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julho 28, 2021

O incêndio e a discussão

Como já foi noticiado, no último sábado, dia 24 de julho, a escultura do Borba Gato que fica na Zona Sul da Capital Paulista foi incendiada. O ato foi reivindicado pelo grupo Revolução Periférica, um grupo relativamente novo nas redes sociais.

O debate em cima desse ato e, principalmente, a atitude dos que defenderam o ato deixa muito claro a desonestidade intelectual de uns e a completa ignorância histórica de outros. Não tenho pretensão alguma em defender aquela pitoresca homenagem a um assassino mateiro, inclusive, inesquecível é o espanto que o monumento me causou na primeira e única vez que vi.

A discussão em cima desse fato é um excelente objeto de estudo por possibilitar a análise dos discursos sem se deixar contaminar tanto com as paixões que a figura poderia evocar, pelo menos para alguém que não veio de São Paulo como eu.

Os bandeirantes são uma mitologia criada no começo do século passado com o fim de criar um orgulho paulista. Muito da representação gráfica provavelmente é fantasiosa: uma vez que eram pessoas que viviam em conflitos nas matas e muito provavelmente não usariam aqueles enormes chapéus, por exemplo.

Já Borba Gato foi um bandeirante que conquistou o Título de Guarda-mor do distrito das Minas do Rio das Velhas e o perdão pelo assassinato do Administrador-geral das Minas em troca dos mapas das minas de pedras preciosas que ele dizia ter. Naquele momento existia um grande interesse de Portugal em explorar as minas e não seria qualquer comunidade indígena que iria impedi-la.

Haverá quem queira chamá-los de brancos, porém o quanto é preciso chamar um mestiço que falava Tupi de branco? Além de desonesto, é bem racista não reconhecer a mestiçagem desses grupos, excluindo a presença Tupi-guarani da nossa história.

Além disso, em suas redes sociais o grupo se dirige ao bandeirante como racista, demonstrando um terraplanismo histórico. Borba Gato foi um degenerado, assassino, aventureiro, no pior sentido que a aventura poderia ter, mas está longe de ter sido um assassino metódico ou uma pessoa investida em alguma forma de pureza racial. Os bandeirantes estiveram investidos em guerras contra indígenas, sim, mas motivados pelos interesses comerciais de Portugal e não pela identidade histórica das respectivas tribos.

Me espanta o quanto intelectuais que muito provavelmente conhecem esses crimes ao comentarem sobre o incêndio e o que ele representa comentam sobre bandeirantes de forma genérica e omitem a história do Borba Gato. E francamente, se não conhecem a figura, saibam da responsabilidade que têm como comunicadores e estudem antes de reproduzir o discurso de certas correntes políticas. É no mínimo irresponsável, para não dizer desonesto.

De qualquer forma, eu me solidarizo com o sentimento de insatisfação das próprias condições sociais que motivaram o ato, mas não com o vandalismo. Por fim, se for para cancelar genocidas, pelo menos busquem alguém que de fato tenha causado um genocídio no Brasil. Com certeza há exemplo - inclusive enquanto falamos.

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