Progressofobia – por Steven Pinker

Intelectuais odeiam o progresso. Intelectuais que se intitulam “progressistas” odeiam muito o progresso. Não são os frutos do progresso que eles odeiam, veja bem: a maioria dos doutos, críticos e seus leitores bien-pensants usa computador em vez de pena e tinteiro, e prefere submeter-se a uma cirurgia com anestesia em vez de sem. É a ideia de progresso que exaspera a classe loquaz — a crença iluminista de que, entendendo o mundo, podemos melhorar a condição humana.

Para expressar seu desdém, eles criaram todo um léxico de injúrias. Se você acha que o conhecimento pode ajudar a resolver problemas, então tem uma “fé cega” e uma “crença quase religiosa” na “superstição ultrapassada” e na “falsa promessa” do “mito” da “marcha à frente” do “progresso inevitável”. Você é um “animador da torcida” do “vulgar empreendedorismo americano”, com o “eufórico” espírito da “ideologia empresarial” do “Vale do Silício” e da “Câmara de Comércio”. Você é um “historiador Whig”*, um “otimista ingênuo”, uma “Poliana” e, obviamente, um “Pangloss”, uma versão moderna do filósofo do Cândido de Voltaire, para quem “tudo é para o melhor no melhor dos mundos possíveis”.

*Nota do Tradutor: Estilo de historiografia que apresenta o passado como uma marcha inexorável em direção ao progresso e à liberdade, criticado como teleológico.

Na verdade, o professor Pangloss é o que hoje definiríamos como um pessimista. Um otimista moderno acredita que o mundo poderá ser muito, muito melhor do que é hoje. Voltaire satirizava não a esperança de progresso do Iluminismo, mas seu oposto, a racionalização religiosa do sofrimento, chamada teodiceia, segundo a qual Deus não tem escolha a não ser permitir epidemias e massacres porque um mundo sem essas coisas é metafisicamente impossível.

Epítetos à parte, a ideia de que o mundo é melhor do que já foi e pode tornar-se ainda melhor saiu de moda entre a intelectualidade muito tempo atrás. Em “A ideia de decadência na história ocidental”, Arthur Herman mostra que profetas do apocalipse são os astros do currículo de ciências humanas; entre eles temos Nietzsche, Arthur Schopenhauer, Martin Heidegger, Theodor Adorno, Walter Benjamin, Herbert Marcuse, Jean-Paul Sartre, Frantz Fanon, Michel Foucault, Edward Said, Cornel West e um coro de ecopessimistas. Herman faz um levantamento da paisagem intelectual do final do século XX e lamenta a “saída de cena” dos “ilustres expoentes” do humanismo iluminista, aqueles que acreditavam que “como as pessoas geram conflitos e problemas na sociedade, também podem resolvê-los”. Em “História da ideia de progresso”, o sociólogo Robert Nisbet concorda: “O ceticismo quanto ao progresso do Ocidente, antes restrito a um número muito pequeno de intelectuais do século XIX, cresceu e se difundiu não apenas pela grande maioria dos intelectuais neste último quarto de século, mas também para muitos milhões de outras pessoas no Ocidente”.

Sim, não são apenas os que ganham a vida intelectualizando que acham que o mundo vai de mal a pior. São também as pessoas comuns quando entram no modo intelectualoide. Há tempos os psicólogos sabem que as pessoas tendem a ver a própria vida com otimismo: acham que para elas é menor a probabilidade de se tornarem vítimas de um divórcio, uma demissão, um acidente, uma doença ou um crime. Mas mude a pergunta da vida da pessoa para a sua sociedade e ela se transforma de Poliana em Ió**.

**Nota do Tradutor: Ió é um burro cinzento, personagem da turma do Ursinho Pooh, conhecido por ser pessimista e resmungão.

Os pesquisadores de opinião pública chamam isso de disparidade de otimismo. Por mais de duas décadas, em tempos bons e ruins, quando pesquisadores perguntaram aos europeus se a sua situação econômica pessoal seria melhor ou pior no ano seguinte, a maioria respondia que iria melhorar; porém, quando a pergunta era sobre a situação econômica de seu país, a maioria dizia que iria piorar. A maior parte dos britânicos considera a imigração, a gravidez na adolescência, o lixo nas ruas, o desemprego, o crime, o vandalismo e as drogas um problema no Reino Unido como um todo, enquanto poucos acham que são problemas em sua região. Na maioria dos países, a qualidade ambiental também é considerada pior no país do que na comunidade e pior no mundo do que no país. Em quase todos os anos, de 1992 a 2015, uma era na qual a taxa de crimes violentos despencou, a maioria dos americanos disse aos pesquisadores que a criminalidade estava em alta. Em fins de 2015, grandes maiorias em onze países desenvolvidos disseram que “o mundo está piorando”, e na maior parte dos últimos quarenta anos uma substancial maioria dos americanos afirmou que o país está “seguindo na direção errada”.

