Um argumento político para se combater a desigualdade

Muitos liberais e libertários acham que combater a desigualdade é uma bobagem. Eu mesmo durante muito tempo tive essa opinião. Como economia não é um jogo de soma zero e as pessoas são naturalmente diferentes, a sociedade pode ser muito desigual sem problemas. Aqueles que denunciam o aumento da desigualdade seriam “invejosos”. De fato, do ponto de vista econômico o grande problema é a pobreza. No entanto, há mais que isso.

Uma sociedade mais igual não é apenas mais “justa” no sentido que a maioria da população tem um acesso mais igual aos recursos, é também mais estável. Explico:

Segundo Robert Dahl, sem dúvida um dos maiores cientistas políticos do século XX, quando o custo de repressão é maior que o custo da tolerância, abre-se espaço para a liberdade. Há muito mais chance desse custo ser mais alto quando a sociedade é mais igual.

Muitos dos liberais e libertários consideram os EUA em sua origem como o melhor modelo que já existiu. Por que esse modelo era tão bom? Por que a liberdade era tão respeitada naquele período? Várias são as explicações, mas sem dúvida as várias leis de Homestead durante o século XIX ajudaram.
Milhões de pessoas receberam terras. Isso tornou impossível que apenas uma pessoa ou um grupo se tornasse superpoderoso e assumisse o controle em regiões em que o Estado praticamente não existia. Ninguém era mais forte que ninguém, favorecendo o respeito aos direitos de propriedade, similar aos checks and balances (freios e contrapesos) em um governo atual.

O mesmo ocorreu em Atenas e na República Romana, as duas sociedades mais livres da antiguidade: como o acesso aos recursos era mais igual entre os cidadãos livres, o custo de manter um governo centralizado era maior do que para abrir divergências.

Quer um exemplo hipotético de como a desigualdade de recursos pode levar à desigualdade de poder e tirania? Vamos supor que num grupo de dez pessoas, todas tenham mais ou menos a mesma força e os mesmos recursos. Dificilmente uma delas conseguirá, ao menos no curto prazo, assumir uma situação que a coloque acima das demais, exceto se o resto do grupo assim quiser. Mas agora vamos supor que duas dessas dez tenham uma arma. A ideia de que essas duas se unam e escravizem as outras oito torna-se bem mais plausível agora.

Sem dúvida a grande falha dos modelos liberais e libertários hoje é essa desigualdade de poder. No caso do primeiro, vemos grupos de interesse assumirem o poder e formarem plutocracias, normalmente com a ajuda do Estado. É o corporativismo, o “crony capitalism”, que muitos socialistas confundem com o modelo que defendemos, ou veem como sua consequência. No caso dos libertários, o fato de que alguém se coloca em situação mais favorável e assumir o poder – criando assim, na prática, outro Estado, como, aliás, sempre ocorreu quando o Estado moderno caiu – torna o modelo teoricamente impossível numa sociedade minimamente complexa.

“De cada um conforme escolher, a cada um conforme for escolhido”, como postulou Robert Nozick em Anarquia, Estado e Utopia pode talvez gerar uma sociedade mais correta, mas como o americano se pergunta no mesmo livro, não é melhor aceitar uma violação A que minimizará a violação B, muito mais severa? As vezes precisamos ser pragmáticos.

Não estou aqui, obviamente defendendo igualdade total. Não vou nem sequer arriscar dizer como podemos buscar essa igualdade. Meu ponto aqui é apenas demonstrar porque devemos buscar uma sociedade mais igual ainda que economicamente devemos privilegiar o combate à pobreza.

Em resumo: uma elite muito mais poderosa que o resto da população pode escravizar esse resto, gerando os mesmos problemas de coerção estatal que muitos, com razão, criticam. Alternativas que permitam aos mais pobres ao menos básico capaz de diluir o poder dos primeiros é necessário para se alcançar a liberdade.

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