A São Paulo que eu sonho: pobres e ricos morando no mesmo arranha-céu no Jardim Europa

São Paulo não vive apenas um déficit fiscal e habitacional, mas também um déficit de sonhos. Os problemas rotineiros e a nossa desigualdade cavalar impedem a maioria dos paulistanos de sonhar, porém é possível fazer uma cidade melhor, mas para isso, precisamos romper com os erros que nos trouxeram até aqui.

Provavelmente você já deve ter escutado, ou até mesmo dito, que os problemas de São Paulo são frutos de falta de planejamento. Na realidade, nossos problemas são frutos de uma cidade que tentou se planejar demais.

Desde a década de sessenta adotamos uma série de regulações para construir uma cidade perfeita: limitamos a construção dos prédios, colocamos zoneamento rígidos nos bairros e o resultado disso foi péssimo.

Na prática, essas regras impediram que construíssemos moradia nas regiões centrais da cidade. Esta menor oferta fez com que os preços subissem e os mais pobres fossem expulsos das melhores regiões, tendo que recorrer às favelas e moradias irregulares. 

A cidade compacta representada pelo Copan, prédio que abriga cinco mil pessoas de diversas classes sociais no coração de São Paulo, se tornou proibida e deu origem a uma metrópole espraiada que segrega os vulneráveis.

Para efeito de comparação, uma quadra em Manhattan ou em Paris abriga o dobro de pessoas do que uma quadra no centro expandido de São Paulo. Afinal, construímos uma bela cidade, mas para poucos.

Os problemas disso se tornam evidentes, as pessoas morando longe do trabalho tem que passar ­horas no trânsito, aumentando a poluição e reduzindo o bem-estar. Ambientalmente vivemos um desastre, como não podemos crescer para cima, a cidade se espalha para os lados destruindo nossas regiões de preservação.

Basta olhar os mananciais da Zona Sul que estão sendo destruídos por condomínios irregulares feitos pelo crime organizado. A real é que impedimos o setor privado de construir moradia digna, mas a liberamos para organizações criminosas.

Porém, é possível construir uma saída de longo-prazo para esses problemas. Primeiro precisamos de um choque de capitalismo em São Paulo, retirando as regras que impedem ao setor privado construir moradia barata em grandes quantidades.

Ao mesmo tempo que precisamos de um choque de solidariedade, fazendo uma boa regulação que incentive a construção de habitação social nas melhores regiões da cidade e as evidências científicas vão nessa direção.

O economista Ciro Biderman mostra em um artigo acadêmico que cidades que adotaram política de zoneamento e “preservação de bairros” tiveram um aumento de até 50% de moradias informais.  

São Paulo é uma caricatura disso. Se na década de sessenta – sem excesso de regulação – 1% da população vivia irregularmente, hoje este número chega a 20%, deixando claro que erramos em planejarmos demais a cidade.

No outro ponto, nossa política de moradia social também foi um desastre. Construímos moradia longe do centro e condenamos os mais pobres a favelas verticais, basta ver a Cidade Tiradentes.

Enquanto isso, a evidência empírica mostra que programas de moradia social que transferem vulneráveis para regiões centrais e ricas acabam gerando um aumento de 30% na renda dos filhos menores de doze anos para o resto da vida.

Porém, este modelo de cidade que eu defendo sofre muita resistência, pois a ignorância se junta ao egoísmo. Grupos intelectuais resistem a ideia e abrem espaço para os grupos de interesse agirem.

O Jardim Europa é um exemplo claro disso: uma parcela da população que se organiza politicamente para impedir que mais moradia seja construída no centro da cidade. O clássico NIMBY, expressão americana para “não no meu quintal”.

Precisamos romper com as ideias atrasadas e com o egoísmo, liberar potencial construtivo e sermos solidários na habitação social. Não é brincadeira que eu sonho com pobres e ricos morando no mesmo arranha-céu no Jardim Europa, pois é o único caminho de termos uma cidade mais próspera e inclusiva.

Autor: Matheus Hector

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