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setembro 24, 2021

Inflação em alta: por quê?

A inflação do Brasil nos últimos meses cresceu de maneira desproporcional. O choque vai além das expectativas projetadas pelo governo e para o mercado no ano de 2021.

O indicador tornou-se um vilão desde que ultrapassou o centro da meta, estabelecida no início do ano. A previsão estipulada pelo Banco Central (BC) foi de 3,75%, com um intervalo de 1,5% para cima e para baixo - ou seja, o limite máximo seria de 5,25%.

Mais um motivo para ligar o alerta e redobrar a atenção; estamos com 9% de inflação, nem fechamos o ano e estamos com quase o dobro do limite projetado pelo BC.

A preocupação da população e do mercado é de que maneira responderemos a essas pressões. Atualmente, já somos o terceiro país da América Latina com maior inflação, ficando somente atrás da Argentina com 51% e do Haiti com 17,9%, países que também enfrentaram crises econômicas nos últimos anos. De fato, grande parte do mundo também sofre com inflação, mas não o precipício que se tornou o Brasil. No ano passado, mesmo com a pandemia, fechamos em 4,52%. Foi o maior patamar desde 2016, porém era menos confuso que agora. Os preços sobem, o BC acompanha o índice elevando a taxa de juros, e mesmo assim as medidas para conter os aumentos têm se demonstrado ineficazes.

Para se ter uma ideia de como realmente perdemos a mão, há países emergentes como o nosso em que, mesmo no pico da pandemia e neste ano de 2021, os indicadores de inflação estão controlados e não há uma disparidade tão grande como a nossa comparando 2020 ou 2021. Exemplos:

Paraguai:
2020: 0,6%
2021: 1,2%

Peru:
2020: 1,9%
2021: 2,7%

Chile:
2020: 3%
2021:4,5%

Sim, o mundo passa por uma turbulência inflacionária, mas não dá para fechar os olhos aos problemas crônicos e estruturais que pioram esse indicador no nosso país.

Por que a inflação está tão alta?

Inúmeros fatores explicam a inflação no Brasil. Há um choque de demanda afetando o mundo todo, mas esse não é o único motivo de os preços terem inflado tão absurdamente em nosso país. Alguns pontos em especial fizeram as coisas saírem dos trilhos por aqui. Seguem algumas razões:

Há uma falta de coordenação entre a política fiscal e monetária. Por mais que existam grandes expectativas quanto às reformas estruturais no país – reforma da previdência, administrativa, tributária – o mercado não tem olhado com bom grado os projetos que vêm sendo apresentados. Em geral, são colocados muitos penduricalhos e mais burocracia, isso quando não apresentam aumento de impostos. O cenário é assustador: a cada momento que é apresentado um projeto, sofremos um baque negativo na bolsa, afastando cada vez mais possíveis investidores.

Sobre a alta do combustível no mercado internacional, o preço do barril de petróleo tem subido desde o início do ano. Há um choque de procura devido a um maior volume do combustível com a abertura comercial de novos países; há ainda a dinâmica da OPEC (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), onde alguns países têm segurado o volume de exportação do produto por conta da valorização do seu preço.

Valorização do dólar e desvalorização do real: tivemos uma das moedas que mais se desvalorizaram nos últimos anos em comparação com outros países. Em um ambiente de incerteza fiscal, apostamos em manter juros baixos. Em um período em que o mundo transbordava liquidez (expansão gigantesca do dólar) optamos por manter os juros a 2%. Somado à nossa instabilidade fiscal e nosso ambiente de negócios ultrapassado, grande parte do capital optou por não ficar aqui. O investidor foi para mercados mais promissores e isso contribuiu para a nossa moeda ser desvalorizada.

Aumento do diesel versus gasolinahá uma tendência de disparo de vários produtos que afetam a cesta básica brasileira. A commodity açúcar, por exemplo, aumentou 62,9% este ano. É um derivado na produção do etanol que ficou mais como a gasolina, que encarece o preço do frete e o empresário acompanha a dinâmica de preço, inflando o produto diretamente na gôndola. A participação do transporte rodoviário na logística brasileira é superior a 80%, o que cria uma dependência de combustíveis fósseis no transporte de produtos. O efeito reflete diretamente na formação de preço dos demais bens industriais: por ser um custo básico, há um efeito cascata. E automaticamente o próximo impacto será no custo do frete.

Cabe mencionar ainda uma seca histórica que assola todo nosso agro, reduzindo a produção de commodities como milho e soja, que são utilizadas para a alimentação de bovinos e aves através da fabricação de ração. Isso impactou bastante a elevação do preço da proteína. Essa seca refletiu diretamente na energia elétrica. Temos usado mais termelétricas, que, por utilizarem como combustível gás natural, biodiesel e carvão, são mais caras que as hidroelétricas - além de ser uma energia mais poluente. Com isso, tivemos o baque da nova mudança da tarifa de bandeira vermelha na conta de luz.

Quais impactos negativos com a inflação em alta?

