Neoliberalismo do século 21

Poucos sistemas da teoria política são tão insultados como o neoliberalismo. Uma das principais razões é sua definição amorfa, que permite que o neoliberalismo seja usado como bode expiatório e conspiratório por qualquer pessoa e para qualquer queixa particular.

Veja o caso dos Estados Unidos. Para a direita cada vez mais nacionalista, os imigrantes “estão roubando os empregos” em um complô neoliberal para substituir o “trabalhador americano” e, ao mesmo tempo, “enviam” bons empregos americanos para o exterior através da terceirização. Para a esquerda liderada por Bernie Sanders, os neoliberais estão matando os pobres ao não cederem às exigências por um sistema único de saúde ao mesmo tempo em que o neoliberalismo interfere nos governos e impede a esquerda de governar, particularmente na América Central.

A verdade é que o neoliberalismo ganhou o status de bicho-papão favorito de todo mundo. Isso exige que ele deixe de ser definido por seus críticos, e ganheium sentido concreto e afirmativo.

Os Fantasmas do Passado do Neoliberalismo

Para definir o neoliberalismo em seu sentido moderno, é necessário primeiro analisar sua história em três períodos. Primeiro, houve o neoliberalismo clássico de Frederik Hayek, Ludwig von Mises e Milton Friedman, que se traduziu em uma devoção aos mercados que beirava a religiosidade.

Esta devoção levou a algumas características-chave que continuam a definir o neoliberalismo até hoje, tais como um forte apoio ao livre comércio e à imigração, e uma política externa internacionalista (doutrina Truman) com o objetivo de proteger e nutrir instituições que promovam o liberalismo em todo o mundo.

O neoliberalismo clássico teve também algumas características menos populares, tais como a demonização do Estado social e, inversamente, sua insistência em medidas de austeridade e privatizações.

A Segunda Era

O segundo período do neoliberalismo ocorreu durante a administração Clinton. Esta era foi em grande parte de transição, que viu as hostilidades neoliberais em relação às políticas de bem-estar social derreterem, mas não derreterem completamente. Algumas leis aprovadas por Clinton nessa era foram chamadas por acadêmicos de esquerda como “paternalismo neoliberal”.

Tal caracterização foi em geral correta, uma vez que as reformas tentaram dividir punitivamente os americanos pobres em categorias de merecedores e não merecedores de ajuda. Apesar dos erros, em geral, os anos Clinton mantiveram o ideal neoliberal de livre comércio, imigração e uma política externa internacionalista, ao mesmo tempo em que finalmente conseguiram trazer o liberalismo social para dentro do grupo.

Neoliberalismo Revisionista

A terceira era do neoliberalismo é a mais difícil de definir, pois ainda não foi defendida por um político verdadeiramente influente. Dito isto, seu status não definido oferece uma grande chance de rever o que ser neoliberal implica em termos de opiniões políticas e seu futuro enquanto movimento.

O neoliberalismo moderno, ou revisionista, deve buscar abandonar as tendências impopulares de seus antigos adeptos, antes de tudo. Deve defender um forte estado de bem-estar social com objetivos residualistas – isto é, assegurar que haja um padrão de vida básico que toda pessoa possa alcançar. Capacitar a todos para que possam se envolver com o mercado e os benefícios que este oferece.

Uma dose pesada de futurismo também é necessária para garantir que o movimento seja durável, consistindo de otimismo em direção à inovação tecnológica. Esta atitude de vanguarda é particularmente necessária no domínio da energia, onde a demanda por tecnologias e políticas verdes destinadas a punir os grandes poluidores é grande.

A política externa do neoliberalismo precisa de uma atualização para esse mundo em constante retração nacionalista que estamos vivendo. Falando em termos práticos, isto exige uma fusão de visões de mundo que sejam liberalistas e realistas – reconhecendo que a melhor maneira de domar uma política global inerentemente caótica e anárquica é através do cultivo de alianças e instituições internacionais para proteger os interesses do liberalismo global. O reino geopolítico moderno é uma grande competição por hegemonia. Uma competição tripolar e de soma zero entre China, Rússia e Estados Unidos. As instituições multilaterais são necessárias para impulsionar a vitória do liberalismo sempre que possível e ajudar nos esforços humanitários sempre que necessário.

Mas a espinha dorsal do neoliberalismo revisionista deve se estender além de uma (correta) devoção a altos níveis de imigração e livre comércio. Um ótimo lugar para a promoção do neoliberalismo está no reino do urbanismo, ou seja, na construção de habitações cada vez mais densas e um total compromisso com a expansão e modernização do transporte público.

Nos Estados Unidos, abolir o ICE (Nota do tradutor: Serviço de controle de Imigração envolvido em diversos escândalos na administração Trump) também seria um objetivo prudente, especialmente à luz das novas pesquisas da Pew mostrando que esse é o menos confiável entre os órgãos federais.

A ONU está projetando que 68% da população mundial viverá em áreas urbanas até 2050. Algumas medidas de urbanismo, como a reestruturação do zoneamento (especialmente em torno dos eixos de transporte público), deverão ser seguidas para atender às demandas de um mundo cada vez mais cosmopolita. As metas do urbanismo local poderiam ser o equivalente neoliberal do “socialismo do esgoto” de Milwaukee do início do século XX, que utilizou as metas ideológicas de um movimento maior para alcançar objetivos locais.

Todas as ideologias políticas precisam atualizar seus sistemas mais cedo ou mais tarde e um neoliberalismo atualizado para o século 21 serviria bem não somente aos Estados Unidos, mas ao resto do mundo.

Autor: Dylan Meisner

Tradução: Fernando Moreno

Publicado originalmente em 18 de abril de 2020 em: https://exponentsmag.org/2020/04/18/21st-century-neoliberalism/

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