A esquerda tem o dever de enfiar Lênin na lata de lixo

“Os Bolcheviques, sob a liderança de Lênin (…), conseguiram capturar o controle das forças armadas (…) e, assim, criaram as bases para uma nova ditadura no lugar da antiga ditadura czarista”.
– Karl Kautsky

“A Revolução proletária não precisa de nenhum terror”.
Rosa Luxemburgo

“De todas as tiranias da história, a bolchevique é a pior, a mais destrutiva e a mais degradante”.
– Winston Churchill

Imagine um grupo de direitistas que diga que o grande problema era Hitler, e que Mussolini é aproveitável. Nas esquerdas estes são os que dizem que Lênin começou bem e o grande demônio foi Stálin. Considerando todas as comemorações que vemos nas redes sociais quando é o aniversário de Lênin, este grupo é mais numeroso do que imaginávamos.

Em fevereiro de 1917, quando a monarquia caiu, Lênin, que estava exilado, não era a alternativa. Liberais e conservadores e mesmo boa parte da esquerda lutavam por um governo constitucional. Dentre estes, podemos mencionar o liberal Georgy Lvov, que assumiu o cargo de primeiro-ministro do Governo Provisório com a queda do czar. Infelizmente, Lvov não obteve apoio suficiente mesmo dentro de seu gabinete, que impediu a saída da Rússia da Primeira Guerra Mundial. Poucos meses depois, Lvov se vê obrigado a renunciar. Em seu lugar, entra Alexander Kerensky. Apesar de membro do Partido Socialista Revolucionário, Kerensky tinha um compromisso sério com a democracia, mas sofria com a mesma falta de apoio do antecessor. Apesar de curto, o governo provisório conseguiu avanços importantes, mas em outubro, sem apoio praticamente nenhum, os Bolcheviques foram bem-sucedidos em seu golpe.

A destruição do que havia de democracia na Rússia naquele momento foi tão rápida quanto sua construção. A Revolução de 1905 havia garantido alguma liberdade de expressão que permitia que o Pravda, jornal comunista fundando por Lênin, mantivesse-se aberto desde 1912. Dois dias após assumir o poder, Lênin baixou um decreto acabando com a liberdade de expressão; posteriormente, o ditador fundou uma Polícia das Ideias similar à do romance 1984, de George Orwell, a Direção-Geral de Assuntos Literários e Editoriais (Glavit), censurando produções literárias e jornalísticas, bem como o rádio e a TV posteriormente. A derrota acachapante dos Bolcheviques na eleição da Assembleia Nacional Constituinte de pouco adiantou, pois o Sovnarkom em seu modo Kafkaniano compensou sua falta de votos com força e ordenou o fechamento da Assembleia.

Outras eleições eram anuladas por todo o país. Julgamentos de fachada não eram raros e a pena de morte, que havia sido abolida pelo governo provisório, foi reestabelecida. Minorias nacionais tinham sua língua e sua cultura desrespeitadas. A Família Imperial foi brutalmente executada, após uma farsa que deveria simular sua fuga. Praticamente todos os líderes de outros movimentos, inclusive Kerensky e Lvov, tiveram de fugir e morreram no exílio. Líderes de todas as religiões eram sumariamente executados. O nepotismo foi praticado como poucas vezes na história recente. Submissão aos superiores era a mais importante competência na hora de conseguir um cargo importante.

Até o velho Império Russo, uma autocracia indefensável, possuía desde 1905 uma Constituição, partidos políticos, um primeiro-ministro e uma assembleia representativa nacional. O próprio Partido Operário Social-Democrata Russo, dos Bolcheviques, elegeu cadeiras em todas as eleições legislativas.

A Okhrana, polícia política do czar, cuja abolição havia sido um dos símbolos da Revolução de Fevereiro, fora reformulada com o nome de Cheka. É impossível citar o Terror de Lênin sem falar dela. Enquanto a Okhrana do czar chegou a ter 15 mil membros (maior organização desse tipo do mundo) e realizava em média menos 20 execuções por ano, a Cheka de Lênin, em seu auge, contou com 250 mil membros, e suas operações resultavam numa morte mensal de mil cidadãos russos por motivos políticos. O motivo era subversão? Não necessariamente. Muitas das mortes eram resultado da função que o condenado exercia na sociedade. Aquele que disse estar implantando a igualdade decidira que algumas classes perderam seu direito de existir, não muito diferente do que pensava Hitler dos judeus.

