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dezembro 4, 2020

O Papa é anticapitalista?

O catolicismo é uma religião milenar, com uma tradição vastíssima e diversa, quase uma religião composta de variadas religiões. Essa religião/tradição apresenta certa ambiguidades em relação à Modernidade. Por um lado, com seu “exército” de especialistas, com sua pesada institucionalização, certamente difere de religiões clânicas, ou magificadas, que nitidamente destoam junto a ideia de Modernidade. Por outro lado também foi atingida em seu coração pelos tempos modernos e demorou bastante para assimilar o fato de que a Modernidade chegou para ficar. Essa ambiguidade pode ser vista na relação histórica do catolicismo com o capitalismo e com o liberalismo, filhos legítimos dos tempos modernos. Pensando nisso que inicio essa série de artigos, tentando demonstrar as facilidades e dificuldades do Catolicismo em lidar com o capitalismo e com uma cultura liberal.

E mesmo hoje temos um Papa que manifesta clara desconfiança com o liberalismo, uma desconfiança que sim em parte é uma desconfiança geral em relação ao establishment, mas que também reflete uma desconfiança histórica típica católica.

Uma cruzada contra o (Neo)Liberalismo?

Nos dias 19, 20 e 21 de novembro de 2020 ocorreu um evento chamado “The Economy of Francesco”, motivado e inspirado por um convite feito pelo Papa Francisco em Março de 2019, direcionado a jovens economistas, estudantes, acadêmicos, empreendedores e ativistas. O convite era para se pensar numa alternativa para a economia mundial, para que se preservasse o dinamismo, eficácia e produtividade do livre mercado, mas substituindo seu lado menos “humano”, focado no lucro e ganho pessoal, pela noção de “bem comum”, presente na Doutrina Social da Igreja. A crítica presente neste convite é direcionada a desigualdade, ao impacto ambiental, e a um sistema abstrato, distante da realidade concreta dos menos favorecidos, e de acordo com o próprio Papa, ideológico e dogmático.

Esse evento ganhou uma força extra com os resultados econômicos e sociais da pandemia, sobretudo com a percepção de que houve pouca cooperação internacional, o que teria agravado a pandemia. Também houve um maior interesse no evento com a repercussão da última encíclica de Francisco.

Em 4 de outubro foi lançada a terceira encíclica do papado de Francisco, “Fratelli Tutti” (Todos Irmãos), bastante inspirada na história de São Francisco. O tema central do documento é basicamente a fraternidade, a união da humanidade numa grande irmandade. Dentro desse tema central, o Papa passa por inúmeros outros temas: ambientalismo, política internacional, cultura, relação inter-religiosa, imigração, dentre outros. Porém, o que chamou mais atenção em seu lançamento foram os comentários sobre economia dentro da encíclica, assim como os novos comentários que o Papa teceu da ocasião do lançamento, criticando o “neoliberalismo”, e a economia baseada no livre mercado.

O Papa tem demonstrado preocupação em relação ao modelo capitalista de organização econômica. Aparentemente, a denúncia que Bergolgio tenta expressar se refere somente a excessos de um mercado totalmente desprovido de controle, mas em algumas de suas declarações percebemos associações quanto a economia e política, sobretudo sobre livre mercado, propriedade privada e (neo)liberalismo, que se não são equivocadas e apressadas, pelo menos revelam uma forte desconfiança.

No momento do lançamento de “Frateli Tutti” o Papa Francisco fez as seguintes afirmações:

O mercado por si só não pode resolver todos os problemas, por mais que nos seja solicitado acreditar neste dogma da fé neoliberal.

A tradição cristã nunca reconheceu o direito à propriedade privada como absoluto ou inviolável e enfatizou o propósito social de todas as formas de propriedade privada.

O neoliberalismo simplesmente se reproduz recorrendo a teorias econômicas mágicas de ‘transbordamento’ ou ‘gotejamento’ como a única solução para os problemas sociais.

