Globalismo: Uma defesa

Uma visão cada vez mais partilhada por analistas e comentaristas políticos é que a velha separação política entre esquerda e direita é ultrapassada e menos acurada que a separação entre globalistas e nacionalistas. A The Economist já escreveu sobre isso, o grande historiador Yuval Harari já se manifestou sobre o tema e, inclusive, um proponente dessa nova separação analítica é o teórico da conspiração Olavo de Carvalho.

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Se por globalismo entendermos a doutrina que prega a união entre diferentes países e o fomento a instituições internacionais, e por nacionalismo entendermos a doutrina que prega o contrário, isto é, o fechamento dos países e a diminuição da importância dos órgãos internacionais — isto senão a sua completa aniquilação — então minha posição está fortemente do lado dos globalistas. E irei explicar neste texto o porquê.

Para tanto, irei dividir a minha defesa do globalismo em 3 partes: o defenderei de um ponto de vista econômico, de um ponto de vista humanitário e de um ponto de vista filosófico. Por fim, rebaterei algumas das contestações ao globalismo.

1. Uma defesa econômica do globalismo

1.1. Não existe globalização sem globalismo

Esta é a primeira coisa que deve ficar clara em um debate como este. Frequentemente vejo conservadores, e até mesmo supostos liberais, se dizendo a favor da globalização, mas não do globalismo. Isto é o mesmo que dizer gostar de pizza, mas não da massa de pizza. Ora, a globalização só é possível de existir porque é respaldada em um conjunto de órgãos supranacionais que a promovem. Se eles não tivessem promovido a queda nas barreiras tarifárias, os países ainda estariam com taxas de importação altíssimas, inviabilizando dessa forma a globalização.

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Taxa de importação média dos EUA entre os anos de 1900 e 2012. Perceba a queda brusca após a criação do GATT. Fonte: Dominick Salvatore — International Economics.

O principal desses órgãos é a Organização Mundial do Comércio (OMC, inicialmente chamada de GATT). Após a criação do GATT e seus subsequentes rounds, houve uma queda imensa na taxa de importação dos países. Os EUA, por exemplo, saíram de quase 60% de tarifa sobre seus importados para menos de 2% hoje em dia.

Outro órgão supranacional importante é a OCDE — Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico — que promove a boa governança e a organização econômica de seus países-membros.

E para quem duvida que a queda nas taxas de importação dos países beneficia seus moradores, apenas saiba que isto é consenso entre os especialistas no assunto. Se duvida, então pegue qualquer livro-texto de Economia Internacional e veja de que forma o fluxo internacional de bens e serviços beneficia quem dele toma parte. Se tem preguiça de fazer isso, então se contente com esta imagem:

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Ganhos de renda dos países-membros originais do TPP devidos ao acordo. Fonte: Peter A. Petri and Michael G. Plummer — The Economic Effects of the Trans-Pacific Partnership: New Estimates.

A imagem acima mostra que o ganho de renda até 2030 dos países-membros originais do acordo da Parceria Transpacífica (Trans-Pacific Partnership – TPP) é considerável (mais de US$ 120 bilhões, no caso dos EUA e do Japão). Ou seja, de modo geral, acordos de livre-comércio geram prosperidade.

Mas não é só de queda nas taxas de importação que vive a globalização. Ela precisa também de três coisas: primeiramente, queda nas barreiras não-tarifárias, isto é, nos empecilhos à importação que não são de natureza tarifária, como cotas de importação e restrições técnicas de importação, que barram o produto devido à forma como ele foi produzido, à natureza do produto ou aos materiais que o compõe. Como as barreiras tarifárias já estão baixas no mundo, os principais ganhos de comércio se dão hoje através de queda nas barreiras não-tarifárias, e essa queda nas barreiras não-tarifárias depende da padronização e harmonização legislativa e burocrática de diferentes países, e isso não é nada menos que a aplicação do globalismo. Veja, por exemplo, o acordo do TPP: ele gerará grandes ganhos a seus participantes, como mostra a imagem acima, mas a maior parte dos ganhos virão da queda nas barreiras não-tarifárias.

Por segundo, a globalização depende da harmonização de regras bancárias internacionais. O mercado financeiro é de natureza internacional, pois é imperativo para a diversificação de portfólio que a aplicação do capital ocorra em vários países simultaneamente, e dado que o mercado de crédito funciona através da alavancagem, então uma crise bancária que estoura em um lugar afeta o mundo todo. Daí a importância de regras quanto ao fluxo internacional de capital. Daí a importância do Acordo de Basileia, um acordo globalista por natureza.

