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agosto 4, 2021

Por qual motivo não há países libertários? Por Steven Pinker

Todos nós temos os mesmos valores? Sim, mas o libertarianismo não é um deles.

Pode parecer que a humanidade discorda sobre valores fundamentais, mas os dados dizem que, na verdade, não discordamos.

Neste vídeo Steven Pinker explica por qual motivo o libertarianismo é uma ideia periférica. Abaixo, traduzimos a transcrição do vídeo.

Às vezes as pessoas dizem que na ausência de religião não pode haver valores morais e, por essa razão, nunca pode haver valores com os quais todos concordam. “Somos inerentemente conflituosos. A condição humana é um conflito entre os povos porque eles simplesmente nunca poderiam concordar em seus valores”.

Bem, refutando essa visão temos desenvolvimentos como a Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948 e os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, onde as nações do mundo concordaram com uma série de marcos os quais a humanidade deveria se esforçar em alcançar – relacionados à saúde, longevidade e educação – e alguns dos quais foram atingidos anos antes, como a redução da pobreza extrema, geralmente definida como mais ou menos o que uma pessoa precisaria para se sustentar e a sua família, o que foi atendido vários anos antes do previsto. Neste momento, menos de 10% do mundo vive em estado de extrema pobreza, e o sucessor dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, chamados de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, clama pela eliminação da pobreza extrema até 2030. Um objetivo surpreendente, que de forma alguma está fora do alcance.

Um desenvolvimento que tanto a esquerda quanto a direita desconhecem é uma força quase inexorável que leva as sociedades afluentes a dedicar cada vez mais suas riquezas aos gastos sociais, à redistribuição, às crianças, à educação, à saúde, ao apoio aos pobres e aos idosos.

Até o século 20, a maioria das sociedades dedicava, no máximo, um 1,5% de seu PIB aos gastos sociais e, geralmente, bem menos do que isso. Mas, começando na década de 1930 com o New Deal nos Estados Unidos e acelerando na Europa após a Segunda Guerra Mundial com o estado de bem-estar, agora a mediana de gastos sociais das sociedades é de 22% do PIB.

Os Estados Unidos estão um pouco abaixo disso. Contudo, mesmo isso é enganoso, porque temos muito bem-estar feito pelos empregadores. É assim que obtemos nosso seguro saúde. É assim que obtemos nossa aposentadoria. Em outros países, é o governo que intermedia isso. Mas se você adicionar os gastos sociais privados à parte pública, os Estados Unidos tem, na verdade, o segundo maior gasto com bem-estar de todo o mundo. Este é um desenvolvimento às vezes chamado de Lei de Wagner e parece que tentar resisti-lo é fútil.

Até mesmo políticos conservadores como George W. Bush presidiram outra expansão do estado de bem-estar com benefícios para aquisição de medicamentos pelo Medicare. E as tentativas do governo Trump de revogar o Obamacare, por exemplo, foram frustradas por eleitores furiosos carregando tochas.

As pessoas gostam de gastos sociais, apesar de declarações contrárias, mesmo na América libertária. E, de fato, provavelmente não é uma coincidência que o número de paraísos libertários no mundo – isto é, estados desenvolvidos sem gastos sociais substanciais – seja zero. E à medida que os países em desenvolvimento se desenvolvem, à medida que começam a se tornar ricos, eles entram na onda e começam a desenvolver programas de gasto social.

A expansão dos gastos sociais não deveria ser um choque porque, mesmo acreditando nos princípios do livre mercado, existem algumas coisas que o mercado não consegue fornecer, por design. Ninguém espera que o mercado forneça ajuda para crianças pobres. Simplesmente não é algo que os mercados conseguem fazer. Ou os idosos, ou as pessoas azaradas sem nada para oferecer no mercado em troca do que poderiam para ter uma vida decente. E assim as sociedades ricas têm de fornecer o que o mercado, por definição, não consegue – considere isso uma espécie de remendo ou gambiarra necessária - ou, como dizemos, uma rede de segurança.

Autor: Steven Pinker

Tradução: Fernando Moreno

Publicado originalmente em 07 de março de 2018 aqui.

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