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novembro 24, 2020

O efeito das transferências de dinheiro no bem-estar subjetivo e na saúde mental

Sabemos que as transferências de dinheiro reduzem a pobreza, melhoram a saúde e melhoram a educação, mas que impacto elas têm sobre o modo como as pessoas se sentem e pensam sobre suas vidas? Ou, perguntando de modo mais direto: o dinheiro faz as pessoas felizes? A literatura sobre a ligação entre renda e bem-estar subjetivo há muito tempo carece de evidências causais – há muitas pesquisas estabelecendo correlações. Felizmente, foram feitas pesquisas recentes com transferências de dinheiro em países de baixa e média renda. Revisamos estas evidências em uma meta-análise. Em resumo, descobrimos que as transferências de dinheiro têm um pequeno efeito positivo sobre o bem-estar subjetivo, um efeito que dura vários anos.

Na HLI, buscamos as formas mais custo-eficazes para melhorar o bem-estar global. Transferências de dinheiro para aqueles em situação de baixa renda são uma opção óbvia de estudarmos: trata-se de uma intervenção simples e escalável e (em parte por isso) uma das intervenções mais amplamente estudadas e implementadas em países de baixa e média renda. Isto as torna um ponto de referência útil (benchmark) para comparar a eficácia de outras oportunidades de aumento do bem-estar.

Neste documento, revisamos sistematicamente toda a literatura disponível sobre o efeito das transferências de dinheiro no bem-estar subjetivo[1]  em países de baixa e média renda[2]. Incluímos vários tipos de transferências de dinheiro, tais como transferências incondicionais ou condicionais, e transferências pagas mensalmente ou de uma só vez*.

*Nota do Tradutor: Geralmente pensamos em programas de transferência de dinheiro como uma renda básica, sendo depositada mensalmente. Contudo, também há experimentos em que uma grande quantidade de dinheiro é transferida de uma só vez (chamado no original de lump sum transfers ou pequenas variações dessa expressão).

A fim de avaliar a relação custo-eficácia, precisamos estimar o efeito total sobre o bem-estar subjetivo. No resumo a seguir, descrevemos brevemente os principais resultados extraídos do estudo completo e incluíremos uma estimativa do efeito total em termos de Bem-estar Ajustado pelos Anos de Vida, ou WELLBYs (Well-being Adjusted Life-Years), conceito que será explicado mais adiante.

Nosso método de pesquisa revelou 1.147 estudos potencialmente relevantes; 38 deles foram considerados relevantes para nossas investigações e incluídos na análise. Coletamos seus resultados, padronizamos os efeitos e tomamos sua média ponderada. O efeito médio foi de 0,10 desvios padrão (intervalo de confiança de 95%: 0,08-0,12), que pode ser mensurado após, em média, dois anos. Isto está exibido como o diamante negro na parte final da tabela abaixo. Pelos padrões da ciência social, este é um efeito de tamanho pequeno[3], mas vale a pena notar que este resultado pode ser encontrado após dois anos, o que é um período de acompanhamento excepcionalmente longo. Isto sugere que as transferências de dinheiro fazem as pessoas mais felizes e o fazem por um período substancial de tempo. O intervalo previsto, representado pela linha tracejada em ambos os lados do diamante negro, mostra que 95% dos estudos futuros deverão encontrar um efeito positivo das transferências de dinheiro no bem-estar subjetivo.

Nota do autor: 'Mo. After Start (meses após o início)' é o número médio de meses desde que a transferência de dinheiro teve início. '$PPP Monthly (mensal)' é o valor médio mensal das transferências de dinheiro em PPP (paridade de poder de compra) ajustado ao valor de dólares americanos do ano de 2010. As transferências de dinheiro “de uma só vez (lump sum transfers)” foram convertidas em valores mensais dividindo o tempo médio de acompanhamento por 24 meses.

As transferências de dinheiro variam de várias maneiras, incluindo seu tamanho e se foram pagas de uma só vez (lump sum) ou em intervalos regulares (fluxo). Tentamos controlar por fatores como estes, conduzindo uma meta-regressão. Esta é uma forma de estimar como certas variáveis (como o tamanho da transferência de dinheiro) moderam o tamanho do efeito. Uma meta-regressão se comporta de forma semelhante a uma regressão padrão[4]. Em seguida, descrevemos os principais resultados da meta-regressão, que podem ser vistos na Tabela 2 do documento de trabalho. Também ilustramos algumas das relações nas figuras abaixo; observe que as regressões nas figuras não controlam para outras variáveis, ao contrário dos resultados da meta-regressão (Tabela 2).

