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setembro 30, 2020

O mito do baixo gasto social dos EUA

Os americanos utilizam aproximadamente 19% do PIB com gastos sociais públicos, um pouco menos que a média da OCDE, de 20%, mas acima de países como Austrália, Canadá, Israel, Suíça, Islândia, Irlanda e Coreia do Sul. Somados os gastos sociais públicos e privados temos 30% do PIB, uma porcentagem que só perde para a França. Acontece que os EUA também têm a quinta renda per capita mais alta do bloco. Apesar do custo de vida do país europeu ser mais alto, a renda per capita francesa é 30% menor que a americana, uma diferença maior que toda a renda média do Brasil. Também é interessante lembrar que os EUA têm os impostos mais progressivos da OCDE.

Por que então boa parte da esquerda aqui e lá repete esse mito de que nos EUA não há serviços sociais, que o capitalismo falhou e que tributar mais os mais ricos vai resolver todos os problemas? Além de não olhar os dados, um dos motivos é que a maior parte da esquerda aparentemente ainda não aprendeu que não adianta gastar mais: é necessário gastar bem.

Não apenas os programas não são bem aplicados, a focalização dos gastos não é boa. O governo americano o é campeão de gastos com serviços sociais na OCDE, mas gasta bem menos com programas de transferência de renda. Esses gastos estão particularmente concentrados na saúde, área em que eles são o segundo país que mais gasta em relação ao PIB, depois da França, e disparadamente os que mais gastam per capita. Ao optar por despender 10% do seu PIB com saúde pública, o governo americano opta automaticamente por gastar apenas 0,2% com proteção aos desempregados, pois uma área “puxa” os recursos da outra, da mesma forma que os crescentes gastos da previdência tiram recursos da saúde e educação no Brasil.

Falando em previdência, nesse ponto eles estão na média do bloco, com 7%, o que também não é muito bom e vai exigir ajustes no futuro, mas ainda é pouco em relação ao Brasil, que gasta quase 20% com uma população mais jovem (o campeão da OCDE é a Grécia, com 14%). Olhando unicamente para os gastos, lembra o nosso modelo mesmo: um país que gasta muito, mas gasta mal — com a diferença que eles têm dinheiro para torrar e a gente não.

Liberais, ou a menos a maioria deles, não são contra gastos sociais em todas as ocasiões, mas simplesmente dizem que gastar mais ou taxar os ricos não vai resolver os problemas da forma que muitos pensam, ainda que tais medidas possam ser discutidas. É necessário um controle rigoroso dos recursos, não apenas sobre a finalidade (saúde, educação, etc), mas também ao destino (isto é, se eles estão chegando em programas eficientes ou não). E para avaliarmos se o programa é ou não eficiente só existe uma forma. Sim, aquilo que falamos desde o dia 1: precisamos nos basear nas evidências.

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