Procure no site:

janeiro 17, 2021

A importância das mulheres na luta contra o aquecimento global

"Aprimorar os direitos e bem-estar de mulheres e garotas pode melhorar o futuro da vida nesse planeta."

O texto abaixo é uma tradução livre de um excerto do livro Drawdown — The most comprehensive plan ever proposed to reverse global warming — Edited by Paul Hawken ("O plano mais abrangente proposto para reverter o aquecimento global").

O livro compila uma lista das 100 soluções mais eficazes no combate ao aquecimento global, estimando seus custos, redução de emissões e também o retorno econômico no longo prazo.

Clique aqui para acessar a lista completa das soluções.

Mulheres e Meninas

Essa seção é enganosamente pequena no livro. As soluções aqui listadas focam na maior parte da humanidade, os 51% de mulheres. Nós as destacamos pois a mudança climática não é neutra quanto ao gênero. Por conta das desigualdades existentes, mulheres e garotas são desproporcionalmente mais vulneráveis aos impactos do aquecimento global, desde doenças até os desastres naturais. Ao mesmo tempo, mulheres e garotas são figuras-chave para combater o aquecimento global com sucesso — e para a resiliência geral da humanidade. Como você poderá observar, a exclusão e marginalização conforme o gênero causam dano a todos, enquanto que a equidade é boa para todos. Essas soluções demonstram que aprimorar os direitos e bem-estar de mulheres e garotas pode melhorar o futuro da vida nesse planeta.

Tabela resumo do Impacto Esperado

Image for post

Nota do Tradutor: a tabela acima faz a estimativa de impacto apenas das soluções destacadas nessa tradução. Para uma lista completa das soluções voltadas a reversão do aquecimento global, ranqueadas, acesse aqui.

Planejamento Familiar

Mulheres poderem planejar o tamanho de suas famílias, o intervalo entre uma gravidez e outra, e terem filhos por escolha e não por sorte são questões de autonomia e dignidade. Cerca de 225 milhões de mulheres em países de baixa renda dizem que gostariam de poder escolher quando ficarem grávidas mas não têm o acesso necessário a contraceptivos — resultando em cerca de 74 milhões de gravidezes indesejadas por ano. Esse problema também persiste em alguns países de primeiro mundo, incluindo os Estados Unidos, onde 45% das gravidezes são indesejadas. Garantir o direito fundamental ao planejamento familiar, voluntário e de alta-qualidade teria um impacto positivo poderoso na saúde, bem-estar e expectativa de vida tanto de mulheres quanto de crianças ao redor do mundo. Os benefícios para o desenvolvimento social e econômico são inumeráveis e, por si só, mereceriam ação rápida e continuada. O planejamento familiar também pode ter efeitos em cascata na mitigação das emissões de efeito estufa.

No começo dos anos 70, Paul Ehrlich e John Holdren desenvolveram a hoje famosa equação conhecida como IPAT: Impacto = População x Afluência x Tecnologia. De modo simplificado, ela afirma que o impacto que os seres humanos têm no meio ambiente é uma função do número de habitantes, do seu nível de consumo e do tipo de tecnologia usada. Muito do trabalho visando ao aquecimento global tem focado na parte da equação relativa à tecnologia, abandonando progressivamente os combustíveis fósseis. Outros focaram na afluência, objetivando reduzir o apetite dos consumidores por coisas, particularmente nos países ricos. Combater o terceiro fator, população, continua sendo questão controversa, apesar da concordância generalizada de que mais pessoas colocam mais tensão no planeta, ainda que de maneira desigual. Cada pessoa consome recursos e gera emissões durante toda sua vida; esses impactos são muito maiores para alguém nos Estados Unidos do que para alguém no Uzbequistão ou Uganda. A emissão de carbono por pessoa (conhecida como “pegada de carbono” — carbon footprint) é um tópico comum no meio ambientalista. Porém, falar sobre quantos “pés” estão deixando de “fazer uma trilha” não é tópico comum, em grande parte por preocupações de que relacionar o planejamento familiar à saúde do meio ambiente possa ser inerentemente coercitivo ou cruel — malthusiano em seu pior sentido. Contudo, quando planejamento familiar foca no fornecimento de assistência médica e no atendimento às necessidades explícitas das mulheres, empoderar, equalizar e fornecer bem-estar são os objetivos; benefícios ao planeta são apenas um efeito colateral.

Desafios para a expansão do acesso ao planejamento familiar vão desde o fornecimento básico de contraceptivos culturalmente apropriados e com preços acessíveis até a educação quanto ao sexo e a reprodução; desde hospitais muito distantes até a atitude hostil de certos prestadores de serviços médicos; das normas religiosas e sociais até a oposição dos parceiros ao uso de controle de natalidade. Atualmente o mundo carece de US$ 5,3 bilhões em fundos para o fornecimento de acesso à saúde reprodutiva que as mulheres afirmam desejar.

