A Suécia é um condomínio de luxo excludente

Há algum tempo atrás, escrevi o texto “O Estado de Bem-Estar Social deixa miseráveis ainda mais pobres, famintos e desesperados“, onde defendi que o Estado de Bem-Estar Social generoso (como o de países europeus) é apenas a versão em larga escala de um condomínio de luxo, servindo assim aos interesses de poucos, e deixando as pessoas mais pobres do mundo ainda mais pobres, por não se admitir a livre imigração.

Algumas pessoas acharam o título muito sensacionalista. Bem, ele correspondia rigorosamente à verdade conforme a argumentação que apresentei acerca da injustiça dos impedimentos à imigração para as pessoas mais pobres do mundo. Contudo, mais ainda pode ser dito, mais especificamente sobre aquele país que já foi considerado como “a sociedade mais bem-sucedida que o mundo já conheceu”: a Suécia.

Vi no site do C4SS (Center for a Stateless Society – Centro por uma Sociedade sem Estado), que eles tem um correspondente na Suécia. Seu nome é David Grobgeld, e, felizmente para nós, a política editorial do C4SS determina que os textos publicados em sueco sejam traduzidos para o inglês.

Seus editoriais mostram um outro lado da Suécia, não muito bonito por sinal.

No editorial “Swedish Police, Racism And Resistance” (“Polícia Sueca, Racismo e Resistência”), Grobgeld denuncia que, apesar da mídia internacional apresentar a Suécia como um bastião da tolerância e do pluralismo, a vida real de pessoas marginalizadas nesse país está em gritante contraste com isso. Tais pessoas enfrentam um Estado cada vez mais repressivo.

Por exemplo, existe uma operação policial de controle de imigração em curso que utiliza policiais disfarçados para verificar a identidade de pessoas que eles acreditam que possam estar “ilegalmente” na Suécia. A principal fonte de suspeita desse “pode” é a etnia, o que tem restringido severamente a liberdade de circulação das pessoas de cor em Estocolmo (capital da Suécia).

Contudo, Grobgeld rapidamente acrescenta que a verificação de identidades nos metrôs de Estocolmo é apenas uma faceta dessa “guerra aos migrantes sem documentos”. Essa política está se processando em todo país, com o crescimento das deportações. Há denúncias de policiais vigiando consultórios de psicologia, para descobrir imigrantes ilegais, com efeito intimidador até sobre crianças que estavam tratando-se de estresse pós-traumático. Veio à público a existência de uma lista com os nomes de 4.029 romenos (cerca de mil crianças), que a polícia insiste em afirmar que se tratam de pessoas envolvidas em atividades criminosas ou com criminosos, mas há evidências de que isso não é verdade, e que o único denominador comum entre as pessoas da lista é ser um romeno ou estar casado com um romeno.

Ele cita o filósofo Karim Jebari, que, apoiado em pesquisa empírica, afirma que, para as pessoas marginalizadas na Suécia – os pobres, os sem-teto, as pessoas de cor, os usuários de drogas ilícitas, os doentes mentais, – a Suécia é um Estado policial, porque tais pessoas não tem de fato seus direitos em encontros com a polícia.

Aqui é preciso abrir um parênteses, porque Grobgeld está pressupondo que seu leitor conheça também a política de drogas sueca. Para quem não sabe, a política de drogas da Suécia é de tolerância zero, muito restritiva e alinhada àquela dos Estados Unidos, autorizando que a polícia efetue testes obrigatórios de urina e de sangue, e criminalizando a posse e o consumo. A Suécia, internacionalmente, foi e é um importante apoiador da guerra às drogas – política desastrosa que tem arruinado muitas vidas ao redor de todo o globo – , sendo que a agência da ONU ligada às convenções sobre narcóticos já fez um informe elogiando a política sueca de drogas (a mesma agência que criticou a descriminalização no Uruguai, e no estado do Colorado, EUA, a propósito).