Será que eles têm razão? O pessimismo está certo? Poderia o estado do mundo afundar sem parar, como as listras de um poste de barbearia, que dão a ilusão de girar sempre para baixo? É fácil entender por que as pessoas se sentem assim: todo dia o noticiário vem repleto de informes sobre guerra, terrorismo, crime, poluição, desigualdade, uso abusivo de drogas e opressão. E não estamos falando só nas manchetes; são também os editoriais e as reportagens mais extensas. As capas de revista alertam sobre iminentes anarquias, pragas, epidemias, colapsos e tantas “crises” (na agricultura, saúde, aposentadoria, assistência social, energia, déficit) que os redatores são obrigados a usar termos cada vez mais veementes no lugar da redundante “crise grave”.

Independentemente de o mundo estar ou não piorando de verdade, a natureza das notícias interage com a natureza da cognição para nos fazer pensar que sim. O noticiário fala de coisas que acontecem, não de coisas que não acontecem. Nunca vemos um jornalista dizer para a câmera “Falamos ao vivo de um país onde não eclodiu uma guerra” — ou de uma cidade que não foi bombardeada, ou de uma escola onde não aconteceu um ataque a tiros. Enquanto as coisas ruins não tiverem desaparecido da face da Terra, sempre haverá incidentes o bastante para preencher o noticiário, ainda mais quando bilhões de celulares transformam a maior parte da população mundial em repórteres policiais e correspondentes de guerra.

Além disso, entre as coisas que acontecem, as positivas e as negativas seguem cronologias diferentes. O noticiário, longe de ser “um primeiro esboço da história”, lembra mais os comentários de programas de esportes para cada partida: concentra-se em eventos isolados, em geral os que ocorreram desde a última edição (antigamente, no dia anterior; hoje, segundos antes). Coisas ruins podem acontecer rapidamente, mas coisas boas não se fazem em um dia; por isso, não ocorrem em sincronia com o ciclo do noticiário. Johan Galtung, que faz pesquisas sobre a paz, salientou que, se um jornal fosse publicado apenas de cinquenta em cinquenta anos, não noticiaria meio século de fofocas sobre celebridades ou escândalos políticos. Informaria sobre as mudanças globais mais importantes, como o aumento na expectativa de vida.

A natureza do noticiário tende a distorcer a visão de mundo das pessoas devido à falha mental que os psicólogos Amos Tversky e Daniel Kahneman chamam de heurística da disponibilidade: as pessoas estimam a probabilidade de um evento ou a frequência de um tipo de coisa pela facilidade com que esses tipos de caso lhes vêm à mente. Em muitas ocasiões na vida, essa é uma regra prática útil. Eventos frequentes deixam traços de memória mais fortes, por isso lembranças mais fortes geralmente indicam eventos mais corriqueiros: você de fato está pisando em terreno sólido quando supõe que nas cidades os pombos são mais comuns do que os papafigos, apesar de recorrer às suas memórias de encontros com esses animais, e não a um censo de aves. Contudo, sempre que uma lembrança aparece no alto da lista de resultados do mecanismo de busca da mente por outras razões que não a frequência — porque é recente, vívida, sangrenta, nítida ou perturbadora —, as pessoas superestimarão sua probabilidade no mundo. Na língua inglesa, quais palavras são mais numerosas, as que começam com k ou as que têm k na terceira posição? Muitos falantes do inglês acham que são as primeiras. Na verdade, porém, existem três vezes mais palavras com k na terceira posição (ankle, ask, awkward, bake, cake, make, take…), mas as palavras são recuperadas na memória por seus sons iniciais, por isso keep, kind, kill, kid e king têm maior probabilidade de vir à mente com mais prontidão.

Os erros de disponibilidade são uma fonte comum de tolices no raciocínio humano. Calouros do curso de medicina interpretam toda erupção na pele como sintoma de uma doença exótica, e turistas não entram na água depois de terem ouvido falar de um ataque de tubarão ou de terem acabado de assistir ao filme de Spielberg com esse título. Desastres de avião sempre viram notícia, mas acidentes de carro, que matam muito mais pessoas, dificilmente são noticiados. Não é de surpreender que muitas pessoas tenham medo de viajar de avião, mas quase nenhuma se apavore com a ideia de dirigir um carro. As pessoas pensam que os tornados (que matam cerca de cinquenta americanos por ano) são uma causa de morte mais comum do que a asma (que mata mais de 4 mil americanos por ano), presumivelmente porque os tornados dão mais audiência na televisão.