Em ocasiões anteriores também deixou clara sua preocupação em relação ao capitalismo contemporâneo, como no lançamento de sua segunda encíclica, “Laudato Si” (Louvado Sejas), quando Francisco, indiretamente, referiu-se ao livre mercado como “estruturalmente perverso”, um sistema econômico em que os ricos exploram os pobres, transformando nosso planeta numa pilha de lixo.

Já em outra ocasião logo no início de seu papado também fez duras acusações contra um sistema abstrato, uma força inumana que oprime o ser humano concreto, se alimentando de egoísmo e “falsa adoração”:

A adoração do bezerro de ouro da antiguidade encontrou uma nova e cruel imagem no culto ao dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem nenhum objetivo verdadeiramente humano.

Dependendo de como se leia esse tipo de declarações, elas podem parecer significar pouco por tratarem de uma ideia que parece consenso entre moderados, de que deve haver livre mercado, mas não sem interferência estatal para corrigir externalidade negativas. Certamente nada disso demonstra uma postura necessariamente anticapitalista do Papa. Somente figuras caricatas o enxergariam assim. Porém, estas declarações, e outras como elas, revelam duas crenças.

Primeiro, uma crença de que há uma dissociação entre o social e o econômico, que evoluiu para uma oposição entre o progresso financeiro e o progresso social. Essa oposição não seria inevitável porém, e estaria mais enraizada em valores pouco fraternais, o que demandaria a necessidade de um novo modo de se promover um diálogo entre o social e o econômico. Dado que certas condições de desigualdade, miséria e impacto ambiental não seriam inatas à sociedade moderna, mas somente derivadas de certo ambiente cultural, e da qualidade moral derivada dele. A relação entre o social e o econômico estaria prejudicada e desgastada por esse ambiente cultural antissocial, já que haveria uma hierarquização que submete o social ao econômico, e impõe uma ordem produtiva, porém exploratória, predatória e pouco sustentável.

Este não é um ponto de vista incomum, que reconhece a eficácia produtiva capitalista, que identifica o crescimento da desigualdade no mundo, e que também ignora completamente os avanços sociais derivados do livre mercado.

Talvez o mais interessante no ponto de vista do Papa é que ele acredita que um sistema de alta produtividade, desigualdade e exploração se forma sobretudo a partir da cultura, da ideologia, que é motivado por valores antes de tudo. Ele associa o caráter da sociedade moderna capitalista a uma qualidade moral, a ideias de egoísmo, narcisismo, individualismo, e mesmo a falta de integridade mantida por uma cultura que promove progresso ao mesmo tempo que atenta contra a dignidade humana. Francisco está pensando numa ideia de promoção do progresso integral humano (uma perspectiva crítica ao capitalismo que não é nova ao catolicismo, aliás), uma espécie de avanço em todos aspectos da vida humana, mas de modo integrado, unindo todos estes aspectos em volta de valores de irmandade e comunhão. Ele não está falando em economia, ou políticas públicas, ele está construindo imagens a partir da perspectiva católica não especializada sobre as condições do mundo contemporâneo.

A outra crença está ligada a imagem que o pontífice tem do “neoliberalismo”. O neoliberalismo seria exatamente a ideologia, o conjunto de valores que mantém o capitalismo com seu caráter exploratório, visando ganho financeiro exclusivamente. O neoliberalismo seria o vilão aqui, não necessariamente o capitalismo, ou a propriedade privada. Esta nova versão intensificada do liberalismo seria uma ideologia encontrada em todo o canto, mas nunca claramente identificada. Outra perspectiva comum e equivocada.

Mas afinal, o que é esse neoliberalismo? Esse espectro que ronda todo o globo? E porque ele se encontra nos lábios de Francisco?

O que é o Neoliberalismo?

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“Neoliberalismo” é um termo relativamente antigo na verdade, já entre o fim do século XIX e início do século XX pode-se encontrar usos do termo. Porém, o conceito só foi melhor elaborado após a Grande Depressão de 1929, quando acadêmicos liberais europeus começaram a absorver críticas ao liberalismo clássico, e assim se puseram a formular um liberalismo onde houvesse espaço para interferência estatal, mas sem se deixar levar por um intervencionismo excessivo.