Image for post

As histórias de sucesso no planejamento familiar, contudo, são impressionantes. O Irã iniciou um programa no começo dos anos 90 que é promovido como um dos de maior sucesso na história. Completamente voluntário, ele envolveu os líderes religiosos, educou o público e forneceu acesso gratuito a contraceptivos. Isso resultou numa queda pela metade das taxas de fertilidade em apenas uma década. Em Bangladesh, a taxa média de natalidade caiu de seis crianças em 1980 para duas hoje, por conta de uma abordagem porta-a-porta, pioneira do hospital Matlab, espalhada por todo o país: trabalhadoras de saúde fornecendo cuidados básicos para as mulheres e crianças onde vivem. Essas e outras histórias de sucesso mostram que apenas o fornecimento de contraceptivos é raramente suficiente. O planejamento familiar requer reforço social, por exemplo através de programas de rádio e novelas de televisão que agora são usadas em muitos lugares para alterar a percepção do que é “normal” e “correto”.

Depois de se calar sobre o tópico do planejamento familiar por mais de 25 anos, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) incluiu o acesso a serviços de saúde reprodutiva em seu relatório de síntese de 2014 e apontou o crescimento populacional como fator importante na concentração de gases do efeito estufa. Crescente evidência sugere que o planejamento familiar tem o benefício adicional de construir resiliência — ajudando comunidades e países a melhor lidar e se adaptar às inevitáveis mudanças trazidas pelo aquecimento global. Isso também tem implicações para as mulheres e crianças, que, por conta das desigualdades existentes, sofrem desproporcionalmente quando impactadas, de doenças à desastres naturais.

Contudo, esse tópico ainda é tabu em muitos países e instituições, cercado pela crença persistente de que levantar a questão sobre a população, ou abordagens que visam a reduzi-la, é inerentemente draconiano e uma afronta ao valor da vida humana. Pode ser o oposto num planeta cada vez mais aquecido e lotado: para reverenciar a vida humana é necessário garantir uma casa viável e vibrante para todos. Honrar a dignidade de mulheres e crianças por meio do planejamento familiar não diz respeito a governos centralizados forçando uma queda da taxa de natalidade — ou para cima, por meio de políticas natalistas. Nem é sobre organizações ou ativistas de países ricos, onde as emissões são as maiores, dizendo às pessoas em outros lugares para pararem de ter filhos. É mais essencialmente sobre liberdade e oportunidade para as mulheres e o reconhecimento de um direito humano básico. Atualmente, o planejamento familiar recebe apenas 1% de toda verba da ajuda externa internacional. Esse número poderia dobrar, com o objetivo de que os países de baixa renda coloquem uma igual contraparte, uma atitude moral que também teria muito significado para o planeta.

Análise de Impacto

O aumento na adoção de serviços de saúde reprodutiva e planejamento familiar é um componente essencial para alcançar a projeção populacional de 9,7 bilhões de pessoas em 2050, de acordo com a média estimada pelas Nações Unidas em 2015. Se os investimentos em planejamento familiar, particularmente em países de baixa renda, não se materializarem, a população global poderá se aproximar da projeção superior, acrescentando 1 bilhão a mais de pessoas no planeta. Nós modelamos o impacto dessa solução baseados na diferença entre quanta energia, espaço construtivo, comida, lixo e transporte seriam usados, comparado àquele da projeção de 9,7 bilhões. O resultado seria a redução de emissões em 123 gigatoneladas de dióxido de carbono, a um custo médio anual de US$10,77 por usuário em países de baixa renda. Como a educação de garotas (próximo tópico) tem um importante impacto no uso de planejamento familiar, nós alocamos 50% do potencial total de redução de emissões para cada solução — 59,6 gigatoneladas para cada.

Educação de Garotas

A educação de garotas acabará tendo um efeito dramático no aquecimento global. Mulheres com mais anos de escolaridade administram ativamente sua saúde reprodutiva, têm menos crianças, e essas crianças têm mais saúde. Em 2011, a revista Science publicou uma análise demográfica do impacto da educação de garotas no crescimento populacional. Ela detalha um cenário de “via rápida”, baseado na escalada da Coréia do Sul de um dos menos para um dos mais educados países do mundo. Se todas as nações adotassem uma taxa similar e alcançassem 100% de matrículas de garotas no ensino primário e secundário, em 2050 teríamos 843 milhões de pessoas a menos no mundo (ao comparar com a população que teríamos ao manter as atuais taxas de matrícula). De acordo com a Brookings Institution, “a diferença entre uma mulher sem nenhum ano de escolaridade e uma com doze anos de escolaridade é de 4 a 5 crianças por mulher. E é precisamente nessas áreas do mundo onde garotas estão tendo dificuldade em conseguir acesso à educação que o crescimento populacional é mais rápido”.