A maior inflação levará à busca por aplicações em ativos de curto prazo. Nesses períodos, o dinheiro perde seu valor rapidamente. Há uma instabilidade gigantesca entre os preços, o que pode ser um problema. Quando investidores passam a creditar operações a curto prazo, isso quer dizer que o mercado aposta menos em poupar dinheiro e em um futuro previsível da economia. Isso desestimula a acumulação de riqueza, por falta de poupança de longo prazo.

Como impacto para sociedade podemos dizer que se existe um câncer econômico para o corpo social, ele se chama inflação. Os preços sobem disparadamente, não acompanhando a condição financeira da sociedade; os produtos se valorizam e o poder de compra regride. De 2020 a 2021, tivemos perda de R$200 no poder de compra. Se com esse valor você conseguia comprar a quantidade de produtos que necessitava, hoje terá que gastar mais para adquirir a quantidade de bens que deseja. Um produto que valia R$5,00 no passado, passa a valer R$10 e assim por diante.

Dificulta ainda o cálculo econômico e cria ineficiência, pois prejudica a tomada de decisões em um ambiente de incerteza, afetando todo o mercado, criando inércia na economia. É um risco adicional criado. Sem um ambiente de negócios promissor, é impossível uma retomada econômica e é impossível melhorar ou prosperar nesse indicador.

Segundo o professor Davi Simão Silber da USP, a inflação "dificulta o planejamento familiar, o planejamento financeiro. Atrapalha o crescimento do país, porque traz muitos riscos. Os empresários ficam mais cautelosos, e isso não é bom para o país. Quando tem inflação, seu custo está subindo e seu produto pode perder atratividade.

Impactos no longo prazo

Os preços altos em 2021 distorceram os reajustes dos contratos – escolas, plano de saúde, corretoras de imóveis, financeiras, etc. Esses movimentos devem impactar os preços em 2022.

Quando o BC eleva os juros, ele pretende esfriar a economia, retardando o consumo das famílias, tendo a intenção de conter a elevação dos preços. Mas mesmo com o BC elevando a taxa de juros, será difícil conter o avanço dos preços.

O surto de inflação será difícil de ser controlado. Se o BC sobe os juros, automaticamente as famílias tendem a economizar porque a remuneração sobre investimento irá aumentar com os juros altos. Se fosse forçosa a redução do consumo, a rentabilidade de quem economizou teria que ser maior.

É um cenário muito obscuro: os economistas ainda não conseguem projetar o movimento que teremos com o aumento da conta de luz, o BC não tem sido eficiente em suas respostas e as crises políticas não têm permitido previsibilidade.

Conclusões finais

A inflação esperada por um período curto pode ser mais constante do que imaginávamos e vem deteriorando a renda líquida de grande parte da sociedade. Os juros vão subindo com desemprego em alta, trazendo um risco gigantesco de inadimplência. A queda no rendimento líquido já tem afetado o varejo, especialmente em linha branca e linha marrom. Uma crise energética também pode estar se avizinhando, o que só saberemos após o comportamento das chuvas de novembro. O desequilíbrio político tem colaborado para que o mercado tome posições mais defensivas; investidores e mercados têm optado por adiar investimentos e esperar um cenário político mais claro.

Caminhamos a passos no escuro. As adversidades econômicas que vivemos vão além das vivenciadas no restante do mundo. Será impossível controlar a inflação com o fiscal abalado. O que vemos em Brasília é um jogo onde ninguém quer conter gastos. Após período de hiperinflação, o BC nunca presenciou tanta instabilidade quanto agora.

É sempre delicado falar de inflação, principalmente em um país que acabou de registrar a pior década da história em termos de crescimento. Se continuarmos assim, a projeção é sermos um país que não gera poupança, não investe e não enriqueça, mantendo o patamar de sempre, com uma população pobre.

Autor: Wadathan Pires

Revisão: Fernando Moreno

Fontes

Ibovespa cai 3,78% e tem maior queda desde março com crise política | Exame Invest

Plano Collor, o que foi? Contexto histórico, medidas e consequências (r7.com)

Mercado financeiro eleva para 7,11% estimativa da inflação em 2021 e vê alta menor do PIB | Economia | G1 (globo.com)

Mercado financeiro eleva projeção da inflação para 6,79% | Agência Brasil (ebc.com.br)

Ipea prevê inflação ainda mais alta em 2021 e acima do teto (correiobraziliense.com.br)

Mercado financeiro eleva projeção da inflação para 6,88% este ano | Agência Brasil (ebc.com.br)

50 anos do AI-5: Os números por trás do 'milagre econômico' da ditadura no Brasil - BBC News Brasil

'Milagre brasileiro' teve PIB recorde e semeou década perdida - 27/06/2020 - Poder - Folha (uol.com.br)

Entenda o que é a inflação no Brasil e por que está tão alta (dci.com.br)

Milagre econômico brasileiro – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

Hiperinflação no Brasil – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

Inflação no Brasil é a terceira maior da América Latina, atrás somente de Argentina e Haiti | Economia | G1 (globo.com)

G1 mostra a queda do poder de compra de R$ 200 em um ano | Economia | G1 (globo.com)

Seca pode provocar inflação e deixar alimentos mais caros; entenda | Economia | iG

Aumento no preço da gasolina também deixa a compra do supermercado mais cara | Seu Bolso | autoesporte (globo.com)

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