Entro, Evo, Info – Entropia, Evolução, Informação, por Steven Pinker

O primeiro fundamento para compreender a condição humana é o conceito de entropia ou desordem, que nasceu da física do século XIX e foi definido em sua forma atual pelo físico Ludwig Boltzmann. A segunda lei da termodinâmica determina que, em um sistema isolado (aquele que não interage com seu ambiente), a entropia nunca diminui. (A primeira lei estabelece que a energia se conserva; a terceira, que a temperatura de zero absoluto é inatingível.) Sistemas fechados tornam-se inexoravelmente menos estruturados, menos organizados, menos capazes de alcançar resultados interessantes e úteis, até que estacam em um equilíbrio de monotonia cinzenta, morna, homogênea, e nele permanecem.

Em sua formulação original, a segunda lei referia-se ao processo no qual a energia usável na forma de uma diferença de temperatura entre dois corpos inevitavelmente se dissipa conforme o calor passa do corpo mais quente para o mais frio. (Como explica o tema musical de Flanders & Swann, “You can’t pass heat from the cooler to the hotter; Try it if you like, but you far better notter”.)* Uma xícara de café, a menos que seja colocada em uma chapa térmica ligada na tomada, esfriará. Quando acaba o carvão que alimenta uma máquina a vapor, o vapor resfriado de um lado do pistão não pode mais movê-lo, pois o vapor aquecido e o ar do outro lado estão empurrando de volta com a mesma força.

*Nota do Tradutor: Não dá para passar calor do mais frio para o mais quente; se quiser, tente, mas não vale a pena ir em frente.

Assim que foi compreendido que o calor não é um fluido invisível, e sim a energia em moléculas em movimento, e que uma diferença de temperatura entre dois corpos consiste em uma diferença nas velocidades médias dessas moléculas, tomou forma uma versão mais geral e estatística do conceito de entropia e da segunda lei da termodinâmica. Tornou-se possível caracterizar a ordem em termos do conjunto de todos os estados microscopicamente distintos de um sistema (no sistema original, envolvendo calor, as possíveis velocidades e posições de todas as moléculas nos dois corpos). De todos esses estados, aqueles nos quais vemos utilidade de um modo geral (por exemplo, quando um corpo está mais quente do que outro, o que se traduz em maior velocidade média das moléculas em um corpo do que no outro) são uma fração minúscula das possibilidades, enquanto todos os estados desordenados ou inúteis (aqueles sem uma diferença de temperatura, nos quais as velocidades médias serão iguais nos dois corpos) são a imensa maioria. Disso decorre que qualquer perturbação do sistema, seja uma chacoalhada aleatória de suas partes, seja uma pancada vinda de fora, vai, pelas leis da probabilidade, empurrar o sistema em direção à desordem ou à inutilidade — não porque a natureza tenda à desordem, mas porque existem muitíssimos mais modos de ser desordenado do que de ser ordenado. Se você se afastar de um castelo de areia, ele não estará lá amanhã, pois, conforme o vento, as ondas, as gaivotas e as crianças moverem os grãos de areia, passará a ser muito mais provável que acabem compondo um arranjo que se encaixe no enorme número de configurações que não se parecem com um castelo do que no pequeno número que tem essa aparência. Eu me referirei com frequência à versão estatística da segunda lei — que não se aplica especificamente a diferenças de temperatura que se nivelam, e sim à dissipação da ordem — como a lei da entropia.

Como a entropia é importante para o ser humano? A vida e a felicidade dependem de uma parcela infinitesimal de arranjos ordenados de matéria em meio ao número astronômico de possibilidades. Nosso corpo é uma reunião improvável de moléculas e mantém essa ordem com a ajuda de outras improbabilidades: as poucas substâncias que podem nos nutrir, os poucos materiais nas poucas formas que podem nos vestir, nos abrigar e mover as coisas como desejamos. Um número imensamente maior de arranjos de matéria encontrados na Terra não tem utilidade para nós; por isso, quando as coisas mudam sem que um agente humano tenha direcionado a transformação, a probabilidade é que mudem para pior. A lei da entropia é amplamente reconhecida em nosso cotidiano em expressões como “seu mundo desmoronou”, “se parar, enferruja”, “a coisa desandou”, “não dar sopa ao azar”, “a lei de Murphy” (se algo pode dar errado, dará) e (do legislador texano Sam Rayburn) “Qualquer jumento pode derrubar um celeiro com um coice, mas é preciso um carpinteiro para construir um”.