Nas décadas de 70 e 80 porém, o neoliberalismo ganhou fama ao ser atrelado aos governos Reagan nos EUA, Thatcher no Reino Unido, e também ao governo ditatorial de Pinochet no Chile. O que rendeu impopularidade ao termo, sobretudo em meios de esquerda. Geralmente quando se fala em neoliberalismo na esquerda (especialmente na esquerda latino americana), é a imagem destes governos e de suas premissas e consequências socioeconômicas que se refere.

Na década de 90 o governo Clinton nos EUA dá novas cores ao neoliberalismo, alinhando o equilíbrio dos gastos governamentais a um progressismo nos costumes, e maior atenção ao impacto ambiental. Diferente do neoliberalismo de Pinochet ou Reagan, o neoliberalismo a partir da década de 90 se aproxima mais de uma postura de centro a centro-esquerda. Mas na América Latina não é a imagem que o neoliberalismo tem. Por aqui o neoliberalismo é visto como um misto de fundamentalismo de mercado com conservadorismo antidemocrático. Isso se deve em parte pela experiência marcante no Chile, e também pelo fato de nossos movimentos políticos (não unicamente, mas especialmente os movimentos e partidos de esquerda) terem se mantido afastados de qualquer vertente liberal.

Mas sobretudo, essa visão talvez desatualizada do neoliberalismo na América Latina se deve à imprecisão generalizada ao se falar do conceito. Um estudo analisou um total de 148 artigos num espaço de 14 anos que tratavam do termo. Chegou-se a conclusão que o termo era mal usado, amplo demais, raramente acompanhado de uma definição clara, e que poderia remeter a inclinações ideológicas bem distintas. Algo tão impreciso pode ser qualquer coisa, sendo inclusive facilmente moldável por adversários ideológicos.

Parece que se quisermos falar sobre neoliberalismo com um mínimo de apego a precisão, não devemos ter em mente nem um movimento homogêneo ao longo do século XX, e muito menos um “fundamentalismo de mercado”, pelo menos não necessariamente. O neoliberalismo, pelo menos em sua versão mais recente reconhece o papel do Estado na manutenção da liberdade, na correção de externalidade negativas, e na promoção do bem-estar individual. E reconhece também que um mercado sem qualquer interferência, ao modo anarcocapitalista, não é capaz de maximizar o bem-estar. Dentro do neoliberalismo não parece haver uma oposição entre Estado e mercado, entre interferência e liberdade.

Entender então que é parte de uma “crença neoliberal” submeter o social ao econômico em prol de maior produtividade, ainda que gere maior desigualdade, parece equivocado. Também é equivocado identificar no neoliberalismo uma crença em abstrações que se impõem sobre pessoas concretas, menos favorecidas. O neoliberalismo difere do liberalismo clássico exatamente por diminuir a relevância de ideais abstratas sobre a liberdade do indivíduo. Para o neoliberal a liberdade não é dada, mas deve ser conquistada e garantida, o que aliás demonstra uma das mais importantes funções do Estado.

Existe nas declarações do Papa uma confusão entre neoliberalismo e a ideia de um modelo de capitalismo radical, ou uma forma de anarcocapitalismo. Este sim, um movimento utópico e ideológico, porém que não está disseminado em todo o canto como um conjunto de valores que confere coesão moral/cultural a uma submissão do social ao econômico. É um tanto apressado creditar a valores e a falta de boa vontade os problemas que o mundo ainda não resolveu.

Mas não vamos crucificar o Papa (não resisti à piadinha), apesar de algumas de suas declarações serem imprecisas ou ingênuas, temos que lembrar que o Papa não é um especialista, e nem pretende ser visto como tal. Ele parece assumir exatamente a perspectiva do “homem comum” (o quão comum o líder da maior instituição religiosa do mundo possa ser), do não especialista preocupado e ansioso por soluções partindo de lideranças mundiais e sim, de especialistas também.