A terceira coisa de que a globalização depende merece um tópico especial.

1.2. Se você defende a globalização, tem que defender a livre imigração

Mais desconexo ainda do que defender a globalização mas rejeitar o globalismo é defender a globalização mas rejeitar a livre imigração. Globalização não é apenas sobre livre circulação de bens e serviços ou de capital, mas também de pessoas. Se você defende os dois primeiros mas não o último, então você defende meia globalização. Não há nenhum problema com isso, desde que você seja honesto e admita que defende meia globalização. Mas ninguém pode se dizer um defensor da globalização sem defender a livre circulação de pessoas.

Primeiramente, existe um grande erro na percepção das pessoas quando o assunto é imigração: elas pensam que o seu país está abarrotado de imigrantes, quando na verdade têm bem menos imigrantes do que elas imaginam. Os motivos psicológicos por trás de tal percepção serão tratados adiante.

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A barra azul clara é o número estimado de imigrantes pela população; a azul escura é o número real.

Não é apenas por prazer em ver um mundo florido ausente de fronteiras nacionais que a minha defesa da livre migração se apoia. Ela também está baseada em motivos econômicos: o mundo ganharia muito em termos econômicos se deixasse as pessoas circularem livremente, como mostra a imagem abaixo.

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É claro que, em um mundo com terrorismo e diferenças significativas entre as culturas, o idealismo de uma circulação de pessoas sem absolutamente nenhuma restrição é sem propósito e, ademais, está longe de se concretizar. Alguma restrição tem que haver, para se minimizar a entrada de criminosos no país. Mas o mundo atualmente está longe de ter um fluxo desmedido de pessoas, pois qualquer eventual desvantagem da imigração, como pressão sobre os gastos do Estado de bem-estar social e aumento na criminalidade, seria compensada pelos seus ganhos econômicos.

Por isso que o Pacto Mundial de Migração da ONU deve ser visto com bons olhos por aqueles que querem ver um mundo próspero.

1.3. Aquecimento global: o calcanhar de Aquiles dos anti-globalistas

Que menino ingênuo aquele que pensa que a globalização se dá em um mundo perfeito e etéreo sem nenhuma falha de mercado. Ocorre que, nesse nosso mundo, existem várias falhas de mercado associadas à globalização, sendo a principal delas o aquecimento global.

O aquecimento global é uma falha de mercado pois a emissão de gases do efeito estufa pode ser feita sem que a empresa que os emitiu arque com seus custos associados. É, portanto, em termos econômicos, uma externalidade negativa, e sua resolução se dá mediante a internalização de seus custos. Por isso estou colocando-a aqui na seção sobre economia.

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Análise gráfica de uma externalidade negativa: x1 é aquilo que é produzido sem se levar em conta, vamos dizer, a poluição; já x2 é aquilo que se produz considerando-se a poluição. Fonte: Walter Nicholson & Christopher Snyder — Microeconomic Theory.

Ocorre que, como toda externalidade negativa, o aquecimento global está passível ao problema do carona: é de interesse de toda nação, assim como de toda empresa, que todas as demais combatam o aquecimento global, menos ela própria; dessa forma, ela vai obter os benefícios de um mundo sem mudanças climáticas, ou com poucas, ao mesmo tempo que colherá também os benefícios da sua própria poluição desenfreada. Por isso a necessidade da existência de órgãos supranacionais que criem regras, passíveis de punição para quem as descumpra, que promovam a luta contra as mudanças climáticas. Veja: se um país não cumprir o acordo, ele estará se beneficiando injustamente de um esforço supranacional, por isso a necessidade de sanções e boicotes àqueles que não cumprirem tal acordo.

É aqui que entra a silver bullet de muitos nacionalistas: sabendo que apenas órgãos supranacionais são capazes de combater o problema do aquecimento global, eles simplesmente negam que tal problema exista. Se você faz parte desse time, espero que meu texto que trata desse tema mude sua opinião. Se não mudar, só espero que sua influência política seja pequena, pelo bem das futuras gerações.

1.4. Destruição da fauna e flora mundiais

Isso também entra na seção sobre economia pois também pode ser analisado de um ponto de vista econômico. O problema da destruição da fauna e flora mundiais é aquilo que se chama de tragédia dos comuns: bens que são recursos comuns são utilizados mais do que deveriam, chegando muitas vezes à exaustão completa. O que são recursos comuns? São bens que não são nem rivais, isto é, cuja utilização por parte de um agente econômico não impede que outro agente o utilize, e nem excludentes, isto é, bens cuja utilização por um único agente gera custos de transação tão altos que impedem a sua utilização única.

