesenvolvido por inércia. Uma redução na desigualdade expandiria o mercado interno e poderia promover a industrialização do país. Este é o modelo do Big Push, teorizado formalmente por Murphy et al.

Para quem gosta de História do Pensamento Econômico: a tese de que a desigualdade em demasia prejudica o crescimento econômico é relativamente nova — anos 90 em diante. Antes disso, acreditava-se que a desigualdade era, if anything, boa para o crescimento, pois com a desigualdade vem o acúmulo de poupança, com o acúmulo de poupança vem o investimento em capital físico, que por sua vez traria o almejado crescimento.

Esse pensamento vai ter o seu auge durante os anos 50, período em que os historiadores do pensamento econômico hoje relacionam com o “fetiche do capital”: a ideia de que bastava entupir um país de capital físico para ele se tornar desenvolvido. Acontece que a Nova Macroeconomia Política, nascida nos idos dos anos 80, veio para mostrar que o crescimento não é tão simples assim, pelo contrário: requer um conjunto de fatores dificílimos de serem arranjados corretamente. Um dos pilares básicos desta nova macroeconomia é justamente a ideia de que a desigualdade em demasia prejudica o crescimento. Para um compilado geral desta teoria, veja aqui.

Caríssimo liberal, se você mesmo assim ainda não se convenceu de que desigualdade importa — repetindo o jargão batido “pobreza é o que importa!” ad nauseam — pense então comigo: para se ter queda na pobreza precisa-se ter crescimento econômico, certo? Mas, veja só você, a redução na desigualdade promove o crescimento econômico, e portanto promove a queda da pobreza, então por tabela você precisa defender a redução na desigualdade! Que plot twist, hein?

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