Procure no site:

setembro 14, 2020

Eu sou um neoliberal. Talvez você também seja.

“Neoliberal” é um termo usado e abusado por algumas pessoas para atacar os fãs do livre mercado. Geralmente é mal definido e as tentativas de outras pessoas para defini-lo acabaram por serem confusas ou gerar confusão. A definição de Ben é a melhor que eu já li, porque descreve um grupo que é distinto dos libertários e que ainda não tem um bom termo para descrevê-los.

Este post é uma tentativa de destruir o bom trabalho de Ben e reapropriar o termo para meus próprios propósitos. Muito do que Ben diz ainda se aplica, mas muitas coisas também não.

Caso prefira audiotexto, ouça aqui

Há um grupo emergente e crescente de pessoas, particularmente saídas do movimento libertário, que não possui um termo descritivo útil. Essas são pessoas que tem um “espírito libertário” (no original: libertarianish) — mas são fundamentalmente diferentes do movimento libertário dominante quando se trata de importantes valores e abordagens e, francamente, muitos libertários os odeiam por serem, aos seus olhos, estatistas ou esquerdistas demais.

Eu sou um deles e talvez você também seja. Muitos de nossos opositores de esquerda nos descrevem como neoliberais para nos caluniar. Sugiro que façamos como as Suffragettes e usemos este rótulo com orgulho.

Então, quem somos “nós”? Aqui estão algumas crenças que eu acredito que “nós” temos em comum. Eu não estou afirmando que essas crenças são exclusivamente nossas, é claro.

1. Nós gostamos de mercados — muito. Acreditamos que os mercados são, de longe, a melhor maneira de organizar a maioria dos assuntos humanos que envolvem recursos escassos, porque eles alinham os incentivos das pessoas de maneiras que comunicam onde estes recursos podem ser usados com maior eficiência. Também dão às pessoas motivação para criar novas maneiras de usar os recursos existentes. Isso significa que mercados e sistemas similares ao mercado são desejáveis em muitos e muitos lugares em que eles não estão presentes no momento — saúde, educação, política ambiental, alocação de órgãos, congestionamento de trânsito, planejamento do uso do solo (zoneamento urbano).

2. Somos liberais consequencialistas. Um sistema se justifica se for aquele que melhor permite as pessoas viverem a vida que querem viver, ou as torna mais felizes ou mais satisfeitas do que qualquer outro sistema. Não há direitos inerentes que substituam isso. O bem-estar das pessoas é tudo o que importa e geralmente os indivíduos são os mais aptos a definir o que é melhor para eles mesmos.

3. Nos importamos com os pobres. Importar-se com o bem-estar das pessoas leva-nos a nos preocupar com as pessoas mais pobres. Normalmente um ganho extra de 100 reais faz mais bem para uma pessoa pobre do que a um milionário. Esta utilidade marginal decrescente significa que as vidas das pessoas pobres são as mais fáceis de melhorar para uma determinada quantidade de tempo, energia e dinheiro disponíveis.

4. Nos importamos com o bem-estar de todas as pessoas do mundo, não apenas de nosso país. É natural sentir que temos mais em comum com as pessoas que moram perto de nós e vivem como nós, assim como é natural se importar muito mais com sua família do que com desconhecidos. Mas, quando se trata de políticas públicas, nos preocupamos em melhorar a vida de todos, onde quer que eles estejam. Esse é um motivo pelo qual tendemos a ser bastante pró-imigração — não apenas porque é bom para nós que aqui moramos, mas porque é muito bom para os próprios migrantes.

5. Baseamos nossas crenças no conhecimento empírico, não em princípios. Existe um número ilimitado de histórias que você pode contar sobre o mundo, mas apenas algumas são verdadeiras. Você descobre quais são as reais comparando essas histórias à realidade, por meio de experiências, e descartando as que não se encaixam. Não importa se uma teoria parece ser coerente internamente — se não pode resistir à experimentação, está errada. Em particular, a pesquisa empírica quantitativa é a que mais valorizamos.