Um exemplo bem didático desse fenômeno é a pesca marítima: um pescador sozinho não consegue influenciar a oferta total de peixes, por isso o bem é não-rival; também, tornar os mares propriedade privada geraria custos de fiscalização e de enforcement tão altos e tantos outros problemas emergiriam — como o problema de que fornecedores de internet teriam que pagar para ter seus cabos no fundo do mar — que torna o empreendimento de privatização dos mares impossível na prática, por isso os peixes do mar são bens não-excludentes. Então os peixes do mar são recursos comuns. É exatamente por esse motivo que o mundo tem que lidar hoje com o problema de pesca excessiva. Daí a necessidade da União Europeia restringir a pesca em seus mares, o que motivou os pescadores da Grã-Bretanha a votar em massa pelo Brexit.

O fato é que a fauna e flora do mundo são sobre-exploradas pois, por sua natureza, são recursos comuns. Ademais, sua exploração também gera externalidades negativas associadas ao aquecimento global: os custos de menos uma planta para retirar gás carbônico da atmosfera não são contabilizados pelo explorador de madeira na hora de fazer o desmatamento. Além disso, por questões éticas, muitas pessoas (incluindo esta que escreve) veem valor intrínseco na existência das espécies, e consideram uma lástima a extinção das mesmas gerada pela exploração desenfreada de seus nichos. Hoje o mundo passa pela sua sexta grande extinção: a extinção do antropoceno, gerada pelo ser humano. As atividades que estão gerando essa extinção, como desmatamento, poluição oceânica e pesca excessiva, não são taxadas ou suprimidas suficientemente e nem extensivamente — daí a necessidade de instituições globais que façam isso.

1.5. Novas corridas armamentistas à vista

1.5.1. A corrida pelo desenvolvimento da inteligência artificial

Já escrevi sobre isso antes aqui e vou replicar abaixo uma parte do texto:

Só temos uma tentativa para fazer as coisas corretamente: se na primeira tentativa os interesses da ASI não forem alinhados com os da humanidade, a possibilidade da extinção é eminente. Justamente por isso (pelo fato de só termos uma bala no tambor), a criação da ASI é uma situação do tipo winner takes all (o vencedor leva tudo). Se seu criador conseguir alinhar seus objetivos aos da ASI, pronto: ele se tornará um deus. Por isso, não espere que os governos, vamos dizer, da China ou da Rússia assistam sentados a criação da ASI entre as empresas do Vale do Silício: tais governos irão, desesperadamente, tentar criar uma ASI antes. Teríamos assim uma corrida armamentista, mas dessa vez na versão cibernética. Mas seria uma corrida armamentista mil vezes intensificada, pois daria aos seus criadores o poder de serem deuses.

Numa situação dessas, a probabilidade de que as coisas terminem em um genocídio sem precedentes é altíssima. Na ânsia e afobação de criar o quanto antes uma ASI, as chances de que os interesses dos criadores estejam alinhados com os da máquina são mínimas. Mas, se por um milagre os criadores da ASI conseguirem alinhar seus interesses aos da máquina, é possível que, então, dominados pela soberba e pelos seus poderes infinitamente superiores aos dos mortais, eles gerem genocídios e sofrimentos infindáveis aos mortais com a recém-adquirida ferramenta. Veja bem, se já fizemos isso várias vezes na história tendo apenas uma pequena diferença bélica (como o genocídio dos europeus aos índios) o que não faríamos se a diferença bélica fosse não apenas levemente superior, mas infinitamente superior, como obviamente seria o caso com a ascensão da ASI?

ASI é acrônimo para Artificial Super Intelligence, uma inteligência artificial tão poderosa que seria equivalente a um deus para nós.

A criação da ASI é apenas uma possibilidade, e muitos especialistas dizem que está muito longe de se concretizar, se é que um dia irá. Mas, tratando de questões mais imediatas, o desenvolvimento da inteligência artificial ainda é um problema. A tecnologia para criar armas inteligentes capazes de gerar genocídios já está disponível hoje, como mostra esse vídeo. Passar da possibilidade teórica para a concretização de fato é só uma questão de tempo, caso nenhuma medida que impeça isso venha a ser tomada.