É fácil ver por que a heurística da disponibilidade, insuflada pela política da mídia “se tem sangue, a notícia é boa”, pode induzir um sentimento de pessimismo quanto ao estado do mundo. Pesquisadores dos meios de comunicação que computam vários tipos de notícias ou apresentam aos editores um cardápio de possíveis reportagens para ver quais escolherão e como as exibirão confirmam que, mantendo os eventos constantes, os responsáveis pelo que vai ser noticiado preferem a cobertura negativa à positiva. Isso, por sua vez, fornece uma fórmula fácil para os pessimistas na página de editorial: faça uma lista das piores coisas que estão acontecendo em qualquer parte do planeta nesta semana e teremos uma defesa impressionante do argumento de que a civilização nunca esteve tão ameaçada quanto agora.

As consequências de notícias negativas também são negativas. O público que as recebe em profusão, longe de ficar mais bem informado, torna-se descalibrado. Essas pessoas se preocupam mais com a criminalidade mesmo quando os índices estão caindo, e às vezes se desligam por completo da realidade: uma pesquisa de 2016 revelou que a grande maioria dos americanos acompanha atentamente as notícias sobre o Estado Islâmico (EI), e 77% concordam que “os militantes islâmicos em ação na Síria e Iraque representam uma ameaça grave à existência ou sobrevivência dos Estados Unidos” — uma crença nada menos do que delirante. Os consumidores de notícias negativas ficam deprimidos, como seria de esperar: um levantamento recente da literatura especializada citou “percepção errônea de risco, ansiedade, níveis de humor mais baixos, desamparo aprendido, desprezo e hostilidade pelos outros, dessensibilização e, em alguns casos, […] recusa total a ver o noticiário”. E se tornam fatalistas, dizem coisas como “Para que votar? Não ajuda nada”, ou “Eu poderia doar dinheiro, mas na semana que vem vai haver outra criança morrendo de fome”.

Sabendo como os hábitos jornalísticos e os vieses cognitivos agravam-se mutuamente, como podemos avaliar com sensatez o estado do mundo? A resposta é: contando. Quantas pessoas são vítimas de violência em proporção ao número de seres humanos vivos? Quantas estão doentes, quantas são vítimas da fome, quantas são pobres, quantas são oprimidas, quantas são analfabetas, quantas são infelizes? E esses números estão aumentando ou diminuindo? A perspectiva quantitativa, apesar de sua aura nerd, é na verdade a mais moralmente iluminista, pois trata todas as vidas humanas como dotadas do mesmo valor, em vez de privilegiar as pessoas que nos são próximas ou as que são mais fotogênicas. E traz a esperança de que possamos identificar as causas do sofrimento e, assim, descobrir quais medidas têm maior probabilidade de reduzi-lo.

Esse foi o objetivo de meu livro “Os anjos bons da nossa natureza”, de 2011, no qual apresentei uma centena de gráficos e mapas mostrando que a violência e as condições que a promovem declinaram ao longo da história. Para ressaltar que os declínios ocorreram em épocas diferentes e tiveram causas distintas, eu os nomeei. O “Processo de Pacificação” foi uma redução em cinco vezes na taxa de mortes decorrentes de ataques e inimizades tribais, a consequência de Estados exercendo controle eficaz sobre um território. O “Processo Civilizador” foi uma redução em quarenta vezes nas taxas de homicídio e outros crimes violentos, decorrente da consolidação do estado de direito e de normas de autocontrole nos primeiros tempos da Europa moderna. “Revolução Humanitária” é outro nome para a abolição da escravidão, perseguição religiosa e castigos cruéis na era iluminista. “Longa Paz” é o termo com que os historiadores designam o declínio da guerra entre grandes potências e das guerras civis após a Segunda Guerra Mundial. Depois do fim da Guerra Fria, o mundo tem desfrutado de uma “Nova Paz”, com menos guerras civis, genocídios e autocracias. E, desde os anos 1950, uma avalanche de Revoluções por Direitos percorre o planeta: direitos civis, direitos das mulheres, direitos dos homossexuais, direitos das crianças, direitos dos animais.

Poucos desses declínios são contestados por especialistas que estão a par dos números. Os estudiosos da criminologia histórica, por exemplo, concordam que os homicídios despencaram depois da Idade Média, e os analistas de relações internacionais estão mais do que cientes da redução do número de guerras importantes após 1945. No entanto, a maioria das pessoas leigas do mundo surpreende-se ao saber desses fatos.

