O peso da carga tributária e o tamanho do Estado de Bem-Estar Social

Quantos países do mundo se propõem a dar saúde, educação e previdência públicas e universais? Quantos deles tem uma carga tributária menor do que 33%?

“Ain mas eles recebem de volta. Veja os hospitais do Reino Unido!”

A eficiência do serviço público no Brasil pode ser ruim, mas este tipo de comentário é de longe o que mais ferve o sangue. Geralmente a pessoa que profere tal sentença não sabe que o Brasil é “tão rico” quanto Argélia ou República Dominicana. Pra sermos mais justos, por que não comparar o que populações de países com o nosso nível de renda recebem de volta? Tipo Botswana? O serviço público pode ainda sim ser ineficiente (e talvez seja mesmo), mas a gente sai do mundo de fantasia e cai no mundo real.

A escolha por um Estado de bem-estar foi feita na Constituição e tem sido confirmada durante todos os governos desde então. O Brasileiro tem que entender que:

1) Pra ter o que ele pede, tem que desembolsar bastante dinheiro. É assim no mundo todo que fez escolha parecida. Com eficiência ou sem, pagar 33% de carga tributária ou mais é o mínimo que ele vai ter que aceitar.

2) Se ele ficar olhando pra países “onde os serviços públicos funcionam”, não terá nenhuma métrica real do quanto o Estado brasileiro é eficiente, porque a grande maioria desses países são ricos. Não tem como ter serviço público da Bélgica com uma produtividade do trabalhador menor que Tunísia. A conta não fecha. Se for comparar esquece Suécia e pensa em Suriname.

Se estes 2 pontos não ficarem claros na cabeça do brasileiro, mais episódios de histeria coletiva como esse continuarão acontecendo, porque ele [o brasileiro] literalmente acha que existe uma grande conspiração pra prejudicá-lo; uma conspiração que o impede de viver tão bem quanto um alemão. Tirando os grandes conspiradores do poder, tudo se resolve e vivemos felizes para sempre. Isso não vai acontecer. É óbvio que existe corrupção, ineficiência e desperdício, mas todos estes fatores, combinados, não chegam perto de explicar o que nos separa da Alemanha.

O brasileiro acha que paga uma enormidade de imposto em relação ao que pede (não sabe quanto custa Estado de bem-estar pelo mundo) e acha que recebe uma miséria em relação ao que merece (não sabe que é mais pobre que um tailandês). Caso tivesse os fatos em mente, poderia comparar a eficiência do Estado brasileiro pra valer, formar expectativas razoáveis, reclamar com propriedade e escolher modelos.

Se as cartas fossem postas de forma honesta e clara, é possível até que escolhesse outra coisa. Talvez sabendo que inevitavelmente vai “pagar muito e receber pouco”, o brasileiro escolhesse ter mais dinheiro no bolso e menos serviços públicos.

Assine a newsletter e receba os novos textos que publicarmos aqui por e-mail.