Os cientistas sabem que a segunda lei é muito mais do que uma explicação para as tribulações do cotidiano: é um alicerce da nossa compreensão do universo e do nosso lugar nele. Em 1928, o físico Arthur Eddington escreveu:

A lei segundo a qual a entropia sempre aumenta […] ocupa, a meu ver, a posição suprema entre as leis da Natureza. Se alguém lhe disser que a sua teoria favorita do universo está em desacordo com as equações de Maxwell, danem-se as equações de Maxwell. Se for descoberto que ela é refutada pela observação, ora, esses experimentalistas às vezes fazem burrada mesmo. Mas, se for constatado que a sua teoria não condiz com a segunda lei da termodinâmica, não posso lhe dar nenhuma esperança; a ela só resta desmoronar na mais profunda humilhação.

Em suas famosas Rede Lectures de 1959, publicadas em livro com o título The Two Cultures and the Scientific Revolution, o cientista e escritor de ficção C. P. Snow comentou o desdém pela ciência entre os britânicos instruídos da sua época:

Estive presente em um bocado de reuniões de pessoas que, pelos padrões da cultura tradicional, são consideradas altamente instruídas e que expressaram com um entusiasmo considerável a sua incredulidade pela ignorância dos cientistas. Uma ou duas vezes me exasperei e perguntei ao grupo quantos ali sabiam enunciar a segunda lei da termodinâmica. A resposta foi fria e também negativa. No entanto, minha pergunta era mais ou menos o equivalente científico de: você já leu alguma obra de Shakespeare?

O químico Peter Atkins alude à segunda lei no título de seu livro Four Laws that Drive the Universe. E, na minha área, os psicólogos evolucionários John Tooby, Leda Cosmides e Clark Barrett intitularam um artigo recente sobre as bases da ciência da mente “A segunda lei da termodinâmica é a primeira lei da psicologia”.

Por que a reverência pela segunda lei? De um ponto de vista olímpico, ela define o destino do universo e o propósito fundamental da vida, da mente e do empenho humano: usar energia e conhecimento para repelir a maré de entropia e criar refúgios de ordem benéfica. De um ponto de vista mais humano, podemos ser mais específicos, mas antes de entrar em terreno conhecido preciso expor as duas outras ideias básicas.

À primeira vista, parece que a lei da entropia ensejaria apenas uma história desoladora e um futuro deprimente. O universo começou em um estado de baixa entropia, o Big Bang, com sua concentração inimaginavelmente densa de energia. A partir de então, tudo degringolou, com o universo se dispersando — como continuará a fazer — em um mingau ralo de partículas distribuídas de maneira uniforme e esparsa por todo o espaço. Na realidade, obviamente, o universo como o encontramos não é um mingau informe. Ele é animado com galáxias, planetas, montanhas, nuvens, flocos de neve e uma eflorescência de flora e fauna, que nos inclui.

Uma razão para o cosmo ser repleto de coisas interessantes é um conjunto de processos chamado auto-organização, que permite o surgimento de zonas de ordem circunscritas. Quando entra energia em um sistema e ele dissipa essa energia em seu resvalo para a entropia, pode adquirir uma configuração ordenada e até bela: esfera, espiral, galáxia starburst, rodamoinho, onda, cristal, fractal. A propósito, o fato de acharmos belas essas configurações sugere que a beleza talvez não esteja apenas nos olhos de quem vê. A resposta estética do cérebro pode ser uma receptividade aos padrões contraentrópicos que podem surgir na natureza.

No entanto, existe outro tipo de ordenação na natureza que também precisa ser explicado: não as simetrias e os ritmos elegantes do mundo físico, mas a estrutura funcional do mundo vivo. Os seres vivos são compostos de órgãos dotados de partes heterogêneas que são impressionantemente moldadas e dispostas para manter o organismo vivo (ou seja, continuar a absorver energia e resistir à entropia).

A ilustração que se costuma usar para o design biológico é a do olho, mas usarei como exemplo meu segundo órgão dos sentidos favorito. A orelha humana contém um tímpano elástico que vibra em resposta ao menor deslocamento de ar, uma alavanca óssea que multiplica a força da vibração, um pistão que transmite a vibração para o fluido em um longo túnel (convenientemente espiralado para encaixar-se na parede do crânio), uma membrana afunilada que percorre toda a extensão do túnel e separa fisicamente a forma de onda em seus harmônicos e um conjunto de células com cílios minúsculos que são flexionados para a frente e para trás pela membrana vibratória e enviam uma sequência de impulsos elétricos para o cérebro. É impossível explicar por que tais membranas, ossos, fluidos e cílios organizam-se desse modo improvável sem notar que essa configuração permite ao cérebro registrar sons padronizados. Até a carnuda orelha externa— assimétrica de cima a baixo e da parte frontal até a posterior, e toda pregueada de cristas e vales — tem um feitio que esculpe o som entrante de modo a informar ao cérebro se a fonte está em cima ou embaixo, na frente ou atrás.