Corridas armamentistas desse tipo são problemas de coordenação, que podem ser exemplificados por uma matriz de payoffs. Imagine uma situação em que dois países, A e B, têm a possibilidade de criar uma tecnologia bélica a partir do desenvolvimento da inteligência artificial (IA). Se o país A criar a tecnologia e o país B não, o país A terá poderio bélico e dominância geopolítica sobre B, de modo que A ganhará 10 unidades de bem-estar e B perderá 10; se B criar a tecnologia e A não, o contrário ocorre. Se ambos criarem a tecnologia, ninguém terá poderio sobre ninguém, mas haverá mais armas com capacidade destrutiva e as pessoas de ambos os países se sentirão mais inseguras, retirando assim 3 unidades de bem-estar de cada país. Se nenhum dos países desenvolve a tecnologia, ninguém sai perdendo e nem ganhando. Esse resultado está ilustrado na matriz abaixo.

Matriz de payoff dos países.

Em Teoria dos Jogos, se diz que o resultado (-3; -3) é um equilíbrio de Nash, pois criar a tecnologia bélica é a ação mais racional de cada nação, considerando as possíveis escolhas da outra. Mas é um equilíbrio ineficiente, pois perceba que ambas as nações ganhariam se elas saíssem dessa situação e escolhessem não desenvolver a IA, indo para o equilíbrio (0; 0). Mas, se deixadas cada uma por si, é impossível se chegar no resultado (0; 0), pois (-3 ;-3) é o equilíbrio de Nash, é o resultado estável. Como resolver esse problema de coordenação? Só vejo um caminho: mediante uma união dos países que faça com que o desenvolvimento da inteligência artificial se dê de forma pacífica e suave, concedendo o poder regulatório do desenvolvimento da IA a um órgão supranacional.

1.5.2. A corrida pelo desenvolvimento da engenharia genética

A edição genética está a todo vapor. Com a invenção do CRISPR, vemos já os prospectos da criação da vida através do design inteligente — não promovida por algum deus ou algo do tipo, mas por nós mesmos. A edição genética já tem o poder de modificar uma espécie inteira. Os primeiros humanos cujo embrião foi modificado geneticamente já nasceram.

Tendo isso em conta, é possível que surja uma corrida armamentista no futuro para desenvolver os seres humanos que o Estado julga serem os mais aptos para viver em sociedade. Pense o que um Estado totalitário como o chinês, ou pior, o norte-coreano, não faria com o poder em mãos de modificar o comportamento humano (uma vez que grande parte do nosso comportamento é determinado pelos nossos genes). Poderia facilmente surgir uma corrida entre os países para ver quem cria os cidadãos mais inteligentes ou mais obedientes. Novamente: apenas a união entre as nações é capaz de evitar cenários desse tipo. Um mundo em que cada nação toma suas ações sem preocupação com boicotes e punições é um mundo fadado à corrida inconsequente pelo ápice das tecnologias destrutivas. Daí a importância dos países se manterem politicamente unidos.

2. Uma defesa humanitária do globalismo

2.1. O mundo globalizado de hoje nunca foi um lugar tão pacífico. Agradeça à ONU

Os gráficos abaixo atestam essa pacificação.

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Mortes por homicídio, 1300–2015. Fonte: Steven Pinker — Enlightenment Now.
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Mortes por genocídio, 1956–2016. Fonte: Steven Pinker — Enlightenment Now.
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Mortes em batalha, 1946–2016. Fonte: Steven Pinker — Enlightenment Now.

É a primeira vez na história que o número de mortes por suicídio supera o número de mortes por homicídio. Hoje nós mesmos somos nossas maiores ameaças.

Ok, e o que causou toda essa pacificação? No rol de possíveis respostas está o poder de dissuasão das bombas atômicas, o maior grau de conexão entre os mercados e, sem dúvidas, a capacidade diplomática da ONU, pois os países passaram a utilizá-la como plataforma para defender seus interesses, ao invés de continuarem usando recursos antigos como a guerra. Imagine um mundo sem esse órgão. Certamente seria um mundo muito menos seguro. Um mundo onde cada país, para se proteger, teria que construir seu próprio arsenal nuclear, pois seria muito mais difícil, sem uma plataforma de fácil acessibilidade como a ONU, que os países conseguissem se reunir para condenar países agressores. Por isso me causa espanto quando vejo tribalistas reacionários propondo a extinção da ONU e, pior, afirmando que o mundo seria mais seguro dessa forma.

2.2. Ajuda humanitária

Sempre quando ocorre um desastre natural ou uma catástrofe humana de grandes proporções, como tsunamis e guerras, adivinha qual é o primeiro órgão a se mobilizar para levantar fundos e convocar staff para ajudar a salvar as vítimas dessas tragédias? O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), que pertence, veja você, às Nações Unidas. Sem esse órgão, seria muito mais difícil se mobilizar para ajudar as vítimas sempre que surgissem esses desastres. Está aí mais um motivo para você apoiar a ONU.

