Mises não é importante para o liberalismo econômico

O liberalismo econômico é a doutrina dominante do mainstream econômico. Ele é consistentemente respaldado pelas ferramentas teóricas e empíricas mais sofisticadas da Ciência Econômica. Como disse Pérsio Arida em uma entrevista ao Valor, “todo economista bem formado, que entende de fato como o mercado funciona, tende a ser liberal”. Em uma pesquisa sobre o posicionamento de economistas a respeito de vários tópicos, as posições que privilegiam o livre mercado tendem a ser dominantes dentro da profissão (pode-se dizer até que algumas posições liberais são consensuais, como a ideia de que tarifas de importação reduzem o bem-estar dos indivíduos). Até mesmo economistas que se consideram de esquerda, como Paul Krugman, adotam a respeito de muitos assuntos posições tradicionalmente ligadas ao liberalismo (aqui, por exemplo, ele defende consistentemente a ideia de vantagens comparativas).

Pode-se dizer, portanto, que a posição liberal de ascendência neoclássica exerce quase uma hegemonia dentre os economistas mais destacados.

Mas, apesar disso, os libertários de internet — os consumidores de textos do IMB e vídeos do Ideias Radicais — pensam que a academia é tomada por keynesianismo e que tudo que é ensinado nela é lixo. É fato que a academia brasileira sofre de uma séria inclinação para a heterodoxia de esquerda. Mas é fato também que nos principais centros acadêmicos de economia do mundo — isto é, no mainstream econômico — a posição keynesiana é geralmente rejeitada.

E essa relevância toda do liberalismo foi alcançada graças aos esforços de grandes economistas que fizeram pesquisa de ponta e demonstraram a superioridade intelectual desta doutrina. Alguns deles estão na foto acima. Foi intencionalmente deixado de fora nomes de economistas famosos entre os libertários de internet, como Milton Friedman e Friedrich Hayek. Não porque eles não tenham contribuído enormemente para a ascensão liberal (é claro que contribuíram), mas porque tenho a certeza de que os libertários de internet não irão reconhecer sequer dois ou três economistas da foto. Nomes como Edward Prescott e Robert Barro são reconhecidíssimos dentre os economistas — mas totalmente desconhecidos dentre os libertários de internet, analfabetos econômicos que são.

E Mises não contribuiu nem um pouco para a ascensão liberal no campo da economia. Acho até que ele mais atrapalhou do que ajudou. Sua grande “contribuição” para a economia, a praxeologia, é uma metodologia obtusa, que talvez servisse para o séc. XIX, mas de forma alguma para a segunda metade do séc. XX.

Se os liberais dependessem dele e de seus asseclas ancaps, o liberalismo seria uma doutrina marginal defendida apenas por sectários anticientíficos em algum lugar obscuro da internet, tal como o anarcocapitalismo. Jamais seria defendido pelas mentes mais brilhantes que a academia pode conceber.

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