Os organismos são dotados de inúmeras configurações de carne improváveis — olhos, orelhas, coração, estômago — que exigem explicação. Antes que Charles Darwin e Alfred Russel Wallace propusessem uma, em 1859, era razoável atribuir tudo isso à atuação de um “designer” divino — uma das razões, desconfio, por que tantos pensadores iluministas foram deístas e não inequivocamente ateus. Darwin e Wallace tornaram o designer desnecessário. Assim que processos físicos e químicos auto-organizadores produzissem uma configuração de matéria capaz de se replicar, as cópias fariam cópias, estas fariam cópias das cópias e assim por diante, em uma explosão exponencial. Os sistemas replicantes competiriam pelo material para produzir suas cópias e pela energia necessária à replicação. Como nenhum processo de cópia é perfeito — a lei da entropia garante isso —, surgiriam erros e, embora a maioria dessas mutações viesse a degradar o replicador (entropia de novo), a pura sorte por fim faria surgir um que fosse mais eficaz em se replicar, e seus descendentes prevaleceriam na competição. À medida que erros de cópia que aumentam a estabilidade e a replicação se acumulassem ao longo das gerações, o sistema replicante — que chamamos de organismo — pareceria ter sido projetado tendo em vista a sobrevivência e a reprodução no futuro, embora apenas preservasse os erros de cópia que, no passado, favoreceram a sobrevivência e a reprodução.

Os criacionistas costumam deturpar a segunda lei da termodinâmica, usando-a para afirmar que a evolução biológica, um aumento da ordem no decorrer do tempo, é fisicamente impossível. A parte da lei que eles omitem é “em um sistema fechado”. Organismos são sistemas abertos: captam energia do Sol, de alimentos ou de chaminés oceânicas para criar bolsões temporários de ordem em seus corpos e ninhos enquanto descartam calor e resíduos no ambiente, aumentando a desordem no mundo como um todo. O uso de energia pelos organismos para manter sua integridade diante da pressão da entropia é uma explicação moderna do princípio do conatus (esforço ou tentativa), que Espinosa definiu como “o empenho para perseverar e prosperar em seu próprio ser”, e que foi base de várias teorias da vida e da mente na era iluminista.

O requisito implacável de extrair energia do ambiente acarreta uma das tragédias dos seres vivos. Enquanto as plantas saboreiam a energia solar e algumas criaturas das profundezas salgadas se banqueteiam da sopa química que brota de fendas no leito oceânico, os animais são exploradores natos: vivem da duramente obtida energia armazenada no corpo de plantas e outros animais, comendo-os. O mesmo fazem os vírus, bactérias e outros patógenos e parasitas, que devoram corpos por dentro. Com exceção das frutas, tudo que chamamos de “alimento” é uma parte corpórea ou um depósito de energia de algum outro organismo, que preferiria manter essa energia para si mesmo. A natureza é uma guerra, e boa parte do que chama a nossa atenção no mundo natural é uma corrida armamentista. Animais que são presas se protegem com carapaças, espinhos, garras, chifres, veneno, camuflagem, fuga ou autodefesa; plantas têm espinhos, cascas, cortiça e substâncias irritantes e venenosas que saturam seus tecidos. Pela evolução, animais ganham armas para penetrar nessas defesas: carnívoros têm velocidade, garras, visão de águia, enquanto herbívoros possuem dentes moedores e um fígado que desintoxica venenos naturais.

E agora chegamos ao terceiro fundamento, a informação. A informação pode ser concebida como uma diminuição da entropia — como o ingrediente que distingue um sistema ordenado, estruturado, do imenso conjunto de sistemas aleatórios e inúteis. Imagine páginas de caracteres aleatórios digitadas por um macaco em uma máquina de escrever, ou um trecho de ruído branco emitido por um rádio entre uma estação e outra, ou uma tela sarapintada de confetes devido a um arquivo corrompido no computador. Cada um desses objetos pode assumir trilhões de formas diferentes, uma mais maçante do que a outra. Mas agora suponha que os dispositivos sejam controlados por um sinal que arranja os caracteres, ondas sonoras ou pixels em um padrão que se correlaciona com alguma coisa do mundo: a Declaração de Independência, os compassos de abertura de “Hey Jude”, um gato de óculos escuros. Dizemos que o sinal transmite informação sobre a declaração, a canção ou o gato.

