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novembro 16, 2021

Resposta curta

Porque ela é a principal representante política brasileira atual de uma esquerda arejada e à par da literatura moderna em ciência política e economia.

Resposta longa

O início do século XX representou uma era de organização social das massas trabalhadoras em torno de bandeiras políticas que melhor representassem as demandas da classe trabalhadora. Nesse contexto, havia, por exemplo, Rosa Luxemburgo e companhia buscando revolução na Alemanha, o Partido Trabalhista inglês inspirado por ideias socialistas fabianas ganhando força política no Reino Unido, e vários outros movimentos, que estão documentados em livros como "Capitalism and Social Democracy", do cientista político Adam Przeworski.

Essa onda de mobilização trabalhista foi relativamente bem absorvida na maioria dos sistemas democráticos estabelecidos dos países ocidentais. As demandas sociais adentraram as assembleias nacionais, e modificações políticas para satisfazer tais demandas ocorreram "de dentro pra fora" do sistema político. Isto é, os movimentos sociais dos países ocidentais desenvolvidos (sobretudo no seu eixo anglo-saxão) foram absorvidos para dentro do establishment político e fizeram mudanças a partir de dentro do sistema.

Mas o mesmo não aconteceu em muitos países do terceiro mundo, principalmente pelo fato de não possuírem instituições democráticas consolidadas. Havia, nesses países, isso sim, elites privilegiadas que exploravam a população local mediante um sistema coercitivo extremamente repressivo. Os principais exemplos de países onde as organizações sociais não usaram dos mecanismos políticos existentes para suprir suas demandas -- mas sim destruíram completamente tais mecanismos e colocaram novos no lugar -- são Rússia e China.

O problema é que essa subversão radical das instituições existentes desses países gerou sofrimento humano em uma escala inimaginável, devido a perseguições políticas e desastres econômicos. Segundo estimativas conservadoras, apenas na União Soviética 20 milhões de pessoas morreram devido às ações e omissões políticas, e outras 40 milhões na China. Compute também nesse cálculo o morticínio em outros países comunistas, e então você vai ter o desastre humanitário gerado pelo comunismo na Terra. Ou seja, no fundo, o que essas revoluções fizeram foi apenas trocar uma elite privilegiada e exploradora por outra.

Dados esses desastres, cientistas políticos e economistas começaram a se perguntar porque movimentos políticos que supostamente tinham a intenção de apenas satisfazer as demandas do povo trabalhador acabaram descambando para regimes sanguinários. A resposta curta a essa pergunta pode ser resumida em uma palavra: incentivos. Ora, é óbvio que se o grupo de pessoas que controla a formulação das leis (e, portanto e em última instância, o comportamento das pessoas na sociedade) não possuir nenhum feedback da sociedade que o puna quando ele fizer coisas que estão em desacordo com as vontades da população e o premia quando estão de acordo com tais vontades, então, continuando, é óbvio que há grandes chances de que isso acarreta em desastres na sociedade.

Ora, o sistema democrático, apesar de, todos sabem, ser imperfeito, ele possui esse mecanismo de feeback. A punição é a não-reeleição nas próximas eleições (ou o impeachment, em casos extremos), e o prêmio é a reeleição nas próximas eleições (e coisas adicionais mais abstratas, como o afeto da população). Então a democracia possui checks and balances que garantem que as leis formuladas não estejam em completo desacordo com a vontade social. O mesmo, obviamente, não pode ser dito de regimes autocráticos, como os regimes socialistas de partido único, uma vez que neles não há o feedback social, pois não há eleições (ou, se há, são forjadas e embasadas em condicionalidades tão extremas que, na prática, impedem a divergência de opinião e cortam o fluxo de feedback).

Mas essa noção de necessidade de alinhamento de incentivos entre a população e a classe política não surgiu de uma só vez -- foi sendo construída aos poucos. Socialistas do séc. XIX como Karl Marx tinham uma noção extremamente rudimentar e infantil de como seria o "governo do proletariado". Alinhamento de incentivos, problemas de coordenação econômica na ausência de preços, problemas na existência de um partido único -- absolutamente nada disso estava na mente desses primeiros socialistas (com algumas notáveis exceções, como o anarquista Mikhail Bakunin).