Pensei que um desfile de gráficos com o tempo no eixo horizontal, a contagem de corpos ou outras medidas de violência no vertical, e uma linha sinuosa descendo do alto à esquerda até embaixo à direita curaria o público do viés da disponibilidade e o persuadiria de que, pelo menos nessa esfera do bem-estar, o mundo progrediu. Mas as perguntas e objeções das pessoas me fizeram ver que a resistência à ideia de progresso é ainda mais poderosa do que falácias estatísticas. Obviamente, qualquer conjunto de dados é um reflexo imperfeito da realidade; portanto é legítimo questionar se os números são de fato acurados e representativos. Contudo, as objeções revelaram não apenas um ceticismo com relação aos dados, mas também um despreparo para a possibilidade de a condição humana melhorar. Muita gente não possui as ferramentas conceituais para avaliar se houve ou não progresso; a própria ideia de que as coisas podem melhorar não faz sentido para essas pessoas. Eis algumas versões estilizadas de diálogos que tive com muitos dos questionadores.

Então a violência declinou linearmente desde o começo da história! Impressionante!

Não, não “linearmente” — seria espantoso se qualquer medida do comportamento humano, com todas as suas vicissitudes, declinasse de forma regular segundo uma quantidade constante por unidade de tempo, década após década e século após século. E também não monotonicamente (o que talvez os questionadores tivessem em mente): isso significaria que essa medida sempre declinaria ou se manteria igual, e nunca aumentaria. Curvas históricas reais mostram oscilações, subidas, picos e às vezes guinadas vertiginosas. Entre os exemplos temos as duas guerras mundiais, uma explosão da criminalidade em países ocidentais desde meados dos anos 1960 até o começo dos 1990 e uma alta substancial em guerras civis no mundo em desenvolvimento na esteira da descolonização nos anos 1960 e 1970. O progresso consiste em tendências da violência, nas quais essas flutuações são sobrepostas: uma queda brusca ou um declínio lento, um retorno a uma linha de base baixa após uma alta temporária. Nem sempre o progresso pode ser monotônico, pois as soluções para problemas criam novos problemas. Mas o progresso pode ser retomado quando os novos problemas forem resolvidos.

A propósito, o caráter não monotônico dos dados sociais fornecem uma fórmula fácil para os meios de comunicação acentuarem o lado negativo. Se forem
desconsiderados todos os anos nos quais um indicador de algum problema declinou e cada subida for informada (já que, afinal de contas, ela é “notícia”), os leitores terão a impressão de que a vida vai cada vez pior em vez de melhor. Nos seis primeiros meses de 2016, o New York Times usou esse truque por três vezes, com números sobre longevidade e mortes por suicídio e acidentes de automóvel.

Ora, se os níveis de violência nem sempre caem, isso significa que são cíclicos; portanto, mesmo que estejam baixos neste momento, é só questão de tempo para que voltem a subir.

Não. As mudanças ao longo do tempo podem ser estatísticas, com flutuações imprevisíveis, sem ser cíclicas, isto é, sem oscilar como um pêndulo entre dois extremos. Em outras palavras, mesmo que seja possível ocorrer uma reversão a qualquer momento, isso não significa que ela se torna mais provável com o passar do tempo. (Muitos investidores perderam tudo porque apostaram em um “ciclo econômico” — um termo muito mal escolhido — que na verdade consiste em guinadas imprevisíveis.) O progresso pode ocorrer quando as reversões de uma tendência positiva tornam-se menos frequentes, menos pronunciadas ou, em alguns casos, cessam totalmente.

Como você pode dizer que a violência diminuiu? Não leu sobre o tiroteio na escola (ou o homem-bomba, ou o ataque com granada, ou a briga de torcidas de futebol, ou o esfaqueamento na pista de dança) no noticiário de hoje?

Declínio não quer dizer desaparecimento. (A afirmação “x > y” é diferente da afirmação “y = 0”.) Uma coisa pode diminuir muito sem desaparecer por completo. Isso significa que o nível de violência no dia de hoje é totalmente irrelevante para a questão de a violência ter ou não declinado ao longo da história. O único modo de responder a essa pergunta é comparar o nível de violência atual com o nível de violência no passado. E, sempre que você examina o nível de violência no passado, encontra-o muito alto, apesar de não estar tão fresco na memória quanto a manchete da manhã.

Todas essas estatísticas bonitinhas sobre a queda da violência não significam nada se você for uma das vítimas.

Certo, mas elas significam que é menor a probabilidade de você ser uma vítima. Por essa razão, são importantíssimas para os milhões de pessoas que não são vítimas, mas teriam sido se as taxas de violência tivessem permanecido iguais.

Então você está dizendo que todos podemos ficar sossegados porque a violência vai acabar por si mesma.

Ilógico, capitão. Se você ver que um monte de roupa suja diminuiu, isso não significa que as roupas se lavaram sozinhas. Significa que alguém as lavou. Se um tipo de violência diminuiu, então alguma mudança no meio social, cultural ou material causou o declínio. Se as condições persistirem, a violência pode permanecer baixa ou decrescer ainda mais; do contrário, não cairá. Por isso é importante descobrir quais são as causas, para que possamos tentar intensificá-las e aplicá-las de modo mais abrangente a fim de assegurar que o declínio da violência continue.