A informação contida em um padrão depende do quanto a nossa visão do mundo é minuciosa ou mais geral. Se nos importamos com a sequência exata de caracteres na produção do macaco, com a diferença exata entre uma emissão de ruído e outra, ou com o padrão específico de pixels em apenas uma das exibições aleatórias na tela do computador, então teremos de dizer que cada um dos itens contém a mesma quantidade de informação que os demais. Aliás, os interessantes conteriam menos informação, pois, quando examinamos uma parte (por exemplo, a letra q), podemos adivinhar outras (por exemplo, a letra seguinte, u) sem necessidade do signo. Porém, é mais comum agruparmos a imensa maioria de configurações de aparência aleatória como equivalentemente maçantes e as distinguirmos das pouquíssimas que se correlacionam com alguma outra coisa. Dessa perspectiva, a foto do gato contém mais informações que os confetes de pixels, pois é preciso uma mensagem eloquente para destacar uma configuração ordenada rara de um número imenso de configurações desordenadas. Afirmar que o universo é ordenado em vez de aleatório é dizer que ele contém informações nesse sentido. Alguns físicos veneram a informação como um dos componentes básicos do universo, juntamente com matéria e energia.

Informação é aquilo que se acumula em um genoma ao longo da evolução. A sequência de bases em uma molécula de DNA correlaciona-se com a sequência de aminoácidos nas proteínas que compõem o corpo de um organismo, e elas ganharam essa sequência estruturando os ancestrais do organismo — reduzindo sua entropia — nas configurações improváveis que lhes permitiram captar energia, crescer e se reproduzir.

Informações também são coletadas pelo sistema nervoso de um animal enquanto ele cuida da vida. Quando a orelha converte som em disparos neurais, os dois processos físicos — ar que vibra e íons que se difundem — são muito diferentes. Porém, graças à correlação entre eles, o padrão de atividade neural no cérebro do animal conduz informações sobre o som no mundo. Dali as informações podem passar de elétricas a químicas e novamente a elétricas conforme são submetidas às sinapses que conectam um neurônio ao neurônio contíguo; ao longo de todas essas transformações físicas, as informações são preservadas.

Uma descoberta fundamental da neurociência teórica no século XX é que redes de neurônios não só podem preservar informações, mas também transformá-las de modos que permitem explicar como cérebros podem ser inteligentes. Dois neurônios de entrada podem ser conectados a um neurônio de saída de maneira que seus padrões de disparo correspondam a relações lógicas do tipo E, OU e NÃO, ou a uma decisão estatística que depende do peso das evidências entrantes. Isso dá às redes neurais a capacidade de se ocupar de processamento de informações, ou computação. Dada uma rede suficientemente grande construída com esses circuitos lógicos e estatísticos (e, com seus bilhões de neurônios, o cérebro tem espaço para muitas), um cérebro pode computar funções complexas, o requisito prévio da inteligência. Pode transformar as informações sobre o mundo enviadas pelos órgãos dos sentidos de modo que reflitam as leis que governam o mundo, o que, por sua vez, lhe permite fazer inferências e previsões úteis. As representações internas que se correlacionam confiavelmente com estados do mundo e participam de inferências que tendem a derivar implicações verdadeiras de premissas verdadeiras podem ser chamadas de conhecimento. Dizemos que alguém sabe o que é um tordo se essa pessoa pensar “tordo” sempre que vir um e se for capaz de inferir que se trata de um tipo de ave que aparece na primavera e cata minhocas do chão.

Voltando à evolução, um cérebro que já viesse dotado de informações no genoma para efetuar computações com base em informações provenientes dos sentidos poderia organizar o comportamento do animal de modo a lhe permitir captar energia e resistir à entropia. Poderia, por exemplo, implementar a regra “se grasnar, persiga; se latir, fuja”.

No entanto, perseguir e fugir não são apenas sequências de contrações musculares; são processos direcionados para um objetivo. Perseguir pode consistir em correr ou escalar, saltar ou emboscar, dependendo das circunstâncias, desde que isso aumente as chances de capturar a presa; fugir pode incluir esconder-se, paralisar-se ou deslocar-se em zigue-zague. E isso faz lembrar outra ideia fundamental do século XX, às vezes chamada de cibernética, feedback ou controle. Essa ideia explica como um sistema físico pode parecer teleológico, isto é, dirigido por propósitos ou objetivos. Ele só precisa de um modo de perceber o seu próprio estado e o estado de seu ambiente, uma representação de um estado pretendido (o que ele “quer”, o que está “tentando obter”), a capacidade de computar a diferença entre o estado corrente e o estado almejado e um repertório de ações que sejam identificadas com seus efeitos típicos. Se o sistema for programado de modo a desencadear ações que costumam reduzir a diferença entre o estado corrente e o estado pretendido, podemos dizer que se empenha em objetivos (e que, quando o mundo é suficientemente previsível, eles serão alcançados). Esse princípio foi descoberto pela seleção natural sob a forma da homeostase — por exemplo, quando nosso corpo regula sua temperatura tremendo e suando. Quando os humanos o descobriram, usaram-no para construir sistemas análogos como o termostato e o controle de velocidade de veículos e, mais tarde, sistemas digitais como programas de computador para jogar xadrez e robôs autônomos.