Primeiramente, e sem surpresa, a quantidade de dinheiro transferido é importante! É um preditor estatisticamente significativo do tamanho do efeito, tanto em valores absolutos (o valor em dólares) quanto em valores relativos (ou seja, proporcional ao consumo anterior). A duplicação da renda por um ano leva a um aumento do desvio padrão de 0,11 em nosso índice de bem-estar subjetivo[5] e uma transferência equivalente a um valor mensal de US$ 100 PPP recebido durante dois anos[6] leva a um aumento no SWB de 0,10 desvios padrão (todos os outros mantidos iguais)[7]. Note que estas constatações podem não se aplicar aos países de alta renda.

Nota do Autor: tamanho do efeito da transferência de dinheiro, tanto em valor absoluto (esquerda, em dólares americanos por mês) quanto em valor relativo (direita, como proporção da renda anterior). As linhas azuis são simples regressões de y contra x; veja a Tabela 2 no papel para os resultados completos.

Em segundo lugar, investigamos a duração dos efeitos. A figura abaixo mostra os dados para as transferências de caixa em amarelo e roxo, respectivamente, e uma simples regressão do tamanho do efeito em relação ao tempo para cada um deles. A grande maioria dos dados foi coletada menos de três anos após o início das transferências. Apenas um estudo tem um acompanhamento após cinco anos. Verificamos que há uma decadência através do tempo, pela qual o efeito médio chegaria a zero após aproximadamente sete anos desde o início da transferência, assumindo uma decadência linear com o tempo (ver Modelos 3 e 4 na Tabela 2 no documento completo)[8]. Também realizamos as análises separadas de quando as transferências foram pagas de uma só vez (lump sum) ou em intervalos regulares; nestes casos não detectamos um decaimento estatisticamente significativo, que pode ser devido ao baixo poder estatístico. Mais dados sobre o efeito a longo prazo das transferências de dinheiro melhorariam esta análise.

Em terceiro lugar, como sugere a figura abaixo e nossa análise confirma (ver Modelo 1, Tabela 2), as transferências de dinheiro têm um efeito maior (0,04 desvios padrão, ou quase metade do tamanho médio do efeito) sobre a satisfação com a vida do que a depressão. Os resultados para a felicidade são menos claros, mas parecem ser intermediários entre a depressão e a satisfação com a vida.

Nota do Autor: Esta figura mostra o tamanho do efeito para cada estudo em forma de círculos, agrupados por tipo de resultado. Um diagrama de caixa (box plot) para cada resultado mostra os valores da mediana, primeiro e terceiro quartis. Os gráficos de violino ao redor ilustram a densidade dos pontos de dados no eixo y.

Também testamos se o desenho do estudo, o continente ou se condicionalidade associadas às transferências influenciaram a magnitude do efeito. Verificamos que apenas a condicionalidade teve um efeito significativo: as transferências condicionais de dinheiro tiveram um impacto consideravelmente menor sobre o SWB (-0,040 SDs).

Por fim, não detectamos efeitos de transbordamento significativo (spillover effects), ou seja, um efeito sobre os não-recipientes em outros lares da mesma comunidade. Este resultado é importante, pois uma potencial preocupação quanto às transferências de dinheiro, enfatizada por Plant (2019, p230), é que as transferências podem aumentar o bem-estar dos destinatários ao custo de piorar a situação dos não-recipientes, reduzindo assim sua eficácia geral. Entretanto, observamos que apenas quatro dos estudos incluíram algum tipo de mensuração do efeito das transferências sob a comunidade.

O que tudo isso implica para nossa compreensão do impacto total que uma transferência de dinheiro de US$1.000, dada a alguém vivendo em pobreza (medida global), teria em seu bem-estar? Usamos a unidade de um WELLBY para responder a essa pergunta, definindo WELLBY como um aumento de um ponto de bem-estar subjetivo (em uma escala de 0-10) por um ano[9]. Estimamos que o efeito total ao longo do tempo é de 0,38 desvios padrão, ou aproximadamente 0,87 WELLBYs[10][11].

Não conhecemos nenhuma revisão de uma intervenção semelhante (ou seja, uma 'micro'-intervenção em países de baixa renda) que nos permita comparar o impacto total sobre o bem-estar subjetivo. Entretanto, nosso trabalho futuro visará preencher esta lacuna, revisando as evidências sobre efeitos de determinadas intervenções tal como a cirurgia de catarata e a terapia em grupo.