Dizer que a violência diminuiu é ser ingênuo, sentimental, idealista, quixotesco, crédulo, utópico, poliânico, panglossiano.

Não. Examinar dados que mostram um declínio da violência e afirmar que “a violência diminuiu” é constatar um fato. Examinar dados que mostram que a violência diminuiu e dizer “a violência aumentou” é delirar. Desconsiderar dados sobre a violência e insistir que “a violência aumentou” é ser um ignorante completo.

Quanto às acusações de quixotesco, posso replicar com certa confiança. Também sou autor do nada quixotesco e antiutópico “Tábula rasa: A negação contemporânea da natureza humana”, livro no qual afirmei que a evolução equipou os seres humanos com várias motivações destrutivas como cobiça, luxúria, dominância, vingança e autoengano. Mas acredito que as pessoas também são munidas de um senso de solidariedade, de uma capacidade para refletir sobre seu sofrimento e de faculdades de conceber e compartilhar novas ideias — os anjos bons da nossa natureza, nas palavras de Abraham Lincoln. Somente examinando os fatos podemos saber em que grau os nossos anjos bons prevalecem sobre os nossos demônios interiores em determinada época e lugar.

Como você pode prever que a violência continuará a diminuir?

A afirmação de que determinada medida da violência declinou não é uma “teoria”, e sim a observação de um fato. E, sim, o fato de que uma medida mudou com o passar do tempo não é sinônimo de uma previsão de que continuará a mudar nessa direção o tempo todo e para sempre. Como se exige que seja dito nos anúncios de investimentos, o desempenho passado não é garantia de resultados futuros.

Nesse caso, de que adiantam todos esses gráficos e análises? Uma teoria científica não tem de fazer suposições passíveis de ser testadas?

Uma teoria científica faz previsões em experimentos nos quais as influências causais são controladas. Nenhuma teoria pode fazer uma predição sobre o mundo como um todo, com 7 bilhões de pessoas disseminando ideias virais em redes globais e interagindo com ciclos caóticos de clima e recursos. Declarar o que o futuro reserva em um mundo incontrolável, e sem saber a razão de os eventos ocorrerem como ocorrem, não é previsão, é profecia; e, como observa David Deutsch: “A mais importante de todas as limitações à criação de conhecimento é não sermos capazes de profetizar: não podemos prever o conteúdo de ideias que ainda serão concebidas, nem seus efeitos. Essa limitação não é apenas condizente com o crescimento ilimitado do conhecimento: é acarretada por ele”.

Obviamente, a incapacidade de profetizar não é pretexto para desconsiderar os fatos. Uma melhora em alguma medida do bem-estar humano sugere que, de modo geral, mais coisas foram impelidas na direção certa do que na direção errada. Se devemos ou não esperar que o progresso continue, vai depender de conhecermos ou não que forças são essas e por quanto tempo permanecerão atuando. Isso vai variar para cada tendência. Algumas poderão mostrar-se mais condizentes com a lei de Moore (o número de transistores por chip de computador duplica a cada dois anos) e dar margem à confiança (mas não certeza) de que os frutos do engenho humano se acumularão e o progresso continuará. Algumas podem ser como o mercado de ações e pressagiar flutuações de curto prazo, mas ganhos de longo prazo. Destas, algumas podem refletir uma distribuição estatística de “cauda gorda”, na qual eventos extremos, ainda que menos prováveis, não podem ser excluídos. Outras ainda podem ser cíclicas ou caóticas. Por ora, devemos ter em mente que uma tendência positiva sugere (mas não prova) que estivemos fazendo alguma coisa direito e que devemos nos empenhar para identificar que coisa é essa e fazer cada vez mais.

Quando todas essas objeções são refutadas, muitas vezes vejo as pessoas quebrarem a cabeça para encontrar algum modo de mostrar que a notícia não pode ser tão boa quanto os dados sugerem. Em desespero, apelam para a semântica.

Provocação na internet não é uma forma de violência? Mineração a céu aberto não é uma forma de violência? Desigualdade não é uma forma de violência? Poluição não é uma forma de violência? Pobreza não é uma forma de violência? Consumismo não é uma forma de violência? Divórcio não é uma forma de violência? Publicidade não é uma forma de violência? Estudos estatísticos não são uma forma de violência?