3. Uma defesa filosófica do globalismo

Nas savanas africanas, há cerca de 300 mil anos, surgiu uma espécie com 86 bilhões de neurônios, uma espécie com uma gigante proporção massa cerebral/massa corpórea. Curiosa, essa espécie começou a fazer perguntas sobre si mesma e sobre o mundo ao seu redor. De onde nós viemos? Para onde os mortos vão? Qual o nosso propósito aqui? O que é essa bola de fogo gigante no céu? O que são aquelas coisas pequenas e cintilantes que aparecem no céu quando a bola de fogo desaparece?

Aos poucos tais perguntas foram sendo respondidas pelos membros mais sábios de cada tribo. Essas respostas ilustres se cristalizaram no imaginário das tribos e foram passadas adiante de geração a geração. Com o tempo, depois de muito derramamento de sangue e da domesticação de algumas plantas, umas tribos dominaram as outras, e assim os primeiros impérios se formaram. As respostas das tribos dominadoras se sobressaíram às demais, ganharam vigor, e os sábios das tribos dominadoras se tornaram sacerdotes. A religião se institucionalizou. Dentre as guerras e ascensões e quedas de impérios, algumas das religiões ganharam um corpo cada vez maior de adeptos. Todas elas tinham respostas prontas bem elaboradas para as perguntas mais instigantes da espécie.

Tudo estava sob controle, e a visão de mundo dominante estava concatenada para dar todas as respostas necessárias para aquietar o intelecto. “De onde nós viemos?” “de Deus, obviamente”. “Para onde os mortos vão?” “para o céu, se seguirmos os mandamentos de Deus, ou para o inferno, se os descumprirmos”. “Qual o nosso propósito aqui?” “seguir os mandamentos de Deus e espalhar a sua mensagem”. “O que é essa bola de fogo gigante no céu?” “é um corpo celeste que gira em torno da Terra que Deus criou para aquecer a nossa espécie”. “O são aquelas coisas pequenas e cintilantes que aparecem no céu quando a bola de fogo desaparece?” “são corpos celestes menores que estão fixos em uma esfera gigante invisível que engloba todos os demais corpos celestes”.

Mas então alguns membros da espécie, curiosa por natureza, começaram a tentar responder a tais perguntas não através da leitura detida dos textos milenares sagrados, mas através da coleta de dados e criação de teorias baseadas nesses dados. Assim nasce a ciência, a ferramenta intelectual mais poderosa criada por essa espécie. Descobriu-se que a bola de fogo gigante no céu não girava em torno da Terra, mas ao contrário: a Terra girava em torno dela. Essa foi a primeira grande lição de humildade ensinada pela ciência. Descobriu-se que aquelas coisas pequenas e cintilantes que aparecem no céu quando a bola de fogo desaparece não são pontos fixos em uma esfera invisível gigante, mas astros do tamanho do Sol que estão muito longe; e que não existem apenas duas ou três mil delas, mas bilhões. Segunda lição de humildade. Descobriu-se que nós não viemos da criação direta de Deus, mas sim de um processo evolutivo gradual aparentemente sem propósito. Que pancada. Terceira lição de humildade. Descobriu-se que muitas do que se pensava serem nebulosas na nossa galáxia são na verdade outras galáxias que estão há milhões de anos-luz de distância, e existem bilhões ou trilhões delas no universo visível (tirando o universo além da visão, que acredita-se ser muito maior), cada uma com bilhões ou trilhões de estrelas. Ai. Quarta lição de humildade. Descobriu-se que o universo está se expandindo a uma taxa cada vez maior, e que tudo indica que toda a atividade no universo acabará daqui alguns trilhões de ano; dali pra frente existirá apenas energia uniformemente distribuída por todo lugar. Pra toda a eternidade. Quinta lição de humildade. A última lição de humildade dada pela ciência é que aquilo que as religiões milenares consideram a coisa mais sagrada no ser humano, o livre arbítrio, é uma ilusão: não existe tal coisa como livre arbítrio; todas as ações humanas são frutos de processos determinísticos ou aleatórios.

É óbvio que, com tanta pancada dada pela ciência no ego do ser humano, um backlash era mais do que esperado. Muitas pessoas simplesmente negam as descobertas da ciência e agem como se os escritos dos seus livros sagrados fossem verdadeiros. Que suas heranças culturais e suas tradições são sagradas. Muitas chegam mesmo a acreditar que a espécie humana foi criada de forma especial e cuidadosa por Deus todo-poderoso. Não é propósito desse texto fazer uma defesa extensiva das descobertas da ciência, apenas basta dizer que essas pessoas estão se auto-enganando, e que a filosofia de mundo mais saudável é aquela que abraça as descobertas científicas.