Sendo o Papa Francisco nem um economista, e nem um cientista político, e principalmente, considerando que muitos acadêmicos criticam o neoliberalismo sem também ter uma definição segura e clara do mesmo, o equívoco do Papa é completamente compreensível. Equívoco comum que sim, em parte se dá por uma imprecisão geral ao se tratar do tema. Mas há aqui também uma posição naturalmente desconfiada em relação ao capitalismo, que está implícita nos posicionamentos frequentes do Papa. Uma desconfiança que pode não se referir a todos os aspectos que compõem uma economia capitalista, mas ainda assim, uma desconfiança persistente.

Existem duas dimensões desta desconfiança: Obviamente, uma dimensão pessoal, gerada da trajetória individual do próprio Bergloglio. E uma dimensão histórica católica, da relação entre catolicismo e capitalismo, ou entre catolicismo e cultura liberal.

Jorge Mario Bergoglio

Sua trajetória pessoal, sua formação como sacerdote, os grupos com quem se associou e se identificou fornecem uma noção da perspectiva do Papa sobre a sociedade moderna capitalista. Uma perspectiva católica sim, mas que não condena a sociedade moderna por si, e na verdade faz crer que, dentro do próprio catolicismo, pode-se achar respostas para questões da sociedade moderna, e assim encontrar novos “encaixes”, novas afinidades entre o mundo de dentro e de fora da hierarquia católica. Estas respostas que o catolicismo supostamente pode oferecer não são direcionadas exclusivamente aos fiéis católicos, e não se resumem a uma negação e isolamento do mundo e suas tentações modernas.

Nenhum pontífice após a conclusão do Concílio do Vaticano II se identificou tanto com a noção de “aggiornamento” quanto Francisco. Diferentes analistas, ao falar sobre Francisco, apontam nele algo como uma continuação do Concílio do Vaticano II, ou um retorno a este. A noção de que a Igreja deve se adequar sem perder sua identidade, não só para sobreviver ao mundo moderno, mantendo-se relevante, mas também (e talvez sobretudo) para se fazer útil a este novo mundo, parece ser central na teologia de Francisco.

Adequar-se ao mundo moderno é um modo de integrar-se a ele, de inserir-se nele para então favorecer mudanças nele. Adaptar-se no contexto de uma religião com uma tendência proselitista, com uma missão evangelizadora (como toda religião cristã possui, algumas com menor intensidade que outras, claro), significa moldar-se para melhor alterar a realidade a sua volta, de modo algum se aproxima de uma aceitação plena. Existe no Papa um comprometimento missionário com a mudança onde ela parecer ser necessária, o que naturalmente o coloca em tensão com diferentes atores sócio-políticos. Um tipo de tensão que, como jesuíta, ele já deve estar acostumado.

Pode-se ver mesmo antes de seu papado uma postura crítica. Ainda como Arcebispo de Buenos Aires, Bergoglio fora um forte opositor tanto a Néstor, quanto a Cristina Kirchner. Atritando com ambos em diferentes ocasiões, sobre diferentes questões, desde a legalização do casamento homoafetivo, o qual Bergoglio fora crítico (o que parece curioso dada recentes declarações do Papa sobre a união civil de casais do mesmo sexo), até as estratégias idealizadas por Néstor visando tornar constitucional reeleições indefinidas. Bergoglio auxiliou na derrota de um político apoiado por Néstor numa eleição legislativa provinciana. Se o aliado tivesse ganho, Néstor seguiria com intenção de implementar reeleições indefinidas, que presumidamente abriria espaço para que fossem implementadas também em âmbito nacional.

De fato, Bergoglio se mostrou muito ativo em sua vida pública. Nunca foi o tipo de sacerdote que se limita a atividades ritualísticas. A missão da Igreja para ele deve ir além da preservação de uma tradição, deve ser uma missão de transformação do mundo também. Mas uma transformação que se inicia nos valores e na cultura. Motivo pelo qual ainda como cardeal Bergoglio se aproximou da associação de fiéis “Comunhão e Libertação”.

A Comunhão e Libertação visa demonstrar a atualidade dos valores cristãos ao encontrar pontos de afinidade entre a origem do cristianismo e a vida pessoal do fiel, ou mesmo eventos sociais. A ideia é mostrar essa conexão com o mundo moderno numa formação contínua, através de práticas de temática católica; leitura de textos católicos, ou de outras religiões, ou ainda textos sem nenhuma conotação religiosa; e expressões artístico-culturais.

