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julho 25, 2023

Nos últimos anos, nossa classe média, que nunca foi das mais cultas do mundo, se meteu num poço de cafonice que parece não ter fundo: é discurso motivacional barato de coachings, bajulação feita para inflar egos e ganhar engajamento nas redes sociais, literatura de autoajuda de quinta categoria, charlatanismos e pseudociências vendendo soluções milagrosas de eficácia para lá de duvidosa, esquemas de pirâmide ou mesmo golpes financeiros descarados, tudo isso baseado em economia e sociologia de boteco, temperados com toques de espiritualidade dados pela teologia da prosperidade.

A real é que: se o mercado funciona, então você não vai ficar rico com o mercado financeiro.

É lamentável ver o quanto essa cafonice toda vem sendo entusiasticamente promovida por pessoas que se consideram liberais ou conservadoras, ainda que este pensamento vá contra tudo o que postula o liberalismo, o cristianismo, a cultura nacional, a ciência ou mesmo o mais básico bom senso. Feito esse desabafo, vamos para o tema central desse artigo.

Dentro desse estado de coisas, um item que não foi citado anteriormente são os cursos de como ficar rico em pouco tempo. Para vocês terem uma ideia, alguns destes cursos prometem, por exemplo, ensinar como ganhar na loteria. O que na minha época chamavam de golpe do bilhete premiado, hoje é vendido como receita para a prosperidade que "o sistema não quer que você saiba", com direito a anúncios pagos nas redes sociais. Outros oferecem algo um pouco mais sutil: enriquecer através de investimentos em ativos financeiros, mas as chances de sucesso por essa via são igualmente remotas e os adeptos do liberalismo econômico, a turma que, ao contrário dos socialistas, diz entender de economia, deveriam ser os primeiros a desconfiar.

Liberais acreditam que o estado não deve interferir excessivamente na economia e acreditam nisso porque, em tese, uma economia de mercado possui uma alta capacidade de se regular automaticamente. Dessa forma, a interferência do estado, na maioria das vezes, acaba atrapalhando mais do que ajudando. O mais ferrenho defensor dessa tese, responsável por mantê-la viva nos períodos em que ela mais era desacreditada, o economista austríaco Friedrich Hayek, argumentava que a informação necessária para tomar decisões econômicas estava dispersa na própria economia e nenhum indivíduo ou entidade isoladamente jamais conseguiria reunir toda a informação necessária para controlar toda a economia. Não só isso, ele dizia também que o preço de um bem, numa economia de mercado, já trazia embutido em si toda a informação necessária sobre a escassez ou abundância relativa daquele recurso ou bem econômico.

Já os economistas mais contrários ao livre mercado e mais favoráveis à intervenção do estado costumam dar ênfase maior nas chamadas falhas de mercado, em especial nas externalidades e na assimetria de informação. Embora praticamente todo economista ortodoxo aceite a realidade das falhas de mercado, eles podem discordar quanto à abrangência delas. Alguns acreditam que o mercado funciona na maior parte das vezes. Estes tendem a ser mais simpáticos aos mercados livres. Já outros acreditam que as falhas do mercado são maiores do que suas próprias virtudes e, por isso, são mais favoráveis à intervenção do governo.

Essa discussão acabou chegando ao mercado financeiro onde hoje concorrem duas teses conflitantes: a tese dos mercados eficientes e a tese dos mercados ineficientes. A tese dos mercados eficientes acredita que o mercado tem uma alta capacidade de coordenar toda a informação necessária para a formação dos preços de ativos financeiros e, por isso, os ativos já trazem em seu preço toda a informação necessária. Partindo disso, seus adeptos chegam a uma conclusão bastante importante: nenhum investidor individual possui mais informação do que todo o mercado em seu conjunto. Toda informação relevante já está contida nos preços, não há nenhuma informação que um investidor possa ter que já não esteja refletida nos preços dos ativos. Com base nisso, a conclusão é de que nenhum investidor jamais vai conseguir obter resultados positivos muito superiores à média dos outros investidores em seus investimentos, pelo menos não por muito tempo. Por isso, os adeptos da teoria dos mercados eficientes costumam recomendar estratégias de investimento mais passivas e conservadoras: investimentos indexados, de baixo custo e uma carteira diversificada. Nada que vá te deixar rico da noite para o dia. Aliás, não tem como ficar rico da noite para o dia, e qualquer um que tente te convencer do contrário provavelmente está tentando te vender alguma coisa.

Já os adeptos da tese dos mercados ineficientes acreditam que as falhas de mercado desempenham um papel importante. O problema da assimetria da informação pode fazer com que alguns indivíduos tenham informações que o resto do mercado não possui e esses investidores podem obter ganhos acima da média. Estes economistas também são céticos quanto à capacidade do mercado de refletir devidamente toda a informação necessária, por isso, acreditam que alguns ativos são subvalorizados, enquanto outros são supervalorizados. Com base nisso, suas estratégias se baseiam em tentar identificar ativos sendo vendidos a um preço abaixo do seu valor real e vendê-los no momento em que o mercado finalmente percebe seu valor, o famoso "comprar na baixa e vender na alta". Mas perceba que para confiar nessa estratégia, você precisa necessariamente acreditar que o mercado é bastante falho em refletir as informações necessárias devidamente e no devido tempo. Com base nisso, os adeptos da tese dos mercados ineficientes costumam recomendar investimentos mais arrojados e com promessas de retornos maiores. Importante pontuar, contudo, que mesmo os defensores da tese dos mercados ineficientes dificilmente acreditam em receitas garantidas para enriquecimento acelerado.

Claro que nem sempre as duas correntes, a do liberalismo econômico e a dos mercados financeiros eficientes, estão necessariamente ligadas. Existem economistas que acreditam, por exemplo, que o mercado funciona para a grande maioria dos bens, mas quando se trata do mercado financeiro as coisas já não funcionam tão bem assim. Mas no geral, os economistas adeptos da tese dos mercados eficientes, e dentre estes se destacam Eugene Fama, da Universidade de Chicago e Burton Malkiel, autor de livros sobre investimentos, também costumam ser simpáticos ao livre mercado como um todo, enquanto que os adeptos da tese dos mercados ineficientes, como Robert Shiller, Joseph Stiglitz e Richard Thaler, costumam advogar uma maior interferência do estado na economia.

Inclusive, Burton Malkiel foi professor de graduação de John Stossel, famoso apresentador de TV libertário e que foi um dos maiores divulgadores do liberalismo econômico na grande mídia americana. A influência do primeiro sobre o segundo ficou bem evidente em um dos programas apresentados por Stossel. Em seu famoso livro de 1973, “A Random Walk Down Wall Street”, Malkiel declara que “um macaco vendado, jogando dardos nas páginas de finanças de um jornal, conseguiria montar um portfólio que se sairia tão bem quanto um cuidadosamente escolhido por especialistas”. Stossel resolveu reproduzir essa experiência, confirmando a afirmação de seu professor.

Por conta disso, os defensores mais intransigentes da ideia de que o mercado é capaz de se regular sozinho deveriam ser também os mais céticos quanto às promessas de enriquecimento rápido e milagroso no mercado financeiro. Isso não vem acontecendo porque, infelizmente, o preparo intelectual dos liberais brasileiros é algo lastimável. É essa falta de cultura que vem empurrando tanta gente para o poço sem fundo da cafonice que se abriu sob nossos pés.

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