6. Tentamos não ser dogmáticos. Ao testar suas crenças contra o mundo é necessário que você esteja preparado para jogar fora as crenças que estão erradas, mesmo que seja doloroso fazê-lo. Isso significa que temos que estar dispostos a mudar de ideia, contradizer nossos amigos, abandonar nossos heróis e sermos impopulares com os companheiros de viagem que acham que estão obviamente certos. Uma maneira de lidar com os custos emocionais disso é internalizar a “virtude da mente aberta”, de modo que mudar suas crenças lhe dê tanto prazer quanto ser ideologicamente consistente normalmente faria.

7. Acreditamos que o mundo está melhorando. E realmente está: ideias pró livre-mercado se instalaram em quase todos os lugares, elevando os padrões de vida de maneira extraordinária para um grande número de pessoas. O consenso centrista (no original: centre-ground consensus) em quase todas as economias desenvolvidas é extremamente pró-mercado e liberal em comparação com o que era cinquenta anos atrás e, embora sejam quase sempre menos pró livre-mercado do que eram há cem anos, isso é compensado por grandes avanços nos direitos das mulheres e dos não-brancos.

8. Acreditamos que o direito à propriedade é muito importante. A propriedade previsível e formalizada de recursos escassos é extremamente importante. Permite que as pessoas façam planos de longo prazo para o futuro, o que incentiva a melhoria de suas próprias circunstâncias. Depreciar os direitos à propriedade abala caprichosamente o incentivo que as pessoas têm de não consumir seus recursos para, ao invés disso, investir no futuro, pois não terão certeza se realmente conseguirão aproveitar o retorno desse investimento. Isto é extremamente importante no mundo em desenvolvimento, onde os direitos à propriedade são fracos ou inexistentes, impedindo a acumulação de capital e o crescimento.

9. Mas estamos confortáveis com a redistribuição, em princípio. Por sermos consequencialistas não pensamos que o direito à propriedade tem significado moral em si e por si próprio — trata-se de uma regra útil que permite à economia funcionar adequadamente, mas que não possui valor intrínseco. As pessoas realmente não merecem os talentos com os quais nasceram mais do que merecem ter nascido em um país rico em vez de um pobre, ou ter nascido em 1996 e não em 1896. Por causa disso, redistribuir riqueza ou renda de pessoas afortunadas a pessoas desafortunadas pode ser justificável, se for feito sem diminuir muito o crescimento econômico. Redistribuição demais pode ter consequências negativas pois os impostos tendem a deprimir o investimento e o crescimento, mas redistribuição de menos tem também consequências negativas — os pobres não viverão uma vida boa o bastante. Um neoliberal é alguém que acredita que os mercados são surpreendentemente bons em criar riqueza, mas nem sempre são bons em distribuir riqueza.

Tenho notado que a maioria, se não todas, as declarações acima são verdadeiras para muitas pessoas com quem convivo e considero meus companheiros intelectuais mais próximos. Eu também suspeito que uma versão fraca da maioria dessas ideias é aceita por muitas pessoas que se consideram centristas, e que uma versão ainda mais fraca dessas ideias pode ser considerada a ideologia básica que sustenta o mundo moderno.

Meu nome é Sam Bowman e eu sou um neoliberal.

Autor: Sam Bowman

Tradução: Fernando Moreno

Audiotexto: Alysson Augusto

Publicado originalmente em: https://medium.com/@s8mb/im-a-neoliberal-maybe-you-are-too-b809a2a588d6

Se cadastre em nossa newsletter para:

  • Receber os convites para os encontros do grupo nacional e dos grupos locais de sua cidade.
  • Receba os novos textos que publicarmos aqui, assim como os textos do Neoliberal Project.

Juntos podemos barrar os retrocessos populistas, de esquerda e direita, e promover os valores liberais.

Deixe seu comentário. Faça parte do debate