Por mais fascinante que seja uma metáfora como expediente retórico, não se trata de um bom modo de avaliar o estado da humanidade. O raciocínio moral requer proporcionalidade: maldades proferidas no Twitter podem causar chateação, mas não equivalem ao tráfico de escravos ou ao Holocausto. Requer também distinguir retórica de realidade. Invadir um centro de assistência a vítimas de estupro e indagar o que está sendo feito a respeito do estupro do meio ambiente não ajuda nem as vítimas de estupro nem o meio ambiente. Por fim, melhorar o mundo requer compreensão de causa e efeito. Embora instituições morais primitivas tendam a agrupar todas as coisas ruins e encontrar um vilão culpado por todas, não existe nenhum fenômeno coerente de “coisas ruins” que possamos procurar entender a fim de eliminar (a entropia e a evolução as geram em abundância). Guerra, crime, poluição, pobreza, doença e incivilidade são males que podem ter pouco em comum e, se quisermos reduzi-los, não podemos recorrer a jogos de palavras que impossibilitam até mesmo discuti-los individualmente.

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Enumerei essas objeções com o objetivo de preparar o caminho para minha apresentação de outras medidas do progresso humano. A reação incrédula a “Anjos bons” convenceu-me de que não é apenas a heurística da disponibilidade que torna as pessoas fatalistas com relação ao progresso. Tampouco podemos culpar totalmente a predileção da mídia pelas más notícias em sua cínica busca pela atenção do público. Não: as raízes psicológicas da progressofobia são mais profundas.

A mais profunda é um viés que foi resumido em um lema: “O mal é mais forte do que o bem”. Essa ideia pode ser compreendida através de uma série de experimentos mentais sugerida por Tversky. Quanto você é capaz de se imaginar sentindo-se melhor do que neste momento? Quanto você é capaz de se imaginar sentindo-se pior? Ao responder a primeira conjectura, a maioria de nós consegue imaginar um pouco mais de elasticidade em nossos passos ou de brilho nos olhos, mas a resposta à segunda é: infinitamente. Essa assimetria de humor pode ser explicada por uma assimetria na vida (um corolário da lei da entropia). Quantas coisas poderiam acontecer hoje que deixariam você em uma situação muito melhor? Quantas coisas poderiam acontecer que lhe deixariam muito pior? Mais uma vez, para responder à primeira pergunta poderíamos citar ganhar na loteria ou ter alguma grande sorte, porém a resposta à segunda é: incontáveis. Mas não precisamos depender da imaginação. A literatura psicológica confirma que as pessoas temem muito mais perder do que anseiam por ganhar, que se demoram ruminando um revés muito mais do que saboreando uma boa sorte, e que se magoam muito mais com críticas do que se animam com elogios. (Como psicolinguista, sou impelido a acrescentar que a língua inglesa tem muito mais palavras para emoções negativas do que para positivas.)

Uma exceção ao viés da negatividade é encontrada na memória autobiográfica. Embora sejamos propensos a recordar tanto eventos ruins quanto bons, a coloração negativa dos infortúnios, em especial os que nos acometeram, desbota com o tempo. Temos uma tendência inata a sentir saudade: na memória humana, o tempo cura a maioria das feridas. Duas outras ilusões nos levam ao equívoco de pensar que as coisas não são mais como antes: confundimos os fardos crescentes da maturidade e da criação dos filhos com um mundo menos inocente, e confundimos um declínio em nossas faculdades com um declínio dos tempos. Como afirmou o colunista Franklin Pierce Adams: “Nada é mais responsável pelos bons tempos do que uma memória ruim”.

A cultura intelectual deveria empenhar-se em contrabalançar nossos vieses cognitivos, porém no mais das vezes os reforça. A cura para o viés da disponibilidade é o pensamento quantitativo, mas o professor de literatura Steven Connor observou que “nas artes e humanidades existe um consenso sem exceções acerca do horroroso avanço do domínio dos números”. Essa “acalculia ideológica, e não acidental” leva autores a concluir, por exemplo, que, como hoje ocorrem guerras e no passado ocorreram guerras, “nada mudou” — porém não reconhecem a diferença entre uma era com um punhado de guerras que matam coletivamente aos milhares e uma era com dezenas de guerras que mataram coletivamente aos milhões. E isso não lhes permite avaliar os processos sistêmicos que pouco a pouco acrescentam melhoras incrementais no decorrer de um longo tempo.

A cultura intelectual também não está equipada para lidar com o viés da negatividade. Pelo contrário, nosso estado de alerta para notícias ruins abre um mercado para rabugentos profissionais que nos chamam a atenção para coisas más que possam ter passado despercebidas. Experimentos mostraram que um crítico que desanca um livro é visto como mais competente do que um crítico que elogia a obra, e o mesmo pode valer para os críticos da sociedade. “Sempre preveja o pior, e será aclamado profeta”, aconselhou o humorista musical Tom Lehrer. Pelo menos desde a época dos profetas hebreus, que mesclavam críticas sociais com advertências sobre desastres, o pessimismo é igualado à seriedade moral. Os jornalistas acreditam que, ao acentuarem o negativo, estão cumprindo seu dever de vigiar, investigar, informar e afligir os acomodados. E os intelectuais sabem que podem alcançar a importância instantânea apontando um problema não resolvido e teorizando que se trata de um sintoma de uma sociedade doente.