Os princípios de informação, computação e controle reduzem o abismo entre o mundo físico de causa e efeito e o mundo mental do conhecimento, inteligência e propósito. Dizer que ideias podem mudar o mundo não é só uma aspiração retórica — é um fato decorrente da constituição física dos cérebros. Os pensadores iluministas suspeitavam que o pensamento podia consistir em padrões na matéria — compararam as ideias a impressões em cera, vibrações em uma corda ou ondas provocadas por um barco. E alguns, como Hobbes, propuseram que “raciocinar é simplesmente calcular”. Contudo, antes de os conceitos de informação e computação terem sido elucidados, era razoável um indivíduo acreditar em um dualismo mente-corpo e atribuir a vida mental a uma alma imaterial (do mesmo modo que, antes de o conceito de evolução ser elucidado, era razoável ser um criacionista e atribuir as complexas obras da natureza a um criador cósmico). Desconfio que essa seja outra razão pela qual muitos pensadores iluministas eram deístas.

Evidentemente, é natural duvidar que o seu celular “sabe” um número favorito, que o GPS “calcula” o melhor trajeto para voltar para casa e que o seu aspirador de pó automático “quer” limpar o assoalho. Porém, à medida que os sistemas de processamento de informação tornam-se mais complexos — à medida que suas representações do mundo tornam-se mais ricas, seus objetivos são organizados em hierarquias de subobjetivos dentro de subobjetivos, e suas ações para atingir os objetivos tornam-se mais diversificadas e menos previsíveis —, começa a parecer chauvinismo hominídeo insistir que eles não se sofisticam. (No último capítulo tratarei da questão de a informação e a computação explicarem ou não a consciência além de conhecimento, inteligência e propósito.)

A inteligência humana continua a ser o referencial para o tipo artificial, e o que faz do Homo Sapiens uma espécie singular é o fato de que nossos ancestrais cultivaram cérebros maiores que coligiam mais informações sobre o mundo, raciocinavam a respeito delas de modos mais refinados e recorriam a uma maior variedade de ações para atingir seus objetivos. Eles se especializaram no nicho cognitivo, também chamado nicho cultural e nicho dos caçadores-coletores. Isso abrangia um conjunto de novas adaptações, entre elas a habilidade de manipular modelos mentais do mundo e prever o que aconteceria quando se tentassem coisas novas; a habilidade de cooperar com outros, que permitia a equipes realizarem o que seria impossível para um indivíduo sozinho; e a linguagem, que lhes permitia coordenar suas ações e contribuir com suas experiências para o reservatório de habilidades e normas que chamamos de cultura. Essas disposições permitiram aos primeiros hominídeos derrotar as defesas de uma grande variedade de plantas e animais e colher a recompensa em forma de energia, a qual, armazenada em seus cérebros cada vez maiores, ampliou seus conhecimentos e seu acesso a ainda mais energia. Uma tribo contemporânea de caçadores-coletores bastante estudada, os hadza, da Tanzânia, que vive no ecossistema onde os primeiros humanos modernos evoluíram e provavelmente preserva boa parte do modo de vida deles, extrai 3 mil calorias diárias por pessoa de mais de 880 espécies. Os hadza criaram esse cardápio recorrendo a modos engenhosos e exclusivamente humanos de obter alimento — por exemplo, abater animais grandes com flechas envenenadas, remover abelhas da colmeia com fumaça para roubar mel e aumentar o valor nutricional da carne e tubérculos pelo cozimento.

A energia canalizada pelo conhecimento é o elixir com o qual postergamos a entropia, e avanços na captação de energia são avanços no destino humano. A invenção da agricultura, por volta de 10 mil anos atrás, multiplicou a disponibilidade de calorias obtidas de plantas cultivadas e animais domésticos, liberou parte da população das tarefas de caçar e coletar e, por fim, deu às pessoas o luxo de escrever, pensar e acumular ideias. Por volta do ano 500 antes da era comum, na época que o filósofo Karl Jaspers chamou de Era Axial, várias culturas vastamente separadas convergiram de sistemas de rituais e sacrifícios destinados apenas a afastar o azar para sistemas de crenças filosóficas e religiosas que promoviam o altruísmo e prometiam a transcendência espiritual. O taoísmo e o confucionismo na China, o hinduísmo, o budismo e o jainismo na Índia, o zoroastrismo na Pérsia, o judaísmo do Segundo Templo na Judeia e a filosofia e o teatro clássicos na Grécia surgiram no espaço de poucos séculos. (Confúcio, Buda, Pitágoras, Ésquilo e os últimos profetas hebreus andaram pela Terra na mesma época.) Recentemente, uma equipe interdisciplinar de estudiosos identificou uma causa comum. Não foi uma aura de espiritualidade que envolveu o planeta, e sim algo mais prosaico: a captação de energia. A Era Axial foi o período em que avanços na agricultura e na economia proporcionaram um surto de energia: mais de 20 mil calorias diárias por pessoa em alimento, forragem, combustível e matérias-primas. Esse crescimento explosivo permitiu que civilizações pudessem dar-se ao luxo de ter cidades maiores e uma classe de estudiosos e sacerdotes e reorientar suas prioridades, da sobrevivência no curto prazo para a harmonia no longo prazo. Como diria Bertold Brecht milênios mais tarde: primeiro a boia, depois a ética.