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Muitas pessoas pensam viver na imagem de cima, quando na verdade vivem na de baixo.

Uma vez que se abraça as descobertas científicas, é difícil fugir da conclusão de que não somos especiais porcaria nenhuma. Somos apenas mais uma espécie, dentre tantas outras, que surgiu recentemente, há cerca de 300 mil anos, e que vive em um pálido ponto azul que orbita uma estrela comum em um mar de 100 bilhões de estrelas que formam uma galáxia comum em um mar de 1 trilhão de galáxias. Diante da contemplação desse fato, se tornam tão mesquinhas e pequenas as brigas entre nações, religiões e etnias. Diante da grandeza do universo e da pequenez infinitesimal do ser humano, como se pode ainda defender o ponto de vista tribalista/nacionalista que quer segregar as pessoas baseando-se no lugar onde elas calharam de nascer? Impossível.

4. Respondendo contestações ao globalismo

4.1. Mas e o George Soros?

Claro que falar de globalismo sem tocar no nome do George Soros é tratar o assunto de forma incompleta. Isso porque um dos principais argumentos contra o globalismo diz que a agenda globalista é promovida por bilionários — sendo o principal deles o Soros — que têm por objetivo fazer uma lavagem cerebral na população e com isso destruir as culturas locais para implantar uma cultura biônica e homogênea no mundo inteiro. As provas disso, a narrativa continua, seriam as centenas de ONGs globalistas financiadas pela Open Society Fundations, pertencente ao George Soros.

Quem diz isso foi enganado direitinho por Birnbaum e Finkelstein, os formuladores originais das teorias atacando o bilionário e filantropo. Birnbaum e Finkelstein são dois grandes estrategistas políticos que ajudaram a colocar no poder muitos líderes mundais, entre eles Ronald Reagan, Benjami Netanyahu e Viktor Orbán. Birnbaum contou recentemente para a Buzz Feed News como toda a narrativa contra Soros tomou forma:

Orbán venceu as eleições de 2010 com uma maioria de dois terços à medida que o país se deslocava para a direita.

Birnbaum e Finkelstein, agora parte do círculo íntimo de Orbán, encontraram um problema. Enquanto o vencedor satisfeito da eleição começou a reescrever a constituição, eles estavam agora carecendo de um adversário. “Não havia um inimigo político real… não havia ninguém com quem brigar”, lembrou Birnbaum. O partido ultra-direitista Jobbik e o partido socialista foram espancados, deixados em farpas. “Tivemos um presidente com uma maioria histórica, algo que nunca havia acontecido na Hungria antes.” Para manter isso, eles precisavam de um “alto nível de energia”, disse Birnbaum. “Você precisa manter a base energizada, certificar-se de que no dia da eleição eles tenham uma razão para sair e votar”, disse ele.

“Sempre ajuda a reunir as tropas e reunir uma população”, quando o inimigo tem um rosto, explicou Birnbaum. “Arthur sempre disse que você não lutou contra os nazistas, mas contra Adolf Hitler. Não contra a Al-Qaeda, mas contra Osama bin Laden”. Quem poderia se tornar aquele inimigo na Hungria agora que Orbán estava no poder — e queria ficar lá?

Orbán estava ocupado criando uma nova e mais dramática história da nação. A Hungria, que havia colaborado com os nazistas, foi pintada como vítima, cercada por inimigos externos, em perpétuo cerco, primeiro dos otomanos, depois dos nazistas e depois dos comunistas. A missão da Hungria era clara: defender-se de seus inimigos e preservar o cristianismo contra a invasão do islamismo e das forças seculares.

Contra esse pano de fundo, Finkelstein teve uma epifania. E se o véu da conspiração fosse levantado e uma figura sombria aparecesse, controlando tudo? O mestre das marionetes. Alguém que não apenas controlou o “grande capital”, mas o incorporou. Uma pessoa real. Um húngaro. Estranho, mas familiar.

Essa pessoa era Soros, disse Finkelstein a Birnbaum.

Birnbaum ficou hipnotizado: Soros era o inimigo perfeito.

No começo, quase não fazia sentido. Por que fazer campanha contra um não-político? Embora ele nasceu na Hungria, Soros não morava lá há anos. Ele era um homem velho, conhecido em todo o país como um patrono da sociedade civil. Ele havia apoiado a oposição contra os comunistas antes da queda da Cortina de Ferro e depois financiou refeições escolares para as crianças. Em Budapeste, ele construiu uma das melhores universidades da Europa Oriental.

