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agosto 2, 2021

Geração de mimados? Não no Brasil!

Sobre Zs, Millenials e Boomers

Ao pesquisar sobre distribuição de renda nacional por idade no nosso país eu me lembrei da clássica e mal envelhecida matéria do El País em que a manchete nos diz "Geração canguru, os jovens que escolheram não sair da casa dos pais". Essa manchete ilustra o ideário boomer de que, hoje em dia, o jovem e o jovem-adulto (na nomenclatura queridinhas dos RHs, os Millenials e a Geração Z) são mimados, ou medrosos, não gostam de pegar no pesado, etc.

Para os estudiosos da área são claras as razões dessa manchete estar completamente errada. Para os que simplesmente não sabiam disso, aqui vai algumas informações através de gráficos muitos simples e imagens que podem te ajudar a compreender por que essa matéria (e toda ladainha do ideário boomer) estão totalmente descolados da realidade brasileira.

1 - A taxa de inflação nos anos de nascimento dos Millenials brasileiros

Fonte: Banco de Tabelas e Estatística IBGE, elaboração própria.

Neste simples gráfico, podemos observar que durante boa parte do período em que nasceu a geração Millenial (ok, isso os Gen Z não sentiram na pele) havia um índice de inflação galopante e insistentemente alto que resultava em fome e baixo poder de compra (incluindo compra de serviços educacionais) que só foi contido através do Plano Real e seu posterior sucesso.

Apesar do controle da inflação, a geração milleninal não conseguiu alcançar a tão sonhada “paz econômica” pois, apenas 20 depois do implemento do Plano Real, o Brasil acabaria por mergulhar em outra crise, a pior de sua histórica democrática, a crise de 2014-18, que trataremos de ver no próximo tópico.

2 - O foguete que ia decolar explodiu

Capas da revista The Economist de 2009 e de 2013.

Se você é da Geração Z talvez seja muito novo para lembrar, mas estas foram as capas da influente revista de economia e política The Economist em 2009, quando o Brasil vivia um período de otimismo, com anos relativamente bons para a economia brasileira e grandes expectativas para a década seguinte, e de 2013, época em que o Brasil já enfrentava os enormes protestos contra a presidente Dilma, patinava na economia e não tinha nenhuma perspectiva de melhora para o futuro.

Tudo foi por água abaixo devido à má gestão do Governo Dilma (e provavelmente por erros já cometidos pela gestão Lula 2) que abandonaram o receituário econômico neoliberal de responsabilidade nos gastos públicos e regras iguais para a competição no livre-mercado, preferindo o embolorado desenvolvimentismo com gordos empréstimos para empresários pagos por todos nós.

Tirando empresários como Eike Batista, claramente boomer, difícil pensar em muitos brasileiros que tenham se beneficiado nessa época, principalmente Millenials ou Geração Z. Ah! Justiça seja feita, tivemos os Turistas sem Fronteiras, mas essa é outra história...

3 - O desemprego no Brasil só aumentou

Fonte: Banco de Tabelas e Estatística IBGE, elaboração própria.
Fonte: Banco de Tabelas e Estatística IBGE, elaboração própria.

Infelizmente o IBGE não nos disponibiliza dados anteriores a 2012, portanto só nos resta analisar os números da última década.

Através dos gráficos acima podemos ver a disparidade de desemprego que existe entre o “geral” da sociedade brasileira e os mais “jovens”. Por exemplo, entre os jovens de 18-24, a série histórica de desemprego se mantém quase sempre com o dobro de pontos percentuais em comparação com a taxa geral de desemprego. Em 2012 a taxa de desemprego geral foi de 6,9% enquanto a dos jovens de 18 a 24 anos foi de 14,2%, mais que o dobro. Espantoso, não?

Alguns boomers chamarão de vadiagem. Não se trata aqui de negar que alguma autodisciplina e a iniciativa pessoal podem ajudar na busca do sucesso profissional individual. Mas esse problema coletivo não pode ser explicado pelo somatório de “jovens preguiçosos”. Fica claro pela leitura dos gráficos que temos um problema complexo onde o país não consegue gerar empregos para sua população.

4 – A renda nacional foi parar nas mãos dos mais velhos

Neste conjunto de gráficos vemos como está distribuída a renda brasileira sob a ótica da idade. Observamos nele que a renda média nacional nos últimos anos enfrentou uma concentração nos grupos mais velhos: em 1976 ela se concentrava nos jovens de 26 a 30 anos; em seguida, no ano de 1986, passou a se concentrar nos adultos de 31 a 35 anos; depois, em 1996, se concentrou nos adultos de 36 a 40 anos; já em 2006 ela se concentrava no grupo de 41 a 45 anos; e, por fim, em 2015 se tornou mais homogênea e passou a ser distribuída numa faixa etária maior que ia dos 31 até os 55 anos, com a faixa etária de 16 a 25 anos sendo responsável por cerca de apenas 8% da renda total nacional.

Chama atenção o crescimento da participação na renda total nacional o grupo de 71 anos ou mais, fruto do nosso disfuncional sistema previdenciário, que na época da compilação de dados do PNAD (2015) não havia ainda sido reformado.

É claro que tais dados sinalizam antes de mais nada o envelhecimento populacional. Estamos vivendo mais e morrendo menos cedo, e isso é positivo.

Também é natural alguma concentração de renda nos grupos etários de maior idade, pois ela ocorre em todo o planeta. Pode até ser tida como saudável em alguma medida, ainda mais se lembrarmos que antes da prosperidade capitalista os idosos improdutivos podiam ter destinos tenebrosos. Pode ser vista como a recompensa justa pelos anos de trabalho suado. O que não se pode defender, contudo, é a existência de privilégios, tornando certas aposentadorias totalmente desproporcionais a existente em qualquer lugar do mundo e levando os Millenials e Geração Z a terem que arcar com cargas cada vez mais pesadas para bancar a aposentadoria dos Boomers.

5- Pandemia e considerações finais

O único tópico que imagem não se faz necessária, afinal: morre-se mais gente a cada dia. O Millenial e o GenZ, apesar de ser atribuído e associado ao “mimimi” e à “vida fácil” está passando por um dos momentos mais difíceis da história mundial, mas que está muito pior no caso brasileiro. Os custos, sejam eles econômicos, educacionais, emocionais, dentre tantos, marcarão essas gerações e provavelmente a próxima, que talvez já deva ter um rótulo adequado: a Geração P, de Pandemia.

Os gráficos acima listados e a presente situação sanitária não nos deixam mentir: é o jovem quem enfrenta, querendo ou não, o desemprego, a falta de renda, a pandemia e a fome. Atribuir a essa geração o pesado fardo de “optar” por não sair da casa dos pais não passa de mero devaneio e especulação que em nada tem a ver com a realidade em que o país se encontra.

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