Mas então vieram os desastres humanitários gerados pelos Estados totalitários -- e com eles teorias políticas para tentar explicá-los. A maior parte dessas teorias veio depois da segunda metade do séc. XX, sobretudo porque no início dos anos 50 uma ferramenta analítica poderosa foi criada para estudar relações de poder e dominância: a teoria dos jogos.

Com o ferramental necessário para estudar rigorosamente o funcionamento das relações de poder em mãos, dezenas ou centenas de trabalhos muito influentes foram desenvolvidos. Um deles é "The Logic of Collective Action", de Mancur Olson, publicado em 1965, que esboça como privilégios políticos e econômicos são concedidos a minorias organizadas em detrimento da maioria difusa e desorganizada. Esse trabalho deu origem a toda a literatura a respeito da "escolha pública", e um dos principais achados dessa literatura é que há uma tendência quase que "inercial" dos agentes políticos de concentrarem poder para obter privilégios e benefícios. Se não houver contratendências firmes a esse movimento, há cada vez mais chances da sociedade ficar desorganizada. Essas ideias permearam toda a literatura recente sobre ciência política. Um livro muito bom que faz um resumo desses achados é "The Dictator's Handbook", de Bruce Bueno de Mesquita e Alastair Smith.

Além do campo da ciência política, houve grande avanço analítico e empírico em economia. Ao longo do século passado, muita coisa foi aprendida sobre quais são os determinantes do enriquecimento de uma nação. A começar pela área de "desenho de mecanismos", que -- baseada também na teoria dos jogos -- descobriu a importância do ajuste fino do desenho institucional para que o bem-estar social aumente. Também a área de crescimento econômico fez descobertas relevantes, como as pesquisas de Robert Barro demonstrando como a educação, a baixa inflação e o cumprimento de contratos são importantes para o desenvolvimento de um país. Há também os achados da economia política (que em grande medida estão entrelaçados com os de ciência política), que colocam grande enfoque nas instituições inclusivas como promotoras do desenvolvimento (veja, por exemplo, aqui e aqui).

Essa sofisticação na ciência de analisar as relações de poder e como elas se manifestam e na ciência da analisar como um país se desenvolve foi, obviamente, absorvida pelos grandes centros de ensino e pesquisa ao redor do mundo. Tabata, por ter estudado em um desses grandes centros (Harvard), absorveu esses ensinamentos, e procura utilizá-los na sua prática como deputada.

A esquerda sofisticada, por certo, esteve à par dos avanços científicos sobremencionados. Ela se modernizou, aprendeu com seus erros do passado (alguns deles atrozes), e hoje defende pautas modernas como educação, meio ambiente e inclusão social. Mas, ao contrário disso, boa parte da esquerda ficou congelada no tempo, presa ao conforto dos velhos jargões (veja um exemplo disso aqui). Para ela, todos esses avanços nas ciências sociais e econômicas não passam de verniz ideológico supostamente científico da classe dominante para justificar sua dominação perante a classe dominada. Pesquisadores dessa área seriam, continua a narrativa marxista, meramente mercadores da ideologia burguesa (mesmo que alguns deles sejam bem-intencionados). Obviamente, não há como refutar esses argumentos, uma vez que eles não são falseáveis: qualquer contra-argumento que você colocar na intenção de mostrar como eles estão errados, eles vão dizer que esse argumento faz parte do pacote ideológico burguês.

É essa esquerda reacionária que ataca avidamente a deputada Tabata. Isso porque Tabata é uma herege: ela é uma pessoa de esquerda que aceita as teorias modernas da ciência política e economia, e as utiliza em sua busca por um mundo menos pobre e desigual.

Para parte da esquerda, Tabata Amaral não deveria existir.

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