Outro movimento dentro do catolicismo que muitos atrelam a imagem do Papa Francisco é a Teologia da Libertação, mesmo que Bergoglio nunca tenha de fato se declarado parte desta corrente. A posição do Papa em relação a Teologia da Libertação na verdade é clara: ele mantém uma postura diplomática com o movimento, até mesmo em alguns momentos demonstrando simpatia, contudo, também é crítico da união entre marxismo e cristianismo, e explicitamente se afasta de inclinações marxistas.

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Uma corrente teológica a qual Bergoglio esteve certamente muito mais próximo que a Teologia da Libertação foi a chamada “Teologia do Povo”, que estaria para a Argentina, assim como a Teologia da Libertação e Comunidades Eclesiais de Base estão para o Brasil. A grande diferença é que a Teologia do Povo não se vale de uma análise marxista, mas de uma análise histórico-cultural para embasar suas premissas. Seu foco está na opção pelos pobres assim como a Teologia da Libertação, mas também na cultura e religiosidade popular, e na enculturação.

Finalmente, uma das associações mais relevantes na formação da perspectiva de Francisco foi obviamente sua filiação jesuíta. O próprio fato de ser o primeiro Papa jesuíta já é um evento em si, mas existem certas características do sacerdócio de Bergoglio que certamente, se não foram desenvolvidos na sua formação na Companhia de Jesus, foram fortalecidas pelo seu lado jesuíta. Jesuítas são vistos no mundo católico como pragmáticos, pois dedicados a missão mais do que a ideais, sem, entretanto, relegar a formação intelectual. Como uma ordem essencialmente missionária, os jesuítas se encontram na margem da Igreja, sendo comuns atritos com a autoridade, atritos que nem sempre são explícitos. A congregação tem certas características militaristas, como a prontidão a obedecer a qualquer ordem vinda acima na hierarquia, sobretudo e obviamente do Papa, fato que faz dessa relação com autoridades contraditória, ou equilibrada, dependendo do ponto de vista.

Missão, Adequação e Transformação

Observando os personagens e associações com quem Bergoglio se alinhou, ou aqueles que ele ofereceu oposição, podemos perceber consistência em seus posicionamentos. A oposição aos Kirchner e a rejeição ao marxismo deixam claro que Bergoglio não é de modo algum de extrema esquerda. Cristina Kirchner chegou mesmo a acusá-lo de ser de extrema direita e apoiar a ditadura militar argentina. Há inclusive quem acredite de fato que Bergoglio fora de direita e conservador, e só passou a se mostrar mais progressista como estratégia de marketing (como se as religiões que mais crescem no mundo fossem as de tendência mais progressistas).

Não é necessário ser marxista, socialista, ou mesmo de esquerda para se criticar o capitalismo. Um conservador pode ser tão ácido em suas críticas ao liberalismo e capitalismo quanto um trotskista. E mesmo liberais podem ter suas críticas a ideia de um mercado radicalmente livre como vimos acima. É óbvio que quem identifica em Francisco um extremista de esquerda, ou um conservador falsamente arrependido, é quem de fato está mais próximo do extremismo.

Mas se formos mesmo classificar Bergoglio ideologicamente, há de se recordar das semelhanças com a Teologia do Povo, ou mesmo de sua associação com a Comunhão e Libertação, movimentos relativamente progressistas dentro do catolicismo. Em ambos o catolicismo é visto como instrumento de transformação social através da cultura, e em ambos o foco é menos num princípio, e mais no indivíduo concreto, no coletivo concreto. Isto tudo unido a missionariedade jesuíta forma um Papa que rejeita a ideia de uma Igreja focada na preservação da tradição somente, que acredita que a Igreja deve ter uma missão transformadora hoje, e que, para isso, deve se adaptar ao mundo ao invés de esperar que o mundo se adapte a ela.