O inverso também vale. O autor da área de finanças Morgan Housel notou que, enquanto os pessimistas parecem estar tentando ajudar você, os otimistas dão a impressão de querer vender alguma coisa. Sempre que alguém oferece uma solução para um problema, críticos se apressam a frisar que não se trata de uma panaceia, uma bala de prata, um projétil mágico ou uma solução universal; é apenas um paliativo ou um remédio tecnológico rápido que não afeta as raízes do mal e produzirá efeitos colaterais e consequências impremeditadas. Evidentemente, como nada é uma panaceia e tudo tem efeitos colaterais (é impossível fazer uma coisa só), esses tropos comuns não passam de recusas para cogitar a possibilidade de que alguma coisa pode ser melhorada.

O pessimismo na intelligentsia também pode ser uma forma de estar por cima. Uma sociedade moderna é uma liga das elites política, industrial, financeira, tecnológica, militar e intelectual, todas competindo por prestígio e influência e com diferentes responsabilidades no funcionamento da sociedade. Reclamar da sociedade moderna pode ser um modo oblíquo de desmerecer os rivais: de acadêmicos sentirem-se superiores a empresários, empresários sentirem-se superiores a políticos, etc. Como observou Thomas Hobbes em 1651, “a competição de elogios tende a reverenciar a antiguidade, pois os homens disputam com os vivos, não com os mortos”.

É claro que o pessimismo tem seu lado bom. O círculo expandido de solidariedade traz preocupações sobre males que nos passariam despercebidos em épocas mais insensíveis. Hoje reconhecemos a guerra civil na Síria como uma tragédia humanitária. As guerras de décadas anteriores — por exemplo, a Guerra Civil na China, a partição da Índia e a Guerra da Coreia — raramente são lembradas dessa forma, apesar de terem matado e desalojado mais pessoas. Quando eu era garoto, o bullying era considerado uma parte natural da fase de crescimento. Era inimaginável que, algum dia, o presidente dos Estados Unidos faria um discurso sobre os males dessa prática, como fez Barack Obama em 2011. À medida que nossa preocupação se estende a uma parte maior da humanidade, tendemos a confundir os males que vemos à nossa volta com sinais de que o mundo decaiu mais, e não de que os nossos critérios se elevaram.

No entanto, a própria negatividade inflexível pode ter consequências impremeditadas, e recentemente algumas pessoas na imprensa começaram a ressaltá-las. Na esteira da eleição americana de 2016, os jornalistas do New York Times David Bornstein e Tina Rosenberg refletiram sobre o papel da mídia no resultado chocante:

Trump foi beneficiário de uma crença — quase universal no jornalismo americano — de que “notícia séria” é definida essencialmente como “o que está errado”. […] Por décadas, o enfoque incessante do jornalismo sobre problemas e patologias aparentemente incuráveis veio preparando o solo que permitiu que as sementes de insatisfação e desesperança de Trump criassem raízes. […] Uma consequência é que, hoje, muitos americanos têm dificuldade para imaginar, valorizar e até acreditar na promessa da mudança incremental do sistema, o que leva a um maior apetite por mudança revolucionária e brusca.

Bornstein e Rosenberg não apontam para os culpados de costume (TV a cabo, redes sociais, comediantes que satirizam a política); em vez disso, identificam a origem na mudança ocorrida entre as eras Vietnã e Watergate — passando de glorificar governantes a refrear seu poder, e então extrapolando os limites e adentrando o terreno do cinismo indiscriminado, em que tudo nos atores cívicos do país convida a agressões humilhantes.

Se as raízes da progressofobia residem na natureza humana, estou sugerindo que essa tendência vem aumentando devido a uma ilusão do viés da disponibilidade? Antecipemos os métodos que usarei no resto do livro e examinemos uma medida objetiva. O cientista de dados Kalev Leetaru aplicou uma técnica chamada análise de sentimentos a cada matéria publicada no New York Times entre 1945 e 2005 e a um arquivo de reportagens traduzidas e transmissões radiofônicas de 130 países entre 1979 e 2010. A análise de sentimentos avalia o tom emocional de um texto computando o número e os contextos de palavras com conotações positivas e negativas, como bom, agradável, terrível e pavoroso. A figura 4.1 mostra os resultados. Desconsiderando os sacolejos e as ondas que refletem as crises do dia, vemos que a impressão de que as notícias tornaram-se mais negativas com o passar do tempo é real. O New York Times tornou-se invariavelmente mais soturno desde o começo dos anos 1960 até o começo da década seguinte, animou-se um pouco (mas bem pouco) nos anos 1980 e 1990, e então despencou em uma disposição de espírito cada vez mais sombria na primeira década do novo século. Também no resto do mundo o tom dos noticiários anuviou-se progressivamente desde fins dos anos 1970 até nossos dias.