Quando a Revolução Industrial liberou uma profusão de energia utilizável extraída do carvão, petróleo e água, desencadeou a Grande Saída da pobreza, da doença, da fome, do analfabetismo e da morte prematura, primeiro no Ocidente e, cada vez mais, no resto do mundo. E o próximo salto no bem-estar humano — o fim da extrema pobreza e a disseminação da abundância, com todos os seus benefícios morais — dependerá de avanços tecnológicos que forneçam energia a um custo econômico e ambiental aceitável para o mundo todo.

Entro, evo, info. Esses conceitos definem a narrativa do progresso humano: a tragédia em que nascemos e nossos meios para conseguir arduamente uma existência melhor.

A primeira noção sábia que esses conceitos oferecem é: Pode ser que ninguém tenha culpa por um infortúnio. Um grande avanço da Revolução Científica — talvez o maior — foi refutar a intuição de que o universo é impregnado de propósito. Na concepção primitiva, mas onipresente, tudo acontece por uma razão; por isso, quando ocorrem coisas ruins — acidentes, doença, fome, pobreza —, algum agente só pode ter desejado que elas acontecessem. Se uma pessoa pode ser considerada culpada pelo infortúnio, pode ser punida ou forçada a ressarcir prejuízos. Quando não é possível atribuir a culpa a nenhum indivíduo, pode-se culpar a minoria étnica ou religiosa mais próxima e linchá-la ou massacrá-la em um pogrom. Se nenhum mortal puder ser acusado de forma plausível, sempre dá para procurar por bruxas e queimá-las ou afogá-las. Se isso falhar, invocam-se deuses sádicos, que não podem ser punidos, mas podem ser aplacados com orações e sacrifícios. E há também forças incorpóreas como o carma, o destino, mensagens espirituais, justiça cósmica e outras garantias da instituição de que “tudo o que acontece tem uma razão”.

Galileu, Newton e Laplace substituíram esse drama da moralidade cósmica por um universo mecanicista no qual os eventos são causados por condições do presente, e não por objetivos para o futuro. Pessoas têm objetivos, claro, mas projetá-los no funcionamento da natureza é uma ilusão. As coisas podem acontecer sem que ninguém leve em conta seus efeitos sobre a felicidade humana.

Esse vislumbre revelador da Revolução Científica e do Iluminismo foi aprofundado pela descoberta da entropia. Não só o universo não se importa com os nossos desejos, como também, no curso natural dos acontecimentos, parece frustrá-los, já que existem imensamente mais modos de as coisas darem errado do que de darem certo. Casas pegam fogo, navios naufragam, batalhas são perdidas por falta de pregos de ferradura.

A noção da indiferença do universo enraizou-se ainda mais quando a evolução foi compreendida. Predadores, parasitas e patógenos tentam nos devorar constantemente, pragas e organismos decompositores tentam carcomer nossos bens materiais. Isso pode nos causar grande sofrimento, mas eles não se importam.

A pobreza também dispensa explicações. Em um mundo governado por entropia e evolução, esse é o estado-padrão da humanidade. Matéria não se arranja espontaneamente para ser abrigo ou roupa, e seres vivos fazem de tudo para não se tornar nossa comida. Como observou Adam Smith, o que precisa ser explicado é a riqueza. Contudo, ainda hoje, quando poucos acreditam que acidentes e doenças têm perpetradores, grande parte das discussões sobre pobreza consiste em argumentos sobre quem deve ser culpado por ela.