Essa visão pragmática aliada à disposição a adequação presentes em Francisco cumprem uma função evangelizadora, missionária até, principalmente considerando a perda de fiéis e de influência pública do catolicismo. Para cumprir sua missão a Igreja deve se ter em mente os indivíduos e grupos concretos, e para isso é necessário que esteja disposta a relativizar o valor de ideais abstratos, com os quais o objeto da missão, as “pessoas reais” não se encaixam completamente, e com isso pode ter que relativizar o valor da própria tradição. De certo modo o Concílio do Vaticano II com a noção de aggiornamento intensificou e conferiu forma mais definida para uma tensão interna católica, entre conservação e adequação, entre tradição e missionariedade.

Francisco claramente privilegia o polo da missionariedade e da adequação, visando um propósito transformador. E é justamente aqui que podemos ver que sua proposta, por mais vaga ou ingênua que possa parecer, não é de modo algum anticapitalista, ou pior, populista. Mesmo com sua desconfiança, o que move Francisco não é a rejeição ao liberalismo, e sim a urgência de conferir propósito a Igreja contemporânea. Francisco entende que existem problemas sociais a serem resolvidos hoje, seu caráter missionário, e o próprio caráter missionário da Igreja devem atender a este “chamado”, sendo a Igreja não voltada exclusivamente para os católicos, ou para a preservação de rituais e valores, mas para o serviço a humanidade. É a missão que deve ser cumprida.

A “caixa de ferramentas” de Francisco

A questão é: que ferramentas Francisco tem a disposição para identificar e cumprir essa missão? Claro que o Papa é capaz de acessar o trabalho da elite entre economistas e cientistas políticos (se só com o Sci-Hub nós meros pecadores podemos, imagina o Papa), mas de novo, suas opiniões não são expressas (formalmente como em Fratelli Tutti, ou informalmente em suas declarações públicas) como insights de economia ou políticas públicas. Ele tenta assim dar voz a demanda que “o povo” tem justamente em relação aos especialistas, líderes políticos e a elite econômica. Lembrando que para este “povo” a desconfiança em relação a instituições tem aumentado, o que por sua vez pode também afetar a percepção e o discurso do Papa sobre a necessidade de mudanças.

Especificamente na pessoa de Francisco existem elementos de sua identidade e formação que contribuem na delimitação das escolhas possíveis de interpretação da realidade. Por exemplo, o fato de ser latino-americano certamente o influenciou em sua formação teológica, e também na sua visão geral do liberalismo. Sendo a América Latina uma região onde a ideia de neoliberalismo é impopular, e um verdadeiro bicho-papão (por ser temido, por ser incerto sobre o que é de fato, e ser o culpado de quase todos os males). E mesmo o fato de ser católico, sobretudo católico latino-americano, contribui para as opções mais próximas de Francisco. Como pretendo mostrar em um próximo texto o catolicismo não é necessariamente antiliberal, porém, historicamente o catolicismo demonstrou relativamente menor espaço de afinidade com uma cultura liberal, e mesmo no Concílio do Vaticano I a Igreja havia condenado o liberalismo.

Antes de tudo Francisco visa uma nova estratégia evangelizadora. Adaptada para um mundo moderno, onde a cristandade não existe mais, onde a Igreja deve concorrer pela atenção do fiel com inúmeras atrações mundanas, da mídia a ideologia política, de associações civis ao sistema educacional laico. E não só isso, agora a Igreja Católica também deve concorrer com diversas agências religiosas, e segue perdendo fiéis nas nações que ainda podem ser chamadas de católicas.

Para o Papa, nesta nova realidade não é possível contar com uma evangelização baseada somente na recuperação de fiéis, e na recuperação de valores ancestrais católicos, reafirmando uma identidade católica, tentando equilibrar o Concílio do Vaticano II com o Concílio do Vaticano I. Nesta estratégia, que tanto João Paulo II quanto Benedito adotaram, a hierarquia católica por um lado aceita sua missão como sendo espiritual, moral, e não invade a competência de especialistas laicos. Por outro lado, pela ótica de Francisco, uma Igreja assim põe em risco sua relevância e mesmo sua missão na Terra. Para ainda ser relevante a Igreja deve cumprir um propósito, e o local onde o Papa considera que esse propósito pode ser melhor cumprido é exatamente na crítica ética a economia, política e cultura.

