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maio 25, 2021

A morte do neoliberalismo é um grande exagero

O triunfo dos moderados é a história real.

Se há uma coisa com a qual os comentaristas conservadores e a esquerda concordam é a morte certa e iminente do temido "neoliberalismo" ou liberalismo corporativo ou liberalismo capitalista ou "centrismo" ou como você quiser chamá-lo. Na opinião de ambos os lados, os democratas estão trilhando um caminho que é uma imagem espelhada dos republicanos - em direção ao socialismo de estilo europeu e ao marxismo cultural que derrubará a ordem estabelecida que dominou o partido por décadas.

Suas evidências geralmente incluem a vitória de Alexandria Ocasio-Cortez nas primárias, a ascensão de Bernie Sanders, o domínio ideológico pelos justiceiros sociais* e pelos Socialistas Democráticos da América e, inevitavelmente, alguns acenos para a política dos campus universitários.

*Nota do Tradutor: no original, SJW, sigla para Social Justice Warriors.

Embora seja verdade que a esquerda progressista obteve algumas vitórias internas dentro do Partido Democrata - relevando as preocupações sobre aumento do endividamento e déficits e particularmente colocando a política de justiça racial em destaque - essas mudanças foram amplamente incorporadas à estrutura do establishment existente.

Enquanto as evidências eleitorais para a ascensão da extrema esquerda ainda são muito escassas, as contra-evidências são abundantes.

Eu começaria com, é claro, o exemplo óbvio da vitória esmagadora nas primárias do próprio Sr. Certinho*, Joe Biden, um homem cuja equipe sênior é composta principalmente de centristas do Democratic Leadership Council dos anos 90 e que se lessem em algum briefing a palavra Latinx pensariam que foi um erro de digitação. Ainda esta semana, Biden mais uma vez reforçou suas credenciais, colocando um freio no sonho progressista de eliminar o débito estudantil com universidades em sua primeira entrevista impressa para com, entre todas as pessoas, o sumo sacerdote centrista David Brooks. É apenas o exemplo mais recente de Biden defendendo a linha política mais tradicionalista de centro-esquerda, tendo rejeitado a expansão da Suprema Corte, do Green New Deal e do Medicare For All. Portanto, está claro que, por enquanto, o centro do partido se impôs.

*Nota do Tradutor: no original, normcore.

Mas o que dizer da ideia de que Biden seria o salto do gato morto do neoliberalismo? Que ele está desempenhando o papel que Romney teve em 2012, um suspiro final de normalidade antes da tempestade populista de Trump? Ou que a eleição de Biden, tornada possível apenas por causa dos temores dos eleitores de um segundo mandato do Homem Laranja Mau, apenas atrasou a tomada do partido pelos socialistas?

Bem, até agora, em 2021, essas teorias não estão acertando muito suas previsões. Na Louisiana, um democrata mais tradicional, ao estilo Clyburn, Troy Carter, venceu as primárias contra o que James Carville descreveu como o candidato mais “woke”*. Na Virgínia, o corporativista neoliberal Terry McAuliffe está massacrando seus adversários de esquerda. Mesmo na cidade de Nova York as pesquisas mostram que os dois candidatos que mais sofreram insultos pela esquerda progressista, Andrew Yang e Eric Adams, estão na liderança, embora ainda não sabemos se isso será mantido. 

*Nota do Tradutor: woke é outra gíria americana com sentido similar a de justiceiro social. Deriva de "stay woke", continue acordado.

Parte do que está acontecendo se explica pela mudança nas coalizões, com os "cães vermelhos*" indo para o campo democrata. Mas outra parte é simplesmente que “o Twitter não é a vida real”, como as pessoas costumam dizer, e os eleitores democratas não estão tão à esquerda quanto pode parecer pelas redes sociais.

*Nota do Tradutor: referência a migração de típicos eleitores republicanos para o partido democrata, devido ao radicalismo adquirido pelo partido republicano sob Trump.

Dê uma olhada nos dados recentes: são um banho de água fria na inevitabilidade do grande futuro socialista americano. 

Todos os anos, o Harvard Institute of Politics conduz uma avaliação das atitudes políticas entre os mais jovens. Em março deste ano, eles entrevistaram 2.513 jovens de 18 a 29 anos, encontrando 41% identificados como democratas, 22% como republicanos e 37% como independentes. 

A pesquisa fica realmente interessante quando você passa para as questões puramente políticas e examina de modo mais aprofundado como esses jovens eleitores respondem aos problemas. O que a pesquisa deixa claro é que a morte do neoliberalismo entre os zoomers* e os jovens millennials foi muito exagerada.

*Nota do Tradutor: outra gíria para se referir a Geração Z (Nascidos entre 90 e 2010).

Aqui estão suas opiniões em algumas áreas selecionadas.

  • Cortar impostos é uma forma eficaz de aumentar o crescimento econômico:
    • Concordo: 40% 
    • Discordo: 20%
    • Nenhum: 37%
  • A meta de nosso país na política comercial deve ser eliminar todas as barreiras ao comércio e ao emprego para que tenhamos uma economia verdadeiramente global:
    • Concordo: 39%
    • Discordo: 16%
    • Nenhum: 43%
  • Se os pais tivessem mais liberdade para escolher a escola de seus filhos, o sistema educacional neste país seria melhor:
    • Concordo 49%
    • Discordo: 18%
    • Nenhum: 32%
  • A recente onda de imigração para este país fez mais bem do que mal:
    • Concordo: 37%
    • Discordo: 24%
    • Nenhum: 37%
  • A administração Biden deveria auxiliar nos esforços para alívio da pandemia global, uma vez que todos os americanos já tiverem tido a oportunidade de serem vacinados:
    • Apoio: 64%
    • Me oponho: 21% 
    • Não sei: 14%
  • Joe Biden
    • 54% favorável
    • 37% desfavorável
  • Bernie Sanders
    • 51% favorável 
    • 32% desfavoráveis

Portanto, a pluralidade destes jovens eleitores quer cortar impostos, expandir o livre comércio, expandir a possibilidade de escolha de escolas pelos pais, apoiam a imigração e pensam que os EUA têm um papel de liderança a desempenhar no mundo - e ainda gostam de Joe Biden?

Pessoal, eu acho que temos um revival dos anos 90.

Autor: Tim Miller

Tradução: Fernando Moreno

Publicado originalmente dia 22 de maio de 2021 aqui.

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