Mas Finkelstein e Birnbaum viram algo em Soros que faria dele o inimigo perfeito. Há uma longa história de críticas de Soros, desde 1992, quando Soros ganhou US $ 1 bilhão em apostas noturnas contra a libra esterlina. Para muitos à esquerda, Soros era um abutre. Mas Soros usou sua proeminência repentina para pressionar por ideias progressistas. Ele apoiou tudo o que a direita era contra: proteção climática, igualdade, os Clintons. Ele se opôs à segunda guerra do Iraque em 2003, comparando George W. Bush aos nazistas, e tornou-se um grande doador para os democratas. Ele logo foi uma figura de ódio para os republicanos.

Não demorou muito para os dois consultores convencerem Orbán a enfrentar Soros — o primeiro-ministro húngaro tinha “uma enorme confiança no intelecto de Arthur”, disse Birnbaum. A campanha anti-Soros foi útil para Orbán — e não apenas internamente. Externamente, agradaria a seus vizinhos russos. Putin tinha medo das chamadas revoluções de cores como a da Ucrânia e da Primavera Árabe, e começara a atacar Soros e seu apoio a causas progressistas.

O fato é que Soros é apenas mais um player na geopolítica mundial que tenta influenciar a opinião pública, fazendo doações a ONGs progressistas que lutam pelas causas que ele acredita. É um bilionário filantropo como tantos outros, e tenta influenciar a opinião pública como tantos outros — como os irmãos Koch e Robert Mercer, por exemplo, que lutam por causas conservadoras e libertárias. Mas está longe de ser esse monstro destruidor das famílias, como os conspiracionistas querem pintá-lo.

4.2. Mas e os terroristas?

O ser humano tem a tendência de enfatizar o lado negativo das coisas e negligenciar o lado positivo. Talvez isso seja um traço herdado pela seleção natural: aquelas pessoas que, no passado, olharam para uma figura estranha na mata e pensaram ser um predador e fugiram, mesmo quando não o era, sobreviveram e deixaram descendentes; enquanto que aquelas que não se preocuparam com a figura, mesmo quando era um predador, morreram prematuramente e não deixaram descendentes.

Adicione a isso a tendência da mídia de estar sempre noticiando as coisas negativas, e pronto: você terá uma população paranoica e amedrontada, que pensa que o futuro será horrível, mesmo que todos os dados apontem que o mundo é cada vez mais um lugar melhor para se viver. É por isso que as pessoas pensam, por exemplo, que existem muito mais imigrantes no país do que realmente existem.

Veja o caso do terrorismo: sempre que ocorre um atentado terrorista, a mídia não perde tempo em noticiá-lo sem parar, de modo que se cria no imaginário da população a noção de que o terrorismo é uma coisa muito pior do que ele realmente é. Olhando de um ponto de vista frio e distante, as mortes por terrorismo são muito menos graves do que parecem.

Um estudo encontrou que, entre 1975 e 2015, a chance de um americano ser morto em um ataque terrorista cometido por um refugiado foi de 1 em 3,64 bilhões ao ano, ao passo que a chance anual de ser assassinado por alguém que não fosse um estrangeiro terrorista foi 252,9 vezes maior do que a chance de morrer em um ataque terrorista cometido por um estrangeiro.

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A linha cinza é a taxa de homicídio por pessoas nascidas no país; a linha preta é a taxa de homicídio por terroristas estrangeiros. Fonte: Alex Nowrasteh — Terrorism and Immigration.

Dizer que as mortes geradas por terrorismo são menos graves do que aparentam não é tentar minimizar os ataques, muito menos passar pano para terrorista. A perda gerada pelos ataques são inestimáveis e a punição aos terroristas deve ser severa. Ocorre que tais mortes devem ser colocadas em perspectiva: o número de mortes por ataques terroristas islâmicos na União Europeia foi de 135 em 2017, aproximadamente o mesmo número de mortes causados por relâmpagos no Brasil em 2018. Não se vê tantos esforços e dinheiro mobilizado para se combater as mortes por relâmpago quanto para se combater as mortes por terrorismo, talvez pelo fato de que as mortes por terrorismo sejam infinitamente mais noticiadas.

O número de vidas mortas devido à migração islâmica na Europa é algo bem documentado, mas menos documentado, pois mais abstrato, é o número de vidas salvas por esta mesma migração. Imagine quantas pessoas não estavam desesperadas em seus países locais, e viram a migração para um local distante com uma cultura quase alienígena como a única forma de fugir da guerra ou da fome.