Então de fato o mundo rolou ladeira abaixo durante essas décadas? Mantenha a
figura 4.1 em mente enquanto examinamos o estado da humanidade nos próximos capítulos.

O que é progresso? Você poderia pensar que se trata de uma pergunta tão subjetiva e culturalmente relativa que nunca poderá ser respondida. Na verdade, é uma das mais fáceis de responder.

A maioria das pessoas concorda que vida é melhor do que morte. Saúde é melhor do que doença. Sustento é melhor do que fome. Abundância é melhor do que pobreza. Paz é melhor do que guerra. Segurança é melhor do que perigo. Liberdade é melhor do que tirania. Direitos iguais são melhores do que intolerância e discriminação. Inteligência é melhor do que estupidez. Felicidade é melhor do que tristeza. Oportunidades de usufruir a família, os amigos, a cultura e a natureza é melhor do que uma labuta incessante e a monotonia.

Todas essas coisas podem ser medidas. Se aumentaram com o tempo, isso é progresso.

É bem verdade que nem todos concordariam a respeito dos pontos dessa lista. Tais valores são reconhecidamente humanísticos e deixam de fora virtudes religiosas, românticas e aristocráticas como salvação, graça, sacralidade, heroísmo, honra, glória e autenticidade. Mas a maioria concordaria que temos aí um ponto de partida necessário. É fácil enaltecer valores transcendentes no abstrato, porém a maioria das pessoas prioriza vida, saúde, segurança, letramento, sustento e estímulo pela óbvia razão de que são um requisito prévio para tudo o mais. Se você está lendo isto, não está morto, famélico, paupérrimo, moribundo, apavorado, escravizado e não é analfabeto, portanto não está em posição de esnobar esses valores, nem de negar que outras pessoas deveriam ter a mesma boa sorte que você tem.

Acontece que esses valores são consenso no mundo. No ano 2000, todos os 189 membros das Nações Unidas, juntamente com mais de vinte organizações internacionais, concordaram sobre oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio para o ano de 2015 que se encaixam com perfeição nessa lista.

E eis a grande surpresa: o mundo fez um progresso espetacular em todas as medidas de bem-estar humano. E a segunda surpresa: quase ninguém sabe disso.

É até fácil encontrar informações sobre o progresso humano, apesar de estarem ausentes dos principais meios de comunicação e de publicações intelectuais especializadas. Os dados não estão sepultados em relatórios áridos, e sim exibidos em esplêndidos sites na internet, em especial Our World in Data, de Max Roser, HumanProgress, de Marian Tupy e Gapminder, de Hans Rosling. (Rosling descobriu que nem mesmo engolir uma espada durante uma TED Talk em 2007 era suficiente para chamar a atenção do mundo.)

O argumento foi apresentado em livros primorosos, alguns escritos por autores laureados com o prêmio Nobel, que alardeiam a notícia no título: Progresso, O paradoxo do progresso, Infinite Progress [Progresso infinito], The Infinite Resource [O recurso infinito], O otimista racional, The Case for Rational Optimism [Em defesa do otimismo racional], Utopia para realistas, Mass Flourishing [Prosperidade em massa], Abundância, The Improving State of the World [A melhora do estado do mundo], Getting Better [Melhorando], The End of Doom [O fim da perdição], The Moral Arc [O arco moral], The Big Ratchet [A grande catraca], A grande saída, The Great Surge [O grande surto], The Great Convergence [A grande convergência]. (Nenhuma dessas obras foi reconhecida com um prêmio importante, sendo que, no período em que foram lançadas, quatro livros sobre genocídio, três sobre terrorismo, dois sobre câncer, dois sobre racismo e um sobre extinção receberam o prêmio Pulitzer de não ficção.) E, para aqueles cujos hábitos de leitura privilegiam as listas, os anos recentes trouxeram “Cinco boas notícias surpreendentes que ninguém está divulgando”, “Cinco razões pelas quais 2013 foi o melhor ano da história humana”, “Sete razões por que o mundo parece pior do que realmente é”, “26 tabelas e gráficos para mostrar que o mundo está melhorando muito”, “40 modos como o mundo está melhorando” e a minha favorita: “50 razões pelas quais estamos vivendo no melhor período da história”.

O que publicamos do livro O novo Iluminismo, de Steven Pinker:

Prefácio e Introdução

Capítulo 1- Ouse entender!

Capítulo 2- Entro, Evo, Info – Entropia, Evolução, Informação, por Steven Pinker

Capítulo 3- ContraIluminismos

Capítulo 4- Progressofobia

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