Grobgeld continua destacando que a polícia quebra as leis do próprio Estado ao fazer esse “policiamento com base na etnia”, infrações cujas provas costumam desaparecer quando a polícia é convocada a investigar a si própria. A polícia enfrenta, uma vez ou outra, acusações de racismo, brutalidade e má conduta, mas não há muito que esteja sendo feito para enfrentar o racismo e autoritarismo estruturais à polícia sueca.

Como anarquista, ele convoca outros suecos a não esperar que o devido processo legal e as eleições democráticas sejam os principais ou únicos instrumentos para combater o autoritarismo, o abuso de poder, as deportações, a violência institucionalizada e o racismo, mas sim partir para alternativas não estatistas, envolvendo a disseminação de uma cultura onde comunidades tomam a segurança e a solidariedade para as suas próprias mãos, ao invés de depender do Estado, e onde as pessoas não encarem o voto como sua responsabilidade central enquanto cidadãos.

Grobgeld encontra esperança apenas nas atitudes descentralizadas de pessoas comuns e de organizações da sociedade civil sueca, que já estão atuando no sentido de criticar, denunciar e proteger uns aos outros dos abusos da polícia, inclusive atualizando no facebook e no twitter o paradeiro da polícia e fornecendo aos imigrantes sem documentos habitação e subsistência, escondendo-os da polícia e trazendo suas histórias à tona.

Já no texto “Stop The Evictions Of Migrant Settlements Now” (“Parem os desalojamentos de assentamentos de imigrantes agora”), ele fala sobre a situação dos migrantes romenos, em especial ciganos, na Suécia. Na Romênia, os ciganos vivem em guetos marcados pela miséria e pelo crime, e alguns deles tentam ir para a Suécia para sobreviver a partir da medicância. Isso mostra a situação extrema de miséria enfrentada por esses romenos, mas de fato o dinheiro que conseguem economizar a partir disso pode significar a diferença entre a vida e a morte quando voltam para a Romênia.

Ele denuncia o caso em que um grupo de ciganos fez um assentamento em uma terra não ocupada de um subúrbio de Estocolmo, apenas para serem expulsos pela polícia e terem seu assentamento destruído. Com a ajuda de ativistas locais, fizeram outro assentamento em um terreno baldio, mas uma ordem de despejo – em sueco e com menos de 2 dias de antecedência – foi emitida pelo Estado sueco. A terra é reivindicada pelo Município – apesar do Município não fazer nada nela e nem ter planos de fazer isso. O “crime” dos imigrantes foi ter pacificamente construído suas casas em um terreno que não era usado para nada, mas que podia fazer diferença para eles.

Mas claro, sempre há a justificação “social” para isso: os funcionários estatais alegavam que viver nessas casas é “indigno”, o que Grobgeld entende que faz tanto sentido quanto quebrar as muletas de alguém porque é “indigno” que eles precisem delas para andar. A verdadeira causa, ele nos diz, é que os políticos e a classe média branca não querem os ciganos pobres em seu país. Representantes do município chegaram inclusive a oferecer bilhetes para que os ciganos retornassem à Romênia. Mensagem clara: se você estiver em risco de morrer de fome, que morra nos guetos da Romênia.

Ativistas protestaram e fizeram uma barreira humana para evitar o despejo, e inclusive Grobgeld estava entre eles. Contudo, ele nos conta que eles foram tirados todos dali, e levados em um ônibus para longe do local do desalojamento dos imigrantes, a maioria sendo considerada suspeita de “desobediência à imposição da lei”.

Você já deve imaginar o desfecho: as casas foram todas derrubadas. Aparentemente, metade dos migrantes voltaram à Romênia, alguns receberam lugares temporários para dormir, arranjados por ativistas. As perspectivas de futuro dessas pessoas, seja onde estiverem na Europa, não é muito animadora. Grobgeld entende que não é fácil pensar em soluções para a extrema pobreza no curto prazo, mas, para ele, é claro como o sol que expulsões e demolições insensíveis de suas moradias, pela mão do Estado, vai tornar tudo muito pior.

Sim, o condomínio de luxo excludente é culpado por deixar miseráveis ainda mais pobres, famintos e desesperados.

Publicado originalmente aqui.

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