Nos países mais pobres, a emissão de gases de efeito estufa é baixa. Pessoas não têm energia suficiente para higienizar adequadamente sua água, ler ou estudar à noite, ou energizar seus pequenos negócios. No mundo, há 1,1 bilhão de pessoas que não tem nenhum tipo de energia elétrica. De 0,1 tonelada de dióxido de carbono por pessoa em Madagascar a 1,8 toneladas na Índia, as emissões per-capita nos países de menor renda são uma fração da taxa americana de 18 toneladas por pessoa/ano. Apesar disso, mudanças na fertilidade desses países teriam múltiplos benefícios em virtualmente todos os níveis da sociedade global.

O Quênia teve ganhos significativos na educação, com mais de 80% de todos os garotos e garotas matriculados na educação primária. Na educação secundária, a taxa de matrícula caiu para 50% para ambos os sexos. Pobreza é a principal causa da baixa taxa de matrícula e, dadas as atuais normas socioeconômicas, garotos recebem prioridade no ensino superior quando há alguma restrição financeira.

A ganhadora do prêmio Nobel e ativista pela educação de garotas, Malala Yousafzai, ficou famosa por ter dito, “uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo”. Um enorme corpo de evidências apoia sua convicção: primeiramente, crianças educadas recebem salários maiores e têm maior mobilidade social, contribuindo para o crescimento econômico. As taxas de mortalidade materna caem assim como a de seus bebês. Elas são menos sujeitas a casarem quando crianças ou contra sua vontade. Elas têm menor incidência de AIDS e Malária — efeito conhecido como “vacina social”. Suas terras agrícolas são mais produtivas e suas famílias melhor alimentadas. Elas são mais empoderadas em seus lares, no trabalho e na sociedade. Um direito intrínseco, a educação proporciona a fundação para vidas vibrantes de garotas e mulheres, suas famílias e suas comunidades. É a mais poderosa alavanca disponível para romper o ciclo de pobreza inter-geracional, enquanto mitiga emissões de CO2 ao limitar o crescimento populacional. Um estudo econômico de 2010 mostra que investimentos em escolarização de garotas são “altamente custo-competitivos com quase todas as opções existentes de abatimento de emissões de carbono” — talvez apenas US$ 10 por tonelada de dióxido de carbono.

A educação também proporciona resiliência quanto aos impactos da mudança climática — algo que o mundo irá necessitar conforme a temperatura aumentar. Nos países de baixa renda, há uma forte ligação entre as mulheres e a vida comunitária e familiar. Mulheres, geralmente e cada vez mais, desempenham o papel de administradoras da alimentação, solo, árvores e água. Conforme garotas educadas se tornam mulheres educadas, elas podem fundir o conhecimento tradicional herdado com as novas informações acessíveis por meio da palavra escrita. Conforme os ciclos de mudança que estão por vir se concretizem — novas doenças danificando árvores frutíferas, alteração na composição do solo de jardins e dos tempos de semeadura —, mulheres educadas estarão no comando, buscando conhecer as múltiplas maneiras de observar, entender, reavaliar e agir para sustentar a si mesmas e aqueles que delas dependem.

Educação também equipa as mulheres para enfrentarem as mais drásticas mudanças climáticas. Um estudo de 2013 concluiu que educar garotas “é, isoladamente, o fator econômico e social mais importante associado à redução de vulnerabilidade a desastres naturais”. O mais importante é a conclusão a que chegam examinando as experiências de 125 países desde 1980 e ecoam em diversas outras análises. Garotas e mulheres educadas têm uma melhor capacidade para lidar com choques advindos de desastres naturais e eventos ambientais extremos e são menos prováveis de se acidentarem, serem deslocadas ou mortas em tais desastres. Essa redução de vulnerabilidade também se estende às suas crianças, famílias e aos mais idosos.

Image for post
Malala Yousafzai, nascida no Vale Swat, no norte do Paquistão, é uma ativista pela educação de garotas. Educada principalmente por seu pai, Yousafzai foi reconhecida muito jovem pela comunidade global pelo seu comprometimento com os direitos à educação sob o espectro da crescente influência do Talibã em Swat. Em outubro de 2012, um atirador do Talibã tentou assassinar Yousafzai enquanto ela ia de ônibus para casa após fazer uma prova. Malala é a mais jovem ganhadora de um prêmio Nobel e continua seus estudos, além de seu trabalho por meio da Fundação Malala, que objetiva garantir 12 anos de educação de qualidade e segurança para garotas ao redor do mundo.

