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setembro 27, 2020

Perdedores da globalização por uma ótica microeconômica

Uma teoria neoclássica de comércio exterior relativamente bem aceita atualmente é o modelo de equilíbrio geral Heckscher-Ohlin. Este modelo faz algumas previsões sobre a especialização dos países no comércio internacional. Ele prevê, por exemplo, que países relativamente mais abundantes em determinado fator irão se especializar em prover bens e serviços intensivos neste fator. Países relativamente abundantes em mão-de-obra irão se especializar em prover bens intensivos de mão-de-obra, como é o caso da manufatura de baixa complexidade. Países relativamente abundantes em recursos naturais irão se especializar em prover bens e serviços intensivos em recursos naturais, como é o caso das commodities. Países abundantes em capital irão se especializar em prover bens e serviços intensivos em capital, como é o caso da alta tecnologia, produtos industriais sofisticados e afim. O mais legal é que o modelo também prevê que no final das contas todo mundo sai ganhando. São as clássicas vantagens comparativas, mas previstas dentro de moldes modernos.

No pós-guerra, os países ricos aproveitaram muito as vantagens da especialização entre si: Foi o período de ouro do comércio “norte-norte”. Acontece que a globalização colocou, a partir dos anos 80, bilhões de chineses, indianos, indonésios, filipinos, tailandeses, vietnamitas, etc, nessa brincadeira. A entrada dessa galera no comércio global simplesmente bagunçou as vantagens comparativas antes observadas. Países ricos que até então eram relativamente abundantes em mão-de-obra deixaram de ser; os quais passaram a perder mercado na manufatura para os países de terceiro mundo.

Quem se beneficiou disso? Todo mundo. Bilhões saíram da pobreza nos países pobres, produtos mais baratos inundaram os mercados dos países ricos. A renda de todo mundo aumentou (especialmente a dos países pobres). Bem, de quase todo mundo. Os trabalhadores menos especializados dos países ricos, os quais enfrentam a concorrência estrangeira diretamente, acabaram tendo sua renda estagnada. E se depender do livre comércio, esse é um caminho sem volta: Desde que as nações pobres e populosas do leste e sudeste asiático passaram a jogar o jogo do comércio global, os países ricos deixaram de ser relativamente abundantes em mão-de-obra. A concorrência fatalmente vai continuar forçando a especialização, e isso tem um custo de transição, na medida em que obriga os trabalhadores dos “setores errados” a terem que se especializar para serem realocados para os “setores certos”.

Muito do populismo de direita que está ganhando força agora nos países ricos parece ser motivado, dentre outros fatores, por essa insatisfação do operariado tradicional. Isso ficou claro com Trump, mas também é visível nos grandes países europeus.

OBS1: Teorias da conspiração que surgiram em reação a isso nos países ricos, como globalismo e afins, acabam sendo aceitos por partes da direita delirante aqui nos países pobres.

OBS2: Surpreendentemente (ou não), os populistas de direita dos países ricos encontram eco nos populistas de esquerda (e às vezes de direita) na America-latina. Trump falando que precisa proteger a indústria americana dos baixos salários dos países pobres é totalmente análogo (e igualmente sem lógica) a Ciro Gomes falando que precisa proteger a indústria brasileira da alta produtividade nos países ricos.

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