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janeiro 5, 2021

Sobre Matrix, ditadores e supercomputadores, e o livre mercado; ou porque também devemos valorizar intrinsecamente o livre mercado

A teoria de máxima eficiência na alocação de recursos pelo livre-mercado poderia ser refutada por um (cada vez menos) hipotético supercomputador movido pela Inteligência Artificial? Um computador que saberia alocar recursos melhor que o próprio mercado?
E, mesmo nesse cenário, teria ainda motivos para defendermos uma alocação via livre-mercado, ainda que menos eficiente?

Imaginem os seguintes experimentos mentais:

Matrix: você pode escolher duas pílulas – uma vermelha e uma azul. A vermelha fará com que você continue vivendo sua vida, nada além disso. A azul fará com que você seja conectado àquilo que chamaremos de Máquina de Experiência. Nela, seu cérebro será retirado do seu corpo e será acoplado a uma máquina que te dará a experiência que quiser. Você poderá ter as experiências de um bilionário; de alguém que escreveu um grande romance, como “Vinhas da Ira”; de um grande instrumentista, como Eddie Van Halen; ou seja, a experiência que quiser. Você aceitaria ser conectado nessa máquina? (argumento inspirado em NOZICK, 1974).

O ditador e seu computador onisciente: a teoria epistemológica de Hayek seria refutada* pela existência de um ditador e seu supercomputador, um computador que sabe alocar recursos melhor que o próprio mercado. O processo de descoberta capitalista se torna, então, ineficiente e obsoleto perto dos conhecimentos do computador, que sabe dizer onde qualquer recurso terá seu valor de mercado mais elevado. Nessa sociedade, o ditador usa de seu computador como fiel guia de alocação de recursos, e nada além disso é permitido, configurando-se como uma ditadura em que a liberdade econômica é negada. Uma sociedade sob este tipo de ditadura será, portanto, mais próspera do que sociedades baseadas numa economia de livre mercado; todavia, o indivíduo não terá mais a liberdade de escolher como utilizar seus talentos e bens. Tal liberdade é deveras ineficiente perto da onisciência do computador do ditador. Se você trabalhar e investir seus bens conforme ele exigir, a sociedade não só será mais rica, como também menos pobre e desigual. Você gostaria de viver nesse tipo de sociedade?

Antes de responder diretamente o que esses dois casos têm a ver com livre mercado e liberdade, devemos responder o que você perderá caso responda afirmativamente as duas questões. No caso da Matrix, você somente será um receptáculo de experiências – isto é, você não é um agente. Você comete, de certa forma, suicídio, pois você, num sentido rigoroso, não é você. Você apenas recebe experiências prazerosas, não realizando nenhuma atividade. Você não é um grande instrumentista, apenas tem as experiências de um. Você poderia ter uma vida muito mais prazerosa do que a vida que teria se tivesse aceitado a pílula vermelha, mas sacrificaria sua autonomia e sua agência. É uma vida prazerosa (infinitamente prazerosa, se quiser), mas ausente de agência, já que você não realiza nenhuma ação.

No segundo caso, você poderia viver numa sociedade muito mais próspera e justa (no sentido de existir menos pobreza) do que a atual, mas também sacrificaria sua agência. Nela, você não é o criador de sua própria riqueza. Não se empreende, não se investe, não se trabalha, não se troca como bem entender. E no caso de impossibilidade de se empreender, também se torna impossível inovar e, com isso, criar e satisfazer novos gostos. Ou seja, por mais que essa seja uma sociedade mais justa e rica, é uma sociedade que negligencia a liberdade das pessoas de agir mediante suas próprias vontades, escolhendo onde trabalhar, o que produzir, e o que consumir. Nesse ponto, não significa dizer que devemos dar prioridade absoluta às liberdades econômicas, desprezando suas consequências, apenas significa dizer que a visão meramente instrumental do livre mercado ignora, ao desconsiderar o valor da escolha individual, o que torna a vida dos indivíduos valiosa e digna de ser vivida: o fato daquela vida, com todos os sucessos e fracassos, ser sua vida.

Já o mérito do sistema de mercado não reside apenas em sua capacidade de gerar resultados mais eficientes, mas também na forma com que confere aos indivíduos a liberdade de criar suas próprias vidas. Isso é uma reflexão que une pessoas como Robert Nozick, Adam Smith, e Amartya Sen (SEN, 2010). Sen, vale dizer, compreendeu que é um erro apreciar o mercado apenas em seus efeitos ou em termos derivativos, e reconheceu, junto com Smith, que a liberdade de troca e transação faz parte de um conjunto de liberdades que as pessoas têm razão intrínseca para valorizar. É claro que certos libertários e anarcocapitalistas podem levar essas liberdades a consequências esdrúxulas e contraintuitivas, mas, no mínimo, também compreendem que essas liberdades também têm função intrínseca, não apena instrumental. Então, sim, faz sentido viver numa sociedade menos próspera e mais injusta (talvez muito mais injusta) do mesmo jeito que faz sentido viver uma vida menos prazerosa, não conectada à Matrix e à máquina de experiência, pois essas são vidas mais completas do que as vidas alternativas.

Pode-se argumentar que os dois experimentos não são iguais. No primeiro, há a liberdade de escolher qual tipo de experiência a pessoa receberá; no segundo, nem isso existe. De fato, está correto, mas devemos ressaltar que o fato de um ditador e seu computador onisciente conseguirem alocar recursos – inclusive sua própria força de trabalho - de forma mais eficiente que o livre mercado pouco importa se o que você quer – e é racional que queira – é viver sua vida com a capacidade de trabalhar, trocar, produzir, e consumir o que bem entender. Da mesma forma, pouco importa a liberdade de escolha de quais experiências receber se o que você quer é fazer as coisas e, com essa realização, receber experiências.

*Não é nosso intuito discutir se a teoria de Hayek realmente pode ser refutada por um megacomputador. Tratemos apenas como um exemplo.

Referências

NOZICK, R. Anarchy, State, and Utopia. Basic Books, 1974.

SEN, A. Desenvolvimento como liberdade. Edição: Edição de bolso ed. São Paulo
(SP): Companhia de Bolso, 2010.

Autor: Caio Motta

Caio Motta é graduado em Ciências Sociais pela Unesp Araraquara (Faculdade de
Ciências e Letras de Araraquara - FCLAR). Tem interesse nas áreas de filosofia política,
mais especificamente o debate sobre justiça distributiva.

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