Nada disso significa que o mundo natural seja isento de malevolência. Ao contrário, a evolução garante que ela exista em abundância. A seleção natural consiste na competição entre genes a serem representados na próxima geração, e os organismos que vemos hoje são descendentes daqueles que suplantaram seus rivais em competições por parceiros reprodutivos, alimento e dominância. Isso não quer dizer que todos os seres sejam sempre rapinantes; a teoria evolucionária moderna explica como genes egoístas podem originar organismos altruístas. No entanto, a generosidade é limitada. Ao contrário das células de um corpo ou dos indivíduos de um organismo colonial, cada ser humano é geneticamente único; cada indivíduo acumulou e recombinou um conjunto diferente de mutações que surgiram em sua linhagem ao longo de gerações de replicação sujeita à entropia. A individualidade genética nos dá gostos e necessidades diferentes, além de preparar o terreno para disputas. Famílias, casais, amigos, aliados e sociedades fervilham com conflitos parciais de interesse, que se manifestam em tensão, discussões e, às vezes, violência. Outra implicação da lei da entropia é que um sistema complexo como um organismo pode ser facilmente incapacitado, pois seu funcionamento depende de que inúmeras condições improváveis sejam satisfeitas ao mesmo tempo. Uma pedrada na cabeça, mãos em volta da garganta, uma flecha bem localizada, e a competição é neutralizada. Ainda mais tentador para um organismo usuário de linguagem: uma ameaça de violência pode servir para coagir um rival, abrindo a porta para a opressão e a exploração.

A evolução nos deixou outro fardo: nossas faculdades cognitivas, emocionais e morais são adaptadas a sobrevivência e reprodução do indivíduo em um ambiente arcaico, e não à prosperidade universal em um ambiente moderno. Para avaliar esse fardo, não precisamos acreditar que somos homens das cavernas extemporâneos; basta saber que a evolução, com seu limite de velocidade medido em gerações, não foi capaz de adaptar nosso cérebro à tecnologia e às instituições modernas. Os humanos atuais dependem de faculdades cognitivas que funcionavam bem em sociedades tradicionais, mas que agora percebemos estar infestadas de falhas.

Por natureza, as pessoas não nascem sabendo ler e calcular; quantificam o mundo com base em “um, dois, muitos” e estimativas aproximadas. Imaginam que as coisas físicas possuem essências ocultas que obedecem a leis de relações mágicas ou voduístas, e não a leis da física ou biologia: objetos podem exercer influência através do tempo e do espaço sobre coisas que se assemelham a eles ou que estiveram em contato com eles no passado (lembre-se das crenças dos ingleses em tempos pré-Revolução Científica). Pensam que palavras e pensamentos sob a forma de orações e maldições podem interferir no mundo físico. Subestimam a prevalência da coincidência. Generalizam com base em amostras insignificantes, isto é, na sua experiência pessoal, e raciocinam com base em estereótipos, projetando as características típicas de um grupo sobre qualquer indivíduo pertencente a ele. Inferem causas com base em correlações. Raciocinam de maneira holística, em preto e branco, e física, tratando redes abstratas como matéria concreta. Não são cientistas intuitivos, mas são advogados e políticos intuitivos, pois coligem evidências que confirmam suas convicções e descartam evidências que as contradizem. Superestimam seu próprio conhecimento, sua idoneidade, competência e sorte.

O senso moral humano também pode atuar em detrimento do nosso bem-estar. As pessoas demonizam quem discorda delas, atribuindo diferenças de opinião a estupidez e desonestidade. Para cada infortúnio, procuram um bode expiatório. Veem a moralidade como uma fonte de justificativas para condenar rivais e mobilizar indignação contra eles. A justificativa para condenação pode ser o fato de o réu ter prejudicado alguém, mas também o fato de ter desobedecido aos costumes, questionado a autoridade, solapado a solidariedade tribal ou participado de práticas sexuais ou alimentícias impuras. As pessoas veem a violência como moral, não imoral: em todo o mundo e ao longo de toda a história, mais pessoas foram assassinadas para aplicar justiça do que para satisfazer à cobiça.

Mas não somos de todo ruins. A cognição humana vem com duas características que lhe dão os meios para transcender suas limitações. A primeira é a abstração. As pessoas podem, por associação, usar seu conceito de um objeto em dado lugar para conceituar uma entidade em uma circunstância — por exemplo, quando aplicamos o padrão de “O cavalo foi do lago ao topo da montanha” a “O menino foi da euforia à tristeza”. Podem usar por associação o conceito de um agente exercendo força física para conceituar outros tipos de causalidade — por exemplo, quando estendemos a imagem em “Ela forçou sua passagem na multidão” para “Ela forçou sua irmã a ir junto” ou “Ela se forçou a sorrir”. Essas fórmulas dão às pessoas um meio de pensar sobre uma variável com um valor e sobre uma causa e seu efeito — exatamente o mecanismo conceitual de que precisamos para estruturar teorias e leis. Podemos fazer isso não apenas com os elementos do pensamento, mas também com associações mais complexas, permitindo pensar com base em metáforas e analogias: o calor é um fluido, uma mensagem é um recipiente, uma sociedade é uma família, obrigações são laços.

A segunda escada da cognição é o seu poder combinatório, recursivo. A mente pode contemplar uma variedade explosiva de ideias reunindo conceitos básicos — coisa, lugar, caminho, ator, causa, objetivo — para formar proposições. E pode contemplar não só proposições, mas também proposições sobre proposições, e proposições sobre as proposições sobre as proposições. Corpos contêm humores; a doença é um desequilíbrio nos humores que o corpo contém; não acredito mais na teoria de que a doença é um desequilíbrio nos humores que o corpo contém.

Graças à linguagem, ideias não são apenas abstraídas e combinadas na cabeça de um único pensador, mas também podem ser compartilhadas em uma comunidade de pensadores. Thomas Jefferson explicou o poder da linguagem com a ajuda de uma analogia: “Aquele que recebe uma ideia de mim recebe a instrução para si sem diminuir a minha, assim como aquele que acende sua vela na minha recebe a luz sem me deixar na escuridão”. A potência da linguagem como um aplicativo de compartilhamento original foi multiplicada pela invenção da escrita (e novamente, em épocas posteriores, pela prensa tipográfica, pela disseminação da alfabetização e pela mídia eletrônica). As redes de pensadores que se comunicam expandiram-se com o tempo, conforme as populações cresceram, misturaram-se e se concentraram em cidades. E a disponibilidade de energia além do mínimo necessário à sobrevivência deu a mais pessoas o luxo de pensar e conversar.

Quando comunidades grandes e conectadas ganham forma, podem conceber modos de organizar seus assuntos que favoreçam o benefício mútuo de seus membros. Embora todos queiram estar certos, assim que as pessoas começam a expor suas ideias incompatíveis torna-se claro que não é possível todos estarem certos a respeito de tudo. Além disso, o desejo de estar certo colide com um segundo, o de conhecer a verdade, que é supremo na mente de quem observa uma discussão sem interesse pessoal na vitória de nenhum dos lados. Assim, comunidades podem elaborar regras que permitam o surgimento de crenças verdadeiras a partir das turbulências da discussão, por exemplo: você tem de expor razões para suas crenças, tem permissão para apontar falhas nas crenças dos outros, mas não pode calar à força as pessoas que discordam de você. Adicione a regra de que deve ser permitido que o mundo lhe mostre se as suas crenças são verdadeiras ou falsas, e podemos chamar essas regras de ciência. Com as regras certas, uma comunidade de pensadores não totalmente racionais pode cultivar pensamentos racionais.

A sabedoria da multidão também pode elevar nossos sentimentos morais. Quando um círculo de pessoas suficientemente grande delibera sobre o melhor modo de tratar umas às outras, a conversa tende a seguir certas direções. Se a minha proposta inicial for “Eu posso roubar, espancar e matar você e a sua família, mas você não pode roubar, espancar, escravizar ou matar a mim ou à minha família”, não há como eu esperar que você concorde com o trato, nem que terceiros o ratifiquem, pois não há como justificar tais privilégios só porque eu sou eu e você não é. Provavelmente também não concordaremos com o trato “Posso roubar, espancar, escravizar e matar você e sua família, e você pode roubar, espancar, escravizar e matar a mim e à minha família”, apesar da simetria, pois as vantagens que cada um de nós poderia obter prejudicando o outro são em muito superadas pelas desvantagens que sofreríamos por ser prejudicados (mais uma implicação da lei da entropia: prejudicar é mais fácil e pode ter efeitos maiores que beneficiar). Seria mais sábio implementarmos um contrato social que nos deixasse em um jogo de soma positiva: nenhum dos dois pode prejudicar o outro, e somos ambos incentivados a promover a ajuda mútua.

Assim, apesar de todas as deficiências na natureza humana, ela contém as sementes de seu próprio aperfeiçoamento, contanto que proponha normas e instituições que canalizem interesses particulares para benefícios universais. Entre essas normas estão a liberdade de expressão, a não violência, a cooperação, o cosmopolitismo, os direitos humanos e o reconhecimento da falibilidade humana; entre as instituições estão a ciência, a educação, os meios de comunicação, o governo democrático, as organizações internacionais e os mercados. Não por coincidência, esses foram os principais frutos do Iluminismo.

O que publicamos do livro O novo Iluminismo, de Steven Pinker:

Prefácio e Introdução

Capítulo 1- Ouse entender!

Capítulo 2- Entro, Evo, Info – Entropia, Evolução, Informação, por Steven Pinker

Capítulo 3- ContraIluminismos

Capítulo 4- Progressofobia

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