Nosso estudo tem várias limitações, mais notadamente que as evidências são escassas (com apenas quatro estudos) sobre efeito transbordo para outros membros da comunidade, e quanto ao longo prazo (mais de cinco anos). Não há dados sobre o efeito em outros membros da família do destinatário. Algumas advertências gerais são (1) que resultados insignificantes não significam que um efeito não exista – pode ser muito pequeno para ser detectado dado o tamanho de nossa amostra e (2) que este efeito pertence apenas a populações similares (os muito pobres em países de baixa e média renda).

Esta revisão fornece fortes evidências de que as transferências de dinheiro melhoram o bem-estar subjetivo das pessoas em contextos de baixa renda. Nossa estimativa do efeito total sobre o bem-estar é nova, e encorajamos estudos futuros a fazerem estimativas semelhantes a fim de comparar a relação custo-eficácia de diferentes intervenções de saúde e desenvolvimento.

Notas:

[1] Consideramos as perguntas feitas sobre satisfação de vida, felicidade ou alegria como bem-estar subjetivo. Medidas subjetivas de bem-estar tendem a avaliar como alguém está indo em geral, às vezes incluindo medidas separadas de estados mentais positivos e negativos. Portanto, consideramos os questionários sobre saúde mental que perguntavam sobre distúrbios afetivos ou de humor como substitutos para o aspecto negativo do bem-estar subjetivo. A coluna "medidas" da Tabela A4 no documento inclui todas as medidas incluídas. (voltar)

[2] Incluímos projetos de estudos experimentais e quase experimentais, publicados desde o ano 2000. (voltar)

[3] Cohen (1992) estabeleceu a convenção que pequeno = 0,2, moderado = 0,5 e grande = 0,8. (voltar)

[4] Um aspecto em que uma meta-regressão é diferente de uma regressão padrão é que estudos individuais são usados como pontos de dados, em vez de pessoas individuais. Outra diferença é que os estudos são ponderados por sua precisão, portanto, geralmente, estudos maiores têm uma influência maior do que estudos menores. As meta-regressões também permitem a meta-regressão dentro do estudo e, no caso de meta-regressão de efeitos aleatórios, entre a variabilidade de estudos. (voltar)

[5] Como mencionado na nota de rodapé 1, incluímos muitas métricas de resultados no índice geral do tamanho do efeito, incluindo satisfação com a vida, felicidade e resultados de saúde mental que medem estados afetivos. (voltar)

[6] Transferências feitas em intervalos regulares foram recebidas, em média, por dois anos, e esse foi período que pressupomos de que uma transferência paga de uma só vez é consumida. (voltar)

[7] Um valor de US$ 120 mensais dobraria a renda familiar por um ano e levaria a um efeito de desvio padrão de 0,12 no SWB. (voltar)

[8] Isto é consistente com o resultado mesmo quando se retira o acompanhamento (follow-up) feito aos nove anos, ou se usamos a decadência para estudos com múltiplos acompanhamentos. (voltar)

[9] Como observado anteriormente, este índice inclui satisfação com a vida, felicidade e medidas de distúrbios de humor. (voltar)

[10] Usando um desvio padrão de 2,3, como fizemos anteriormente (ver célula 4 em nosso modelo anterior). (voltar)

[11] Isto é notavelmente menos do que nossa estimativa anterior de ~1,6 WELLBYs por indivíduo, onde WELLBYs eram definidos em termos de pontos de satisfação de vida. Dada a diferença significativa em termos de resultados de satisfação de vida e depressão, nossa estimativa aqui é provavelmente subestimada, em comparação com nossa estimativa anterior. Planejamos investigar o efeito de diferentes métricas de bem-estar subjetivo em seu devido tempo. Além disso, anteriormente tínhamos considerado apenas as transferências de dinheiro feitas pela ONG GiveDirectly, mas, por exemplo, aqui incluímos tanto as transferências de dinheiro condicionais como as incondicionais, o que também sugere que estes resultados estão subestimados. Esperamos atualizar nossa estimativa anterior no futuro, com base nas informações desta meta-análise. (voltar)

Autor: Joel McGuire

Tradução: Fernando Moreno

Publicado originalmente 20 de novembro de 2020 em: https://forum.effectivealtruism.org/posts/PPNgQSvKrcKvsM2ZN/the-effect-of-cash-transfers-on-subjective-well-being-and

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