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Motivo pelo qual a Doutrina Social da Igreja é tão relevante em seu papado, e provavelmente em sua visão de evangelização. Ela é a referência de Francisco mais próxima dele. Motivo pelo qual também mantém sua desconfiança para com o capitalismo. Francisco é um homem com uma missão neste mundo, não no “além”, e as opções a sua disposição para justificar e dar forma a esta missão são elas mesmas críticas originalmente ao capitalismo e ao liberalismo, como no caso da Doutrina Social da Igreja que originalmente se formou em oposição a um capitalismo que de fato vinha com inúmeras falhas. Já existe aqui em Francisco uma predisposição a afinidade entre uma missão da Igreja e determinadas críticas ao capitalismo.

Mas, como já deve estar claro, não é só uma questão pessoal de Bergoglio, não são só afinidades possíveis pessoalmente em Francisco e em a sua trajetória específica. Como afirmei acima existe também uma dimensão sócio-histórica dessa desconfiança em relação ao capitalismo partindo do próprio catolicismo, que é exatamente de onde se forma o leque disponível a Francisco para moldar sua missão.

Ao indicar o peso da desconfiança do catolicismo em relação ao capitalismo não quero dizer que Francisco expressa opiniões polêmicas sobre o liberalismo porque é católico e que o catolicismo é antiliberal. O ponto aqui é que na “caixa de ferramentas” à disposição de Francisco dentro da sua “versão” do catolicismo há mais opções críticas ao liberalismo que entusiasmadas com ele. Existem duas relações históricas aqui, uma afinidade entre a trajetória de Francisco como sacerdote latino-americano relativamente progressista, e a visão que o catolicismo tem sustentado ao longo da história em relação ao liberalismo. E num nível mais básico, existe uma relativa dificuldade de assimilação de uma cultura liberal pelo catolicismo.

Isso obviamente não quer dizer que o catolicismo seja irremediavelmente antiliberal. Existem diferentes pontos de vista, diferentes interpretações e referências dentro do catolicismo. Se mesmo religiões bem menores e mais recentes não são completamente homogêneas, imagina o catolicismo? Não quero dizer também que não existam núcleos históricos que caracterizam a identidade de uma religião, mas esses núcleos não são completamente imutáveis.

Dentro da diversidade de uma religião sempre haverá interpretações que vão entrar em afinidade com certos valores e ideais com maior ou menor frequência. Ao afirmar que existe uma desconfiança histórica do catolicismo em relação ao capitalismo, quero dizer o seguinte: ao longo da história, houve menos grupos dentro do catolicismo com afinidade e uma visão mais favorável ao liberalismo que grupos mais críticos e que observavam um maior desencaixe para com a cultura liberal. Porém, é claro, um mesmo grupo dentro do catolicismo pode mudar suas interpretações e acrescentar novos pontos de vista. Mas o que interessa é a frequência com que certas afinidades se repetem e que, apesar de hoje, décadas após o Concílio do Vaticano II, e séculos após a Reforma Protestante, podermos ver o catolicismo em paz com o liberalismo e com o capitalismo, o que marcou a relação histórica entre esses dois foi uma relativa inadequação.

Inadequação que está presente numa cultura católica mesmo após a Igreja ter se adaptado melhor a sociedade moderna pós revoluções liberais. Ainda assim, com a instituição católica modernizada, países de cultura católica parecem mostrar maior inadequação ao liberalismo, mesmo naqueles países em que o número de fiéis católicos já foi bem reduzido. Inadequação presente também em espaços menos subjetivos, como num conjunto de documentos que condensam a visão católica da realidade político-econômica moderna, que é a Doutrina Social da Igreja. E é justamente estes dois aspectos da relação histórica católica com o liberalismo e o capitalismo que tentarei analisar nos próximos textos da série, a “cultura católica” descolada da Igreja, e a Doutrina Social da Igreja.

Autor: Caio Freire

Revisão: Fernando Moreno

Publicado originalmente no Evangelho de Brian

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