Lênin não prevaleceu por ter mais apoio, mas por ser, assim como Hitler, um político talentoso, que aproveitou a desunião de seus adversários de esquerda e direita para instaurar um regime totalitário. Os Bolcheviques nunca foram populares, especialmente fora das cidades. Sua estratégia é até hoje copiada por ditadores e pode ser resumida em três passos. Primeiro eliminar toda a oposição fora do partido, depois colocar todo o poder dentro do partido e, por fim, eliminar toda a oposição dentro do partido. Evidentemente esses passos eram feitos de forma frequentemente violenta, e não faziam distinção entre direita e esquerda.

É verdade, os Bolcheviques conseguiram encerrar a Guerra para a Rússia, mas a que preço? Quase metade da população entregue à própria sorte para o Império Alemão no Tratado de Brest-Litovski, e em poucos meses o país estaria em outra guerra ainda mais sangrenta, contra o Exército Branco.

A ideia das conquistas sociais também parece absurda. A Revolução Russa não fracassou apenas em fazer todos os cidadãos iguais perante a lei: as castas criadas pelo partido também perpetuavam a desigualdade econômica. Ou, como disse o economista Daron Acemoglu, “igualdade nunca foi parte da equação” da Revolução Russa. Crianças, grávidas e idosos eram submetidos a trabalhos forçados. O direito de greve foi restrito e os sindicatos aparelhados.

A fome, uma tragédia comum num país miserável como a Rússia do período, atingiu um nível totalmente novo com políticas desastrosas em 1921, ceifando cinco milhões de vidas. Para efeito de comparação, a última grande fome no país, em 1892, matou menos de 10% desse número. No mesmo período epidemias de doenças antigas se alastravam pelo país, matando com igual letalidade. Lidando pela primeira vez com um problema que não poderia ser resolvido com força bruta, o governo praticamente não agiu até ser tarde demais, e com a ajuda dos EUA, que forneceram comida diária para 11 milhões de russos, a situação foi mitigada.

Dizer que há pioneirismo na Rússia também é errado. Na Inglaterra, o chamado Sistema de Speenhamland já existia desde o século XVIII, e muito antes dele, as “poor laws” já tentavam aliviar a situação dos miseráveis. Boa parte do seguro social que ainda existe na Europa hoje encontra suas raízes na Alemanha de Bismarck. Pode parecer estranho que a assistência social e o seguro social encontrem raízes tão fortes nos símbolos excelsos respectivamente do laissez-faire e da aristocracia europeia, mas talvez isso seja uma indicação que a ampliação dos serviços do governo está menos relacionada com a luta de classes que com o aumento dos recursos — uma coisa que o comunismo não é lá muito bom.

Tanto a Inglaterra quanto a Alemanha figuravam entre os países mais ricos de sua época, e se não é possível ignorar as pressões populares na hora de falarmos de seguro social, não podemos nos esquecer que sem a geração prévia de riqueza ele não é sustentável. Finalmente, é mister lembrar que o aumento substancial do seguro social ocorreu após a Segunda Guerra Mundial, não após a Revolução Russa. Influência do poder geopolítico que a URSS só adquiriu depois da derrota de Hitler? Talvez, mas mais ainda fruto de uma opinião dominante entre estudiosos do assunto e políticos na época.

Lênin não substituiu um regime autoritário por uma sociedade aberta. Pelo contrário, destruiu uma democracia incipiente, majoritariamente governada pela esquerda por um regime infinitamente pior que o czarismo. Após a revolução, a esquerda continuou sendo tão ou mais perseguida. Seus méritos na construção de direitos sociais são questionáveis e sua gestão econômica só não foi ainda mais catastrófica por suas concessões ao capitalismo. Lênin não estava preocupado com os camponeses ou proletários, mas sim com o poder. Há muita gente melhor para ser admirada, mesmo no período. A defesa pragmática do Apocalipse seguido do Paraíso é absurda, pois nem este veio.

Como vimos, líderes políticos e intelectuais do período já haviam admitido as vantagens de um governo constitucional e mesmo do capitalismo, demolindo a ideia do “Lênin homem do seu tempo”. A teoria de Lênin estava ultrapassada antes de ter sido colocada em prática. Se quiser ser mais coerente, a esquerda deve tratar Lênin e os Bolcheviques com o mesmo desprezo que (a maioria ao menos) da direita trata o fascismo.

Bibliografia:
Lênin, Hitler e Stalin — Robert Gellately
Modern Times Revised — Paul Johnson
História Concisa da Revolução Russa — Richard Pipes
Camaradas: Uma história do comunismo mundial — Robert Service

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