4.3. Mas e a destruição da nossa cultura?

Estudos psicológicos mostram que conservadores são menos tolerantes a ambiguidade, exibem maior necessidade pessoal por ordem e hierarquia, buscam evitar as incertezas, são menos abertos a novas experiências, têm maior medo da morte, da ameaça e da perda e veem o mundo como um lugar perigoso (para um compêndio desses estudos, veja esse artigo). Todos esses traços estão relacionados com o medo dos conservadores de verem suas culturas ruídas pela chegada de novos imigrantes.

Ocorre que esses traços estão em dissonância com as necessidades do mundo de hoje. O mundo de hoje é dinâmico, as mudanças ocorrem a um passo cada vez maior, e as pessoas que ficarem presas a modelos rígidos de mundo ficarão inexoravelmente para trás.

Veja as eleições presidenciais americanas de 2016. Foram eleições que dividiram claramente os eleitores em dois hubs. De um lado, os moradores de pequenas cidades e do campo, que votaram em massa por Donald Trump; de outro, os moradores das grandes cidades, que votaram em massa por Hilary Clinton. Ocorre que, em geral, aqueles que votaram em Clinton, os moradores das grandes cidades, são justamente aqueles que vivem nos locais mais prósperos e multiculturais dos EUA. Como afirma Will Wilkinson, o experimento progressista das grandes cidades funciona: pessoas de origens e religiões diversas prosperam juntas em sociedades livres e abertas. Trump ganhou uma maior participação de votos em lugares com menos pessoas nascidas no exterior. Os moradores desses locais são, portanto, menos propensos a encontrar um refugiado muçulmano ou um imigrante ilegal latino-americano — são mais propensos a terem uma visão distorcida das demais culturas.

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Nas eleições americanas, o número de condados em que Trump ganhou foi cinco vezes maior que Clinton, mas esses condados contam com apenas 36% do PIB norte-americano. As grandes cidades norte-americanas, multiculturais e diversas, prosperam, enquanto o campo e as pequenas cidades estão afundadas em estagnação e crise de opioides.

Por que aqueles que têm maior contato com outras culturas são justamente aqueles que mais valorizam o multiculturalismo e a diversidade, como atestou as eleições americanas de 2016? Porque essas pessoas veem que as pessoas de outras culturas não são um bicho-papão, e percebem que o preconceito para com elas é sem fundamento. Um dos principais achados da Teoria dos Jogos é que interações repetidas em ambientes de jogos ganha-ganha aumentam a confiança dos participantes de uns nos outros (como pode ser visto nesse joguinho). É justamente essa a situação que se passa nas grandes cidades norte-americanas: pessoas de várias origens, etnias e religiões interagindo e firmando contratos constantemente entre si. Nada mais propício para o aumento da confiança.

Ademais, a cultura não é uma coisa etérea e imutável. Conforme as gerações passam, ela se adapta a novas situações. Por que então imaginar que a nossa cultura atual deva permanecer imutável e sem nenhum ruído? Novamente, quando se contempla a imensidão em que vivemos, e levando em conta o fato de que a nossa cultura surgiu de eventos contingentes, é difícil imaginar um motivo para pensar que ela atingiu o pináculo da potencialidade humana e que deve permanecer como está.

Conclusão

Harari, neste vídeo, fala sobre os 3 grande desafios do século XXI: (i) a proliferação de armas nucleares; (ii) as mudanças climáticas; (iii) a disrupção causada pela tecnologia. Ele afirma que os estados-nações de hoje estão na posição que as várias tribos estavam há 5 mil anos: naquela época, as enchentes e secas dos rios causavam perdas consideráveis, mas nenhuma tribo tinha poder suficiente para construir sozinha diques e barragens. Foi a união das tribos que forneceu o poder suficiente para tanto, e a partir daí as tribos prosperaram e viraram as grandes sociedades do Egito, da Mesopotâmia, da Índia e da China. A incapacidade de lidar com os 3 grandes problemas supramencionados equivale à incapacidade de se construir barragens naquela época — mas hoje, apenas uma coalizão internacional é capaz de fazer frente a esses problemas.

Não estou pedindo para você abrir mão da sua identidade nacional. Peço apenas para que você amplie seus horizontes, e que além da fidelidade que você tem para com sua família, seus amigos, sua cidade e sua nação, você se fidelize com a espécie humana como um todo. Quero que adicione apenas mais uma camada de fidelidade — a camada necessária para os tempos em que vivemos. Não é difícil, basta tentar.

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