Nos últimos 25 anos, a comunidade global aprendeu muito sobre a educação de garotas. Muitos desafios dificultam as garotas de obterem o direito à educação e ainda, ao redor do mundo, elas têm se empenhado para conseguir um lugar na sala de aula. Barreiras econômicas incluem a falta de recursos monetários de suas famílias para o pagamento de uniformes e mensalidades escolares, assim como o benefício mais imediato de ter as garotas buscando água ou lenha, trabalhando em mercados ou no cultivo da terra. Barreiras culturais englobam crenças tradicionais de que garotas deveriam cuidar do lar ao invés de aprender a ler e escrever, deveriam se casar cedo e, quando os recursos estão curtos, serem preteridas aos garotos no recebimento de educação. A segurança também é uma barreira. Escolas que são distantes de casa colocam as garotas em risco de sofrerem violência baseada em seu gênero em seu caminho de ida e volta, para não mencionar os riscos e desconfortos dentro da própria escola. Deficiência, gravidez, parto e a mutilação genital feminina também configuram obstáculos.

As barreiras são reais, mas também o são as soluções. As abordagens mais efetivas combatem o problema de acesso (escolas a preços acessíveis, próximas e apropriadas para as garotas) e qualidade (bons professores e bons resultados de aprendizado). Mobilizar comunidades para apoiar e sustentar o progresso na educação de garotas é um acelerador poderoso. O livro enciclopédico “O que funciona na Educação de Garotas" (What Works in Girls’ Education) mapeia sete áreas de intervenções interconectadas:

  1. Escolas com preços acessíveis. Por exemplo, fornecer às famílias uma pequena remuneração para manter as garotas na escola.
  2. Ajudar garotas a superar as barreiras de saúde. Por exemplo, fornecendo tratamento contra verminoses.
  3. Reduzir o tempo e a distância para chegar à escola. Por exemplo, fornecer bicicletas às garotas.
  4. Tornar as escolas mais amigáveis às garotas. Por exemplo, oferecendo creches às mães jovens.
  5. Melhorar a qualidade das escolas. Por exemplo, investir em mais e melhores professores.
  6. Aumentar o engajamento da comunidade. Por exemplo, treinar ativistas comunitários pela educação.
  7. Sustentar a educação de garotas durante emergências. Por exemplo, estabelecendo escolas em campos de refugiados.

Hoje, 62 milhões de garotas são negadas o direito de ir à escola. A situação é mais triste no ensino secundário. No sudeste asiático, menos da metade das garotas — 16,3 milhões — estão matriculadas no ensino secundário. Na África Subsaariana, menos de 1 em 3 garotas estão no ensino secundário e, apesar de 75% de todas as garotas iniciarem os estudos, apenas 8% terminam o ensino secundário. Atualmente, a ajuda internacional para projetos de educação é de aproximadamente US$ 13 bilhões anuais. Dada a relação entre a educação de garotas e o aquecimento global, fundos para a mitigação e adaptação ao novo clima poderiam permitir ao mundo escalar as soluções rapidamente. Poderia ser um poderoso casamento entre a necessidade de fundos para a educação e a necessidade mundial por soluções climáticas comprovadas. Ademais, sincronizar o investimento na educação de garotas com aqueles relativos ao planejamento familiar seriam complementares e se reforçariam mutuamente. A educação está baseada na crença de que cada vida borbulha com um potencial inato. Quando pensamos em aquecimento global, nutrir essa promessa para cada garota pode dar outra forma ao futuro de todos.

Análise de Impacto

Duas soluções influenciam o tamanho das famílias e o crescimento populacional: educar crianças e o planejamento familiar. Dado que a dinâmica exata entre essas duas soluções é impossível de ser determinada, nosso modelo aloca 50% do potencial total de impacto para cada solução. Supomos que esses impactos resultam de 13 anos de escolaridade, incluindo o ensino primário e secundário. De acordo com a UNESCO, fechando a lacuna anual de US$ 39 bilhões, a educação universal em países de baixa e média renda pode ser alcançado. Isso resultaria em 59,6 gigatoneladas de redução de emissões até 2050. O retorno econômico de um investimento desses seria incalculável.

Publicado originalmente no blog da doebem: https://medium.com/doebem/a-import%C3%A2ncia-das-mulheres-na-luta-contra-o-aquecimento-global-6359ae7161db

A doebem, acredita que a vontade de fazer o bem, aliada ao conhecimento de causas efetivas, proporcionará um real impacto positivo em nosso país. Por isso, busca as melhores oportunidades de doação no Brasil e no mundo com base em evidências científicas, tornando assim o processo de doação fácil, seguro e eficiente.

Se cadastre em nossa newsletter para:

  • Receber os convites para os encontros do grupo nacional e dos grupos locais de sua cidade.
  • Receber os novos textos que publicarmos aqui, assim como os textos do Neoliberal Project.

Deixe seu comentário. Faça parte do debate