Resgatando Mises dos libertários

Apesar do título, o principal objetivo aqui não é defender Mises, mas sim demonstrar como alguns libertários estão errados achando que ele está num meio termo entre ancapismo e liberalismo (quando não pensam que ele está mais perto do lado de lá que do de cá mesmo). Alguns, mais delirantes, dizem que ele “seria libertário se tivesse vivido mais ou tivesse conhecido a ética Hoppeana” ou algo assim. Poucos são os criadores de conteúdo influentes e que pensam isso, pois a maioria ao menos leu os autores e sabe que isso é mentira. Fernando Chiocca, conhecido por ter fundado blog “Rothbard Brasil” é um deles, afirmando que Mises era um “quasi-anarquista”. Kinsella ensaiou uma merda assim e voltou atrás.

O primeiro ponto que devemos ter em conta é, exceto por sua encrencada epistemologia, Mises não se aprofundou em muitas áreas fora da economia. Não há, com a exceção parcial de “Liberalismo”, livro curto escrito ainda no início de sua carreira, uma tentativa ampla de analisar os aspectos legais das instituições, ainda que insights sobre o assunto existam. Nesse sentido, tanto Hayek com “Constitution of Liberty” e “Law, Legislation, and Liberty”, como Rothbard e “A Ética da Liberdade” e “O Manifesto Libertário”, são intelectuais mais “completos” que ele.

Falando em Rothbard, em um dos raros momentos de crítica ao seu mentor, ele mesmo admite que Mises foi “o mais rigoroso e descompromissado defensor da economia livre de juízo de valor e adversário de qualquer tipo de ética objetiva”, justamente num capítulo em que Rothbard analisa teorias liberais concorrentes às sua. A conclusão de Rothbard é que Mises “fracassa totalmente”.

Ao contrário do que alguns parecem pensar, as bases econômicas e éticas do “austrolibertarianismo” já existiam desde o século XIX, e é pouco provável que Mises não as conhecesse e não as tivesse rejeitado, como disse ninguém menos que Robert Higgs.

Mesmo na hipótese improvável de Mises não tê-los lido, ele conhecidamente leu e rejeitou a investigação Rothbardiana naquele que é inquestionavelmente o maior livro sobre o assunto: “Man, Economy and State”. Pode-se argumentar que a opinião geral de Mises sobre o livro é positiva, e que não sabemos se ele leu “Power and Market”, parte mais radical do livro que só foi laçada oito anos depois, mas sabemos que ele conhecia o que estava sendo defendido e não gostou nada.

Sua biografia, “Mises, The Last Knight of Liberalism” (atenção para o nome), apesar de escrita por um anarcocapitalista, Guido Hülsmann, também narra a decepção de Mises com Rothbard lamentando como “uma mente brilhante estaria arruinada” e que “nenhuma mente racional já defendeu a oferta de segurança”. No entanto, o economista também nos dá uma boa ideia de porque há tantos libertários: “o endeusamento do estado”.

O principal argumento dos austrolibertários para achar que Mises era “um dos seus” ou “quase um dos seus” vem de “Nation, State, and Economy”, de 1919, em que ele defende a tal secessão individual. Não li o livro, mas é fato que essa ideia contradiz quase todas as obras posteriores do jovem Mises. No já citado “Liberalismo”, Mises volta brevemente ao ponto:

“Se, de algum modo, fosse possível conceder esse direito de autodeterminação a toda pessoa individualmente, assim teria sido. Isto só é impraticável devido a implicações obrigatórias de ordem técnica, que tornam necessário que uma região seja governada como uma unidade administrativa e que o direito de autodeterminação se restrinja à vontade da maioria dos habitantes de áreas de tamanho suficiente, para conformar unidades territoriais na administração de um país.”

Mises aqui está sendo pragmático: ele admite que isso seria o ideal, mas afirma que é impossível. É uma “refutação” de algo bem mais brando do que a defesa ao anarquismo de mercado de Rothbard.

Até onde sei, em sua fase mais produtiva o austríaco não voltou ao tema, nem em sua obra principal, “Ação Humana”, que compreende quase todas as suas principais ideias. Algumas fariam boa parte dos “austrolibertários” arrepiarem: há defesa desde a regulação por segurança dos empregados em fábricas (Mises provavelmente discordaria da ideia que a justiça não deve ter caráter preventivo), afirmações que apenas com o Estado e impostos há liberdade e uma defesa ao alistamento militar obrigatório (o que deixa até nós, liberais, de cabelo em pé). Para Rothbard, isso é suficiente para não classificar alguém como liberal. Ele fez isso com Percy Greaves, a quem a esposa demonstrou brilhantemente que Mises não era anarquista.

Com isso, fica muito difícil não concluir que Mises era um liberal “completo” no sentido de ser um defensor da liberdade individual e econômica. Também é difícil concluir que ele não foi nem de perto o liberal que defendeu o menor Estado, mesmo entre seu contemporâneos (Rand e Nozick me vêm à cabeça, por exemplo). Um instituto “Mises” que diz ser guardião de suas ideias tem obviamente o direto de discordar onde acha que ele errou, mas fazer uma inversão total é sujar o nome dele. Você pode dizer “gosto de Mises pelo que acho que ele acertou e critico pelo que acho que ele errou”, mas nunca considerá-lo como um de vocês. Tenha em mente, também, que ele os considera o que vocês realmente são: adversários do capitalismo e da liberdade tanto quanto qualquer comunista.

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