Os novos-desenvolvimentistas querem que os pobres transfiram renda para os ricos

Resumo da proposta novo-desenvolvimentista: Transferir um pedaço da massa salarial na forma de lucros para o setor manufatureiro exportador via desvalorização cambial. Esse lucro maior então aumentaria os investimentos nesses setores, supostamente mais dinâmicos, acelerando o ritmo de crescimento da produtividade e dos salários. Ou seja: Comer um pedaço do bolo hoje pro bolo crescer mais rápido amanhã.

Agora o momento de rir: O pessoal que vulgarmente defende isso na internet costuma chamar a nós, neoliberais, de defensores do “lucro do patronato”.

Existe algum problema grave em querer isso para o país? Não necessariamente. É o conhecido modelo asiático de desenvolvimento. Você têm o direito de pensar assim, por mais que a gente não concorde. O único fato estranho é que estas pessoas costumem se considerar de esquerda. No Brasil, aliás, social-democratas como o FHC, que expandem o gasto social, são considerados “de direita” por diminuir o papel do Estado na economia, enquanto que desenvolvimentistas deste tipo estão alinhados com a esquerda. Ao que parece, basta defender algum tipo de intervenção firme do estado na economia para ser amado pela esquerda brasileira, até mesmo quando esta intervenção parece um Robin Hood as avessas.

Segundo eles próprios:

“Para os expoentes do modelo novo-desenvolvimentista a retomada do crescimento da economia brasileira envolve uma desvalorização da taxa real de câmbio suficiente para tornar nossas empresas produtoras de manufaturados competitivas em relação a seus concorrentes externos, a qual induziria um processo de sofisticação produtiva, viabilizado por um aumento significativo da taxa de investimento. Isso porque uma taxa de câmbio ao nível do assim chamado equilíbrio industrial — ou seja, o patamar da taxa de câmbio que permite que as empresas domésticas que operam com tecnologia no estado da arte sejam competitivas no mercado internacional, portanto que possibilite equiparar os custos médios praticados pelas empresas domésticas aos de seus competidores — não só aumentaria as margens de lucro das empresas que operam no setor produtor de bens comercializáveis (permitindo assim um aumento da capacidade de autofinanciamento do investimento dessas empresas), como ainda induziria um processo de substituição de importações por produção doméstica, permitindo assim que as indústrias brasileiras reconquistassem o acesso à demanda doméstica, perdido nos últimos anos. Diferentemente das empresas que produzem bens primários e possuem uma margem de lucro maior, por usufruírem de vantagens comparativas em sua produção e, no passado recente, de preços mais elevados no mercado internacional, as empresas produtoras de manufaturados se defrontam com um quadro distinto — margens de lucro mais estreitas, e, portanto, são mais afetadas pelas oscilações cambiais, fazendo com que a administração da taxa de câmbio seja importante para a estabilidade de suas margens.”

“Como viabilizar um aumento dessa magnitude da poupança doméstica? Em primeiro lugar, a própria desvalorização da taxa de câmbio irá se encarregar de fazer a substituição da poupança externa pela poupança doméstica (BRESSER-PEREIRA, OREIRO e MARCONI, 2016). Isso porque a desvalorização da taxa real de câmbio dá ensejo a uma mudança nos preços relativos e no poder aquisitivo da população em geral, que afetará tanto lucros como salários em um primeiro momento. Os beneficiados serão as empresas exportadoras e setores que sofriam, antes da desvalorização, forte concorrência devido à anterior valorização da moeda. Essas empresas aumentarão seus lucros (mesmo aquelas que poderão vir a ser prejudicadas em um primeiro momento) e, como a propensão a poupar a partir dos lucros tende a ser maior do que a propensão a poupar a partir dos salários (KALDOR,1966), segue-se que a poupança doméstica tende a aumentar em função da desvalorização do câmbio real e a poupança externa cairá, pois o país, ao elevar seu saldo em transações correntes, diminui a necessidade de poupança externa para se financiar.”

Trecho de um livro do Oreiro e Marconi.

E quem defende o lucro